You are here

Owen Jones: “Não tivemos um referendo sobre a UE, mas sobre imigração”

Entrevista de Mariana Mortágua a Owen Jones sobre a eleição de Donald Trump, o Brexit e alternativas para a esquerda na Europa.
Mariana Mortágua entrevista Owen Jones.
Mariana Mortágua entrevista Owen Jones.

Esta entrevista está incluída no décimo programa Mais Esquerda, que pode ser visto aqui. A entrevista pode ser lida e vista (na íntegra em vídeo) em baixo.

Por que pensas que Trump ganhou as eleições, ainda que a maior parte das pessoas dissesse que isso não seria possível, e o que podemos esperar do seu mandato como presidente?

Penso que as razões pelas quais foi eleito são múltiplas. Não acho que se possa excluir o racismo, e a razão é que Trump obteve maioria entre todos os brancos, excepto entre as mulheres com graus universitários. Teve uma grande maioria entre brancos, homens, com graus universitários, e também sem grau universitário. Teve também uma maioria de americanos brancos e ricos e, na verdade, uma maioria de pessoas que ganham menos de 13 mil libras votou pela Hilary Clinton. 

E pode-se apontar como outra razão a misoginia, a Hilary Clinton era uma candidata do establishment, mas foi tratada de forma diferente dos candidatos masculinos do establishment, porque a campanha de Donald Trump destilava ódio contra as mulheres. Ele gabou-se de assediar mulheres sexualmente, do princípio ao fim da campanha demonstrou um ódio e um nojo absoluto pelas mulheres. Há um certo tipo de homens que não só viu desaparecer os seus trabalhos qualificados, o que lhes deu um sentido de orgulho, mas para alguns, há uma retaliação contra os movimentos de mulheres, contra os movimentos LGBT, que pensam que lhes prejudicaram o estatuto. 

Não resta qualquer dúvida de que há um sentimento contra o establishment a varrer o mundo ocidental, que se divide em duas direcções diferentes. Uma é a política baseada na esperança, uma política baseada na responsabilização dos poderosos; a outra é uma política de medo, que culpa os imigrantes por todos os problemas causados pelas pessoas no topo.

No entanto, não resta qualquer dúvida de que há um sentimento contra o establishment a varrer o mundo ocidental, que se divide em duas direcções diferentes. Uma é a política baseada na esperança, uma política baseada na responsabilização dos poderosos, uma política baseada na construção de uma sociedade que favoreça os interesses da maioria. Era sobre isso a campanha do Bernie Sanders, é o Podemos, é o Syriza, apesar das derrotas sofridas, e o vosso partido aqui em Portugal também. E depois há uma política de medo, que culpa os imigrantes, os muçulmanos e pessoas no ponto mais baixo da sociedade por todos os problemas causados pelas pessoas no topo. Nos Estado Unidos houve uma estagnação e declínio dos salários durante uma geração ou mais e a destruição das indústrias tradicionais, e isso aconteceu sob as sucessivas administrações Democratas e Republicanas, que seguiram todas políticas muito benéficas para aqueles no topo da sociedade, mas para mais ninguém. 

Ainda que os Republicanos tenham sempre tido a maioria entre os americanos ricos, é o que acontece sempre e os Democratas tenham sempre obtido a maioria entre pessoas com menos de 13 mil dólares por ano, a maior transição de votantes para Trump foi entre os que ganham menos de 13 mil dólares. Nessa pessoas, há uma oscilação de 16 pontos. Ainda que não tenha obtido a maioria, houve uma transição dramática no seu apoio. E algumas destas pessoas votaram no primeiro presidente afro-americano da história dos EUA, há quatro anos, e agora votaram por um candidato apoiado pelo Ku Klux Klan.

Como se explica isso?

É uma grande transição. Penso que há entre estas pessoas uma revolta contra o establishment. Hilary Clinton, sim, sofreu misoginia, mas ela é a representante suprema do establishment, é vista como estando ligada ao Clintonismo dos anos 90, que adoptou políticas, incluíndo acordos de comércio livre, que foram devastadoras para sítios como o Michigan e o Ohio, que eram locais tradicionais. É muito próxima da América empresarial, de Wall Street, o que, no rescaldo de uma crise financeira, não é muito popular, e com razão. É ainda próxima de ditaduras estrangeiras, como a Arábia Saudita, por exemplo, em parte pela sua fundação. 

