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Outras Cartografias: Femicídio na América Latina

Continente tem as maiores taxas no mundo e a pandemia piorou a situação. O Brasil é líder em números totais; El Salvador e Honduras estão na frente nos relativos. Estes crimes podem ser vistos como continuação da violência colonial. Por Giovanna Moscatiello no Outras Palavras.
Pancartas feministas com o nome de mulheres assassinadas. Foto de Encuentro de Feministas Diversas/Flickr.
Pancartas feministas com o nome de mulheres assassinadas. Foto de Encuentro de Feministas Diversas/Flickr.

Os números da violência femicida nos territórios latino-americanos chamam a atenção não apenas pelo alto número de crimes, mas também pela intensidade de crueldade. A região que compreende grande parte da extensão continental das Américas do Sul e Central, recebe este nome devido ao passado colonial relacionado aos processos de colonização e invasão Ibérica de espanhóis e portugueses. Com exceção das Guianas, Suriname, Belize e Jamaica, a América Latina corresponde a uma totalidade de 20 países, incluindo o México (único país da América do Norte considerado parte da América Latina). Como um sintoma da crise social/política/económica que nos assola, como se houvesse uma continuação da violência colonial, nós, mulheres latinas, convivemos com o lema: corpo de mulher, perigo de morte.

Ainda que a região seja pleiteada com uma gama de legislações e medidas de proteção em relação ao delito de femicídio, segundo dados disponíveis em plataformas digitais como o Portal Geledés (GELEDÉS Instituto da Mulher Negra), Portal Catarinas (Jornalismo com perspectiva de género), El País e BBC, instituto Patrícia Galvão (PAGU), ONU Mulheres e no Observatório de Igualdade de Gênero da América Latina e do Caribe (CEPAL), a América Latina é a região mais letal para mulheres no mundo (CENTENERA; JUCÁ; REINA; TORRADO, 2018), concentrando índices que chegaram a relação de 11.76 mortes a cada 100.000 mulheres, em El Salvador, no ano de 2018 (ORMUSA, 2020). Segundo a plataforma de comunicação visual Cotejo.info, também para o ano de 2018, uma mulher foi morta a cada quatro dias na Venezuela por conta de razões de género (totalizando 90 mortes) (TERÁN, 2018). De maneira contrastante, no Brasil, aproximadamente quatro mulheres morreram por dia nos anos de 2018 e 2019 (CEPAL, 2019).

O mapa referente ao número de mortes para o ano de 2019, foi elaborado através do índice de morte para cada 100.000 mulheres, conforme dados disponíveis nos meios de comunicação online, observatórios autónomos e institucionais.

Como uma tentativa de escancarar a responsabilidade do Estado em lidar com a problemática da violência substancial contra mulheres, a legislação na América Latina sobre os crimes de femicídio caracteriza-se como resultado de reivindicações feministas, sobretudo vinculadas ao tema dos direitos humanos. Fruto de recomendações de organizações internacionais, como a CSW, CEDAW, CIM, ambos da ONU, e de cartilhas como a Declaração Sobre a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, proclamada em 1993, e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher “Convenção de Belém do Pará”, de 1994, a tipificação do delito na América Latina, desde meados dos anos 2000, coloca em cheque a fratura existente entre a formulação de uma legislação estreitamente específica combinada com a não-interrupção, senão uma onda progressiva, de reprodução da violência baseada no género.

Segundo dados recolhidos em relação ao número bruto de casos de violência femicída na América Latina (meios de comunicação online), no ano de 2018, respetivamente, 1206 mulheres foram vítimas de violência letal no Brasil, 898 no México, 663 na Colômbia, 383 em El Salvador e 380 em Honduras. Em 2019, houve 1314 vítimas no Brasil, 1006 no México, 571 na Colômbia, 390 em Honduras e 327 na Argentina. Esses compreendem, apenas, o grupo dos cinco países onde os números absolutos foram mais expressivos. Ainda assim, países como Bolívia, Equador, Guatemala, Peru e Venezuela não apresentaram taxa menor do que 100 mortes no ano de 2019.

Desde o começo da pandemia de covid-19, o confinamento de mulheres em casa aumentou as taxas de femicídio no Brasil em pelo menos 10 estados (Pará, Acre, Mato Grosso, Maranhão, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, Sergipe, Pernambuco e Ceará). Segundo o Portal Catarinas (2020), os crimes de femicídios aumentaram em 5% em relação ao mesmo intervalo de tempo no ano passado (em 2020, somente em dois meses, 195 mulheres foram vítimas de violência letal no Brasil). Contudo, ainda que exista uma distorção nos números ao considerarmos a existência de um problema de sub-notificação de casos, agravado por conta do confinamento, as denúncias feitas feitas para o Ligue 180 aumentaram em 34% durante o isolamento social.

Pedindo emprestados os termos do filósofo camaronês Achille Mbembe, a crueldade direcionada ao corpo da mulher latina, ao atingir sua instância máxima através do femicídio, passa a demonstrar-nos a existência de um grande projeto de domínio sobre a vida, ou melhor, sobre qual corpo se deve deixar morrer. Ainda que possamos falar sobre a existência de projetos de prevenção e combate à violência, a legislação padecerá inócua enquanto nossas exigências não deixarem o espaço da alteridade na representação política, ou seja, enquanto não houver a desmontagem entre a esfera pública e a reprodução dessa violência direcionada aos nossos corpos.


Giovanna Moscatiello é geógrafa e investigadora na UNESP sobre pensamento descolonial, género e violência femicída na América Latina.

Texto publicado originalmente no no Outras Palavras. Adaptado para português de Portugal pelo esquerda.net.

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