A 16 de fevereiro de 2021, Pablo Rivadulla Duró, conhecido publicamente como Pablo Hasél, foi preso na Universidade de Lleida numa ação policial que atacou dezenas de manifestantes solidários ao tentarem impedir a sua detenção. Estava acusado de “injúrias à monarquia” e de “enaltecimento do terrorismo”. E a prisão do rapper comunista gerou uma onda de revolta em toda a Espanha. Na Catalunha, 109 pessoas foram detidas nos protestos dos dias que se lhe seguiram.
Um ano volvido, o jornal El Salto visitou-o no Centro Penitenciário de Ponent, em Lleida. As autoridades têm negado todos os pedidos de entrevista e, assim, esta acabou por se realizar sob o pretexto de uma visita pessoal.
Hasél aproveitou a ocasião para denunciar a “péssima situação das prisões na Catalunha” que “agravam os problemas sérios de saúde mental” que existem entre os detidos, falou na dificuldade da “distância forçada face às pessoas de quem mais gostamos” que se agravou com a diminuição do tempo de visitas sob o pretexto da Covid. Mas garante que continua “forte” e “com vontade de lutar”, considerando-se um preso político que luta “por uma sociedade muito melhor”.
A situação de preso político, quanto a ele, implica “uma vigilância muito maior” por parte das autoridades que “colocam mais empenho em tentar vergar-nos para conseguir o nosso arrependimento”. Estes presos normalmente “cumprem pena numa prisão longínqua” e não têm reduções de penas, é-lhes imposta uma “limitação de correspondência para aumentar o isolamento”. No seu caso, os primeiros cinco meses de prisão foram de um “isolamento encoberto” que não respeitava sequer o tempo em que poderia estar no pátio e em que estava proibido de fazer desporto. Este acabou devido à solidariedade que lhe chegou de fora. O rapper chegou a estar impedido de ter livros e continua proibido de gravar canções, ao contrário de outros detidos, mesmo as que não têm qualquer conteúdo reivindicativo.
Durante a pandemia, o isolamento foi a norma generalizada nas prisões. Pablo relata que “muitos presos tiveram fortes ataques de ansiedade a que lhes respondiam com ameaças de proibição de sair um pouco” e com mais medicação. Para quem tinha problemas de dependência e de saúde mental ainda “foi muito mais duro”.
Só que o músico dispara sobretudo contra toda a estrutura carcerária permanente na qual está envolvido o “negócio mafioso de empresas como o CIRE [Centre d'Iniciatives per a la Reinserció]” que são “inúteis para melhorar as pessoas”, onde se “oculta a sobre-exploração dos presos que trabalham”, se vive em prisões velhas com “instalações obsoletas”, a comida é “repugnante”, os preços de economato são “elevadíssimos” e há pragas de baratas, percevejos e ratos. Guarda ainda duras críticas para a “Junta de Tratamiento”, o órgão prisional que decide os programas de reinserção e as saídas da prisão, que acusa de manipulação, chantagem, falta de empatia e frieza. Denuncia ainda a expulsão de uma psiquiatra que “tinha muito mais sensibilidade com os presos e se opunha a muitas das condições”, feita por “motivos ideológicos” porque era independentistas, antifascista e contra a repressão, ao passo que “aqui trabalham muitos fascistas e por tudo isto era ela incómoda”.
Hasél falou igualmente do movimento de contestação que se seguiu à sua prisão. Um movimento que pensa ter sido de resposta à “negação de direitos e liberdades fundamentais”, como a liberdade de expressão, mas no qual também teve um papel importante “a grave pioria das condições de vida” da população. Por outro lado, acredita que o facto de denunciar “todos os flagelos do capitalismo” sem “se limitar a uma denúncia parcial” ajudou muita gente a identificar-se com a sua luta.
Diz que viveu esses dias “com raiva e dor por tanta repressão, brutalidade e linchamento mediático com mentiras de todo o tipo”, uma das quais foi a de que teria sido preso por outra causa que não o conteúdo das suas músicas e das suas publicações no Twitter. Mas também sentiu “orgulho, emoção e alegria” devido à mobilização gerada.
Na Catalunha, a isto tudo se juntou a questão nacional fazendo com que as manifestações se tenham prolongado mais no tempo, tenham sido mais massivas e “contundentes”.
O músico catalão manifesta-se preocupado com a situação dos jovens. “Metade estão desempregados, os salários e as condições laborais miseráveis tornam impossível uma vida digna devido aos preços de necessidades básicas” como a habitação. Diz ainda que “os capitalistas afastam-nos do caminho da revolução com drogas, incultura individualista e todo o tipo de distrações que injetam ideologia burguesa” e que recorrem à repressão quando não conseguem “sedar todos”. Apela assim à luta pela “dignidade coletiva”, a “não deixar-se imobilizar pelo derrotismo que o sistema difunde” e à organização. Para ele, “cada um tem de ter muito claro como pode contribuir para a luta”.