Isto tudo junto com todo o sentimento anti-establishment, com uma candidata que é tão facilmente retratada como a candidata do establishment, é claro que não vai funcionar. Mas o que é importante, e isto é crucial, foi que Donald Trump obteve menos votos do que Mitt Romney há quatro anos e houve também uma queda do apoio dos democratas. Hilary obteve milhões de votos a menos do que Barak Obama em 2012 e 2008. Um dos grandes problemas foi a falta de entusiasmo das pessoas para ir votar. Ainda que tenhamos uma calamidade, e é uma calamidade Donald Trump ser eleito, mas ganhou com menos do que todos os candidatos republicanos nas últimas duas eleições. E os sinais de alarme estavam lá: o socialista melhor sucedido da história americana foi em 2016 e foi Bernie Sanders. Normalmente teria obtido 1%.

Os sinais de alarme estavam lá: o socialista melhor sucedido da história americana foi em 2016 e foi Bernie Sanders. Normalmente teria obtido 1%.

Ele teria ganho as eleições?

Eu estudei História, ensinaram-me a evitar dados contrafatuais, mas é certo que as suas sondagens eram muito melhores do que as de Hilary Clinton e mostram que teria derrotado Donald Trump nas eleições por uma margem muito maior. Alguns dirão: “a máquina de direita republicana ainda nem tinha começado a atacá-lo, numas eleições, teria sido diferente,” não sei. Mas sabemos que a Hilary Clinton, e as pessoas avisaram, seria vista como a candidata do establishment e o medo era que perdesse contra Trump. Vimos a falta de entusiasmo entre os eleitores democratas. Entre os afro-americanos Hilary saiu-se muito bem e Bernie Sanders falhou, foi por isso que não conseguiu ser nomeado. Mas por causa de uma enorme falta de entusiasmo nas bases democratas, Hilary teve dificuldades contra alguém que normalmente teria só 1%. As pessoas queriam qualquer coisa diferente, uma alternativa, e viram a Hilary como a velha ordem e isso devia ter sido um sinal óbvio nas primárias democratas. As pessoas não foram votar porque a viram como mais do mesmo, parte do establishment, não estavam entusiasmadas. 

Em termos do que significa a eleição de Donald Trump… Devíamos estar muito assustados, mesmo. Porque isto não é de todo uma administração republicana normal. Penso que se atira muito para o ar a palavra  fascismo, mas há, de facto, elementos proto-fascistas em Trump. É uma figura demagógica com um culto de personalidade e um movimento nele baseado, é muito autoritário, considera a dissidência como traição à nação. Disse-se que Trump estava a fazer campanha para uma nomeação republicana, e que assim que conseguisse ser nomeado, se ia transformar. Ele vociferou para reagrupar a base central republicana e poder ganhar, mas desde então, não mudou em nada o seu estilo, continuou a fazer campanha exactamente da mesma maneira. Não quero estar a exagerar, mas nos anos 20 com Mussolini a velha ordem italiana disse que ele seria moderado pelo poder.

Há elementos proto-fascistas em Trump. É uma figura demagógica com um culto de personalidade, é muito autoritário e considera a dissidência como traição à nação. Não quero estar a exagerar, mas nos anos 20 a velha ordem italiana disse que Mussolini seria moderado pelo poder.

Qual pensas que será a relação de Trump com as grandes corporações financeiras, os bancos…

É este o problema do populismo de direita: ele é um plutocrata americano, um bilionário, que fez campanha como o homem do povo contra as elites. Mas define as elites como toda e qualquer pessoa com uma inclinação “liberal”, no sentido americano. Quando sabemos que as verdadeiras elites são os bancos, a América empresarial. O perigo agora é que se trata de alguém com uma perspectiva extremamente autoritária, que não aceita normas democráticas, que tem um Partido Republicano cheio de medo dele, ainda que discordem dele, e tem o Senado, a Câmara dos Representantes. Há muito poucas coisas a controlá-lo. As pessoas falavam de Trump há uns meses, com toda a complacência, dizendo que era o fim do Partido Republicano, que este se tinha suicidado enquanto força política. 

