O bairro da Misericórdia nasceu em 1949 em Ovar por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia. As suas casas térreas com pequenos quintais e áreas comuns com detalhes que os moradores foram acrescentando dão-lhe um aspeto pitoresco e acolhedor. Muito do que o bairro é hoje resulta das lutas dos moradores, que ao longo de 70 anos foram conquistando sucessivamente o acesso à rede de saneamento e água, a iluminação pública, o asfaltamento das ruas.
Mas muitas melhorias há ainda por fazer, e recentemente os moradores da Misericórdia tiveram uma má surpresa com uma adição inesperada ao seu bairro. Tudo começou quando a 24 de janeiro deste ano a Assembleia Municipal da Ovar transferiu a propriedade dos terrenos comuns para a autarquia. Os moradores, após anos de luta, viram esta decisão com esperança de que abrisse espaço para a reabilitação e modernização do bairro, respeitando a sua história e arquitetura.
A desilusão e revolta no entanto rapidamente assaltaram os moradores, quando a transferência para a autarquia trouxe como primeira novidade um edifício de volumetria muito superior à do bairro. A este atentado urbanístico um morador chamou a "torre de Pisa do bairro da Misericórdia". Outro manifestou-se "indignado ao ver um autêntico paiol de pombas por trás de minha residência", quando em décadas de vida no bairro "foi-me sempre dito que nem as telhas se podia mudar".
Com efeito, ao longo de anos os moradores repetidamente enfrentaram problemas ao fazer pequenos obras de manutenção nas suas casas, deixando-os tanto mais incrédulos com o caso da "torre de Pisa". Uma moradora afirmou numa reunião de moradores que "já quis intervir na minha casa", mas a resposta da câmara foi que "não podia mexer: a casa tem de ficar como está". Outro morador referiu o caso do irmão, que "teve a casa embargada várias vezes quando fez obras, e ele não alterou absolutamente nada no traçado". Uma terceira moradora deu voz à perplexidade: "Se os nossos antepassados viessem até aqui e vissem aquela casa, até morriam. Ninguém pensava que se pudesse fazer aqui no bairro uma casa daquelas".
Outros problemas preocupam os moradores da Misericórdia. Numa reunião, um morador alertou: "A maior parte dos moradores não sabe que água bebem. A nossa água é transportada num tubo de lusalite", material que por toda a parte está a ser "retirado das casa e dos telhados por causa do amianto. Significa que ingerimos diariamente água que pode ter amianto". A rede de esgotos e saneamento precisa de renovação urgente pois não chega para as necessidades — "nem um papel se pode deitar na sanita", afirma um testemunho.
Perante este panorama, os moradores exigem que a Câmara de Ovar os ouça. "É pena que a autarquia só apareça aqui durante as eleições, depois esquecem-se que isto existe", afirma uma moradora, que reclama da autarquia informação sobre "que tipo de espaço vão arranjar, que tipo de arruamentos. O que é que pensam fazer neste bairro?". Outro morador completa: "Queremos que a câmara que se responsabilize por falar connosco. Não é fazer como a gente manda — mas ouvir-nos. Porque nós somos os residentes deste bairro".
Os moradores prosseguem a sua luta e para já conseguiram que a câmara se comprometesse a fazer um levantamento topográfico do bairro para acautelar percalços como a "torre de Pisa", um primeiro passo num longo caminho a percorrer. O Bloco de Esquerda em Ovar tem apoiado os moradores e lançou no final de abril um vídeo que lhes dá voz, que pode ver abaixo.