Estamos perante a situação em que um demagogo misógino, racista e fanático é agora o homem mais poderoso do mundo e tem pouca coisa a controlá-lo. Penso que haverá confrontos, já vimos as manifestações, e ele usá-los-á como pretexto para introduzir legislação autoritária e para transformar a essência da república em que se constituíram os EUA. E o que significa para o resto do mundo? Todo e qualquer fanático, racista, fascista acordou no dia seguinte às eleições e sentiu-se vingado e triunfante. Pensam que a História está agora do lado deles. O populismo de direita já se está a alastrar pela Europa. Na Hungria temos um regime cada vez mais autoritário, com uma oposição, que é neo-fascista, o partido Jobbik. Na Polónia, a esquerda desapareceu do parlamento e a política é basicamente entre os “liberais”, chamados conservadores e os conservadores de direita dura populista no poder. Por toda a Europa, agora…

Um demagogo misógino, racista e fanático é agora o homem mais poderoso do mundo e tem pouca coisa a controlá-lo. Todos os fanáticos, racistas, fascistas acordaram no dia seguinte às eleições e sentiram-se vingados e triunfantes. Pensam que a História está agora do lado deles. O populismo de direita já se está a alastrar pela Europa.

Essa era a minha próxima pergunta, posso saltar uns passos e perguntar-te qual pensas que é, especialmente na Europa, a estratégia que a esquerda radical deve ter neste cenário em que ou a direita liberal apoia as instituições vigentes, ou a extrema-direita está a pôr em causa estas mesmas instituições?

É difícil porque varia de sítio para sítio. Penso que um dos problemas é que a nova forma de populismo de direita não se importa nada de falar de classe e tenta redefinir o que é a identidade de classe. E fala para uma classe trabalhadora muito patriótica que acha que as suas vidas e identidades estão a ser minadas pela imigração e pelo multiculturalismo e cujos inimigos reais são quer os liberais, quer os elitistas de classe média que vivem na capital, quer a esquerda. Eles acham que essas pessoas os odeiam, que odeiam o seu estilo de vida, os seus valores e que se preocupam com os estrangeiros, mas não se preocupam com eles… E é por isso que a questão da classe é tão importante. Na Grã-Bretanha temos uma Primeira Ministra conservadora que, pela primeira vez em nem sei quanto tempo, fala da classe trabalhadora e é esta a abordagem deles. E o que a esquerda tem de fazer é concentrar-se em ter raízes profundas na classe trabalhadora e isso significa conseguir comunicar com essas pessoas. 

O perigo neste momento é, penso eu, que a esquerda fala frequentemente de uma forma que diz qualquer coisa a pequenos grupos de pessoas que já são politizadas, mas a maior parte das pessoas da classe trabalhadora continua completamente alienada. A coligação da esquerda mudou, houve um aumento de pessoas com frequência universitária nas grandes cidades e depois tens toda a classe trabalhadora em cidades mais pequenas e em muitos países europeus têm visões e prioridades completamente diferentes: é por isso que as coligações da esquerda tradicional se estão a partir, a fragmentar e há frequentemente grande hostilidade em relação a elas. Na Grã-Bretanha vimos isso: os jovens universitários nas grandes cidades em geral gostam bastante da imigração e votaram para ficar na União Europeia. As pessoas da classe trabalhadora nas cidades mais pequenas vêem a imigração como uma grande ameaça e não gostam da União Europeia porque pensam que significa deixar entrar estrangeiros. O problema é como se reconstrói essa coligação. Porque essa divisão geracional é um problema e penso que isso quer dizer que o perigo é que os valores e as prioridades da esquerda sejam demasiado definidos pelas pessoas das grandes cidades sem sequer perceberem como comunicar de uma forma que diga alguma coisa a pessoas do sítio onde eu cresci, por exemplo.

As pessoas da classe trabalhadora nas cidades mais pequenas vêem a imigração como uma grande ameaça e não gostam da União Europeia porque pensam que significa deixar entrar estrangeiros. O perigo é que os valores e as prioridades da esquerda sejam demasiado definidos pelas pessoas das grandes cidades sem sequer perceberem como comunicar com as pessoas do sítio onde eu cresci, por exemplo.

Deixa-me perguntar directamente: depois da chantagem na Grécia, tu apoiaste a ideia de sair da União Europeia e depois, durante o referendo, apoiaste a permanência. O que te fez mudar de ideias e o que pensas que a esquerda deve fazer agora que a Grã-Bretanha votou a favor da saída?

Sou um euro-céptico de esquerda. O que significa que me oponho à União Europeia na sua forma presente, porque penso que lhe falta democracia, que está feita a favor dos tratados, a favor das corporações multinacionais. Por isso sempre argumentei que temos de construir movimentos por toda a Europa para transformar a natureza da União Europeia.

O argumento que apresentei Julho passado não era para apoiar um “Lexit”, o nome pelo qual é conhecida a esquerda pelo Brexit, mas a minha ideia era de que a esquerda devia debater e considerar essa hipótese sem ter de se comprometer. Mas que precisávamos de ter essa discussão e apresentei as razões, por exemplo, no rescaldo da Grécia e assim por diante. Mas acima de tudo, a discussão à esquerda na altura (no princípio de janeiro) que David Cameron negociaria contra os direitos dos trabalhadores como parte de qualquer acordo. Os direitos básicos garantidos ao ser-se parte da UE, como os direitos dos trabalhadores temporários, por exemplo. A opinião de Cameron era que a esquerda e os sindicatos apoiariam qualquer acordo que surgisse, que não importava o que ele negociasse. 

O argumento que apresentámos na altura era para dizer “na verdade, não, não apoiaremos seja qual for o acordo que nos apresentes, se te vires livre de coisas como os direitos dos trabalhadores, então não apoiaremos acordo algum.” Era essa a posição. E por causa da pressão da esquerda, dos sindicatos, ele recuou nisso. Agora é tudo no abstracto porque deixámos a União Europeia, mas na Grã-Bretanha, não tivemos um referendo sobre a União Europeia, tivemos um referendo sobre a imigração. Era sobre isso, mais nada. E foi a campanha mais tóxica e venenosa na Grã-Bretanha do pós-Guerra. Foi sobre os estrangeiros serem terroristas, criminosos, violadores… A campanha oficial fez listas de imigrantes da UE que tinham violado pessoas britânicas para defender o seu argumento. Era essa a campanha oficial. Mentiram e disseram que a Turquia ia integrar a União Europeia e que seríamos inundados por criminosos turcos. Nigel Farage pôs-se à frente de um cartaz a dizer “ponto de ruptura” e por trás dessas palavras estavam refugiados de pele escura.

Na Grã-Bretanha, não tivemos um referendo sobre a União Europeia, tivemos um referendo sobre imigração. Era sobre isso, mais nada. E foi a campanha mais tóxica e venenosa na Grã-Bretanha do pós-Guerra. Foi sobre os estrangeiros serem terroristas, criminosos, violadores…

Está bem, percebemos a situação de populismo e o contexto do referendo. Mas pode a esquerda estar numa posição em que tem de defender a União Europeia, onde defender a União Europeia é a única forma de contrariar a extrema-direita?

Não, não, não!

Qual é a estratégia agora?

Tivemos uma campanha chamada “Uma outra Europa é possível”, apoiada por gente como o Yannis Varoufakis etc. A minha opinião era de que deveríamos construir movimentos e partidos pela Europa. O meu medo é que numa altura de crescimento da direita populista, se a União Europeia colapsar, o que é muito possível nos próximos anos, será nos termos da direita populista e xenófoba e quererá dizer que recuaremos directamente aos anos 30. E poderá mesmo significar a destruição total da Europa porque neste momento, por toda a Europa, quem está a subir são os populistas e a direita xenófoba.

Desde o referendo, houve um aumento dos crimes de ódio, porque os fanáticos pensam agora que têm um mandato livre, a dissidência é agora tratada como traição. O governo foi a tribunal para dizer que o desencadear do artigo 50 não precisava de escrutínio parlamentar. Perderam o caso em tribunal, o que significa que terá de haver escrutínio parlamentar. A primeira página do Daily Mail, o segundo maior jornal da Grã-Bretanha, tinha as fotografias dos juízes e o cabeçalho “inimigos do povo”. Lembra-te que, durante a campanha do referendo, uma deputada do Labour, Jo Cox, foi morta por um alegado assassínio, que foi a tribunal e que disse, quando lhe perguntaram o nome em tribunal, disse “morte aos traidores, liberdade para a Grã-Bretanha”. 

Temos agora jornais de direita, a usar a linguagem de “traidores”, como se as pessoas que apoiavam a permanência fossem o “inimigo interno”. É um sentimento completamente de direita, populista, anti-imigração que se tornou agora completamente corrente, e que está a transformar a cultura política britânica, e que é muito perigoso, porque estes extremistas estão a ser encorajados e o futuro do meu país é muito sombrio de momento. O maior desastre que aconteceu à esquerda britânica desde 1931 foi o Brexit. Resumiu-se à saída da Grã-Bretanha nos termos de uma direita dura, xenófoba e populista, que está agora triunfante. E as pessoas que vão sofrer mais são os imigrantes… Se fosse português e vivesse na Grã-Bretanha, sentir-me-ia bastante assustado. Tu também te sentirias.

O maior desastre que aconteceu à esquerda britânica desde 1931 foi o Brexit. Resumiu-se à saída da Grã-Bretanha nos termos de uma direita dura, xenófoba e populista, que está agora triunfante. E as pessoas que vão sofrer mais são os imigrantes.

Sim, percebo. Todos temos a noção de quão forte é esta mudança na política tradicional e no crescimento da extrema-direita não em Portugal, mas noutros países europeus, mas não achas que as pessoas responsáveis pela destruição da União Europeia e a Zona Euro são aqueles que lhe estão a ditar as regras?

Concordo. As pessoas responsáveis pela crise da União Europeia são as pessoas que impuseram a austeridade, que foi desastrosa para as pessoas deste continente, incluindo aqui em Portugal, que promoveram privatizações, ataques contra os direitos dos trabalhadores, que eliminaram os padrões de vida de centenas de milhares de pessoas, aumentaram a pobreza, aumentaram a insegurança. São eles que são totalmente responsáveis, aceito isso perfeitamente. Parte dos sintomas disso é o crescimento da extrema-direita, como a Frente Nacional.

Achas que há uma ligação entre o crescimento da extrema-direita e a austeridade?

Absolutamente, claro. A Frente Nacional em França, está a atrair a classe trabalhadora, é isso que nos devia alarmar. E não só pessoas de classe trabalhadora, mas os jovens, estão a ser atraídos pela Frente Nacional em França. O tipo de pessoas que devia estar a apoiar a esquerda. A Frente Nacional tem sido engenhosa, o que eles fizeram foi combinar o ódio anti-imigração, anti-muçulmano, com um apropriar da retórica da esquerda sobre a economia. E foi uma coisa muito inteligente, porque a realidade presente para muitas pessoas, zangadas com os grandes negócios, por causa dos nossos falhanços em muitos países europeus, estão zangadas também com os imigrantes. Se fores contra as duas coisas, tens uma fórmula eleitoral muito bem sucedida, como se revelou. É mesmo muito perigoso.   

Os fascistas, a extrema-direita, é sempre capaz, quando se fala de economia… mudam de retórica e saltam entre a esquerda e a direita, dependendo das circunstâncias. Mas a verdade é que as pessoas responsáveis pelas regras arruinam a União Europeia, especialmente o governo alemão, porque as políticas económicas deles não só destruíram a vida das pessoas, promovendo pobreza massiva e desemprego, mas também deixaram as bases para os partidos de extrema-direita, que ameaçam a própria existência da União Europeia. Não penso que a resposta a isto seja o desmantelar da União Europeia, porque isso viria beneficiar, no estado em que estão as coisas, esses partidos. São eles que beneficiarão. Mas significa conseguir eleger governos de esquerda que possam confrontar a União Europeia e livrar-se de coisas como o apoio às privatizações, a austeridade e tudo o resto.

A Frente Nacional tem sido engenhosa, eles combinaram o ódio anti-imigração, anti-muçulmano, com um apropriar da retórica da esquerda sobre a economia. Foi uma coisa muito inteligente e muito perigosa.

Então há uma saída de esquerda?

Um “Lexit”?

Um “Lexit”.

No estado em que estão as coisas… Em Portugal seria diferente do nosso contexto, porque vocês não iriam ter um referendo sobre imigração, mas se a França saísse da União Europeia, a razão para saírem, acima de todas as outras, seria a imigração e a culpabilização da imigração pelos problemas que tem a França. E isso seria um desastre.

Seria uma saída de direita. Mas é possível ter uma saída democrática da União Europeia e das instituições europeias, caso não se encontre uma solução colectiva para…

Em Portugal, teoricamente, podemos imaginar uma saída de esquerda, aceito. Mas no contexto presente, quaisquer que sejam os termos de saída de Portugal, e quem quer que esteja a fazer campanha por isso… as pessoas que, no estado actual, rejubilariam com isso seria a extrema-direita, por toda a Europa, porque diriam “boa, mais um exemplo do colapso geral” e isso reforçaria o apoio noutros países, nos termos deles. Porque seria esse o caso nos Países Baixos, em França, em Itália.

Uma pergunta geral, nem sequer estou a defender a minha opinião, estou só a perguntar. Quer gostes, quer não, não é esse o resultado? O resultado seria a direita a aproveitar-se da angústia das pessoas em relação à União Europeia e a esquerda ficar a ver…

Em Portugal, teoricamente, podemos imaginar uma saída à esquerda, aceito. Se Portugal sair da União Europeia, a culpa é da União Europeia e de mais ninguém, porque seguiram políticas que devastaram as vidas de milhões de portugueses, atacaram o Estado Social, os direitos dos trabalhadores, o que beneficiou as pessoas mais ricas da sociedade. Seriam eles os responsáveis.

Certo, é claro que vão sempre tentar fazê-lo, mas são estas as condições políticas objectivas que temos, onde as forças a crescer, pelo mundo ocidental, especialmente depois de Donald Trump, são as de direita populista e xenófoba. A História está do lado deles. E se a Hungria sair será, mais uma vez, com base no populismo de direita. 

Se Portugal sair da União Europeia, a culpa é da União Europeia e de mais ninguém, porque seguiram políticas que devastaram as vidas de milhões de portugueses, atacaram o Estado Social, os direitos dos trabalhadores, o que beneficiou as pessoas mais ricas da sociedade. Seriam eles os responsáveis e mais ninguém. 

Como disse, sou um euro-céptico de esquerda, sou muito céptico em relação à União Europeia na sua forma presente. Mas o rescaldo do Brexit, para mim, na Grã-Bretanha, tem sido uma experiência aterradora, a atmosfera é terrível e é tóxica. Diria que percebo as razões para deixar a União Europeia, mas não posso deixar de olhar para os ecos dos anos 30, neste momento. Sei como acaba este filme, não acaba muito bem. E a desintegração da Europa enquanto entidade política, por si própria, no contexto político corrente, preocupa-me que fosse apenas uma enorme ajuda à extrema-direita. Mas cabe às pessoas em Portugal e percebo porque possam elas querer sair.

Algum comentário final que queiras deixar?

Sim, só para acabar, que isto agora foi um bocado deprimente! Acho que o que quero dizer é: Portugal é na verdade um pouco uma jangada salva-vidas. É um farol de esperança, porque, enfim, vocês não têm o governo de esquerda radical que eu gostaria…

Nós também gostaríamos!

Ora bem! Mas vocês são um dos únicos países que não têm um governo de direita. E mostraram que há pelo menos o potencial para uma alternativa. A Grã-Bretanha vai sair da União Europeia, mas não importa, temos de construir a solidariedade por toda a Europa, estando na União Europeia ou não. Temos de construir solidariedade, aproximar os trabalhadores, porque as pessoas que estamos a enfrentar não respeitam fronteiras…

Vamos construir uma Europa diferente, como quer que o consigamos. A acredito que conseguiremos. Apesar do quão assustadoras estão as coisas, há esperança porque há movimentos como o de Bernie Sanders, o Podemos, como o Bloco, que estão determinados em transformar o mundo e construir um mundo no interesse da maioria. Vamos chegar lá.

Eles dizem que sim…

Dizem, claro, é o populismo deles. Mas o que quero dizer é que estão unidos globalmente e são uma força formidável. E não podemos derrotá-los num país de cada vez. Só o podemos fazer se construirmos solidariedade para lá das fronteiras. Não será fácil, será muito difícil. Mas para além disso, Portugal tem uma orgulhosa e inspiradora história de pessoas que lutaram contra o fascismo, contra a ditadura, que lutaram pela democracia. Tens essa história por toda a Europa, de pessoas que se levantaram contra a injustiça, que se levantaram contra a tirania, que se levantaram pelas mulheres, pelos direitos dos trabalhadores, pelos direitos das pessoas LGBT. 

E a maneira de conseguirmos a mudança não é esperar pela generosidade dos poderosos, é com as pessoas que vêm de baixo a lutar pelos seus direitos e pela sua liberdade. E sentamo-nos nos ombros de gigantes: tudo o que temos foi ganho pelos nossos antepassados que lutaram com grande dificuldade. Tenhamos a mesma determinação, coragem e resiliência que as pessoas mostraram em Portugal em 1974. Vamos construir uma Europa diferente, como quer que o consigamos. A acredito que conseguiremos. Apesar do quão assustadoras estão as coisas, do crescimento do proto-fascismo, da maior potência do mundo estar agora nas mãos de um psicopata racista desenfreado… Há esperança, porque há movimentos, como o de Bernie Sanders, o Podemos, como vocês, que estão determinados em transformar o mundo e construir um mundo no interesse da maioria. Vamos chegar lá. Parece difícil de momento, mas chegaremos lá.

Tradução de Mariana Vieira para o esquerda.net.

Termos relacionados Internacional
Comentários (2)