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Os voos espaciais dos bilionários são uma bomba de carbono que destruirá o planeta

Jeff Bezos e Elon Musk pretendem expandir os voos espaciais comerciais, ainda que um único passageiro emita mais poluição em poucos minutos do que 1/8 da população mundial irão produzir em toda as suas vidas. Por Luke Savage.
SpaceX foto de Centro Espacial da NASA Kennedy/Flickr.
SpaceX foto de Centro Espacial da NASA Kennedy/Flickr.

No início deste mês, o World Inequality Lab, fundado por Thomas Piketty, entre outros, divulgou os seus dados anuais sobre desigualdades de riqueza, rendimento, género e ambientais. Como de costume, o relatório é extenso e vale a pena ler na íntegra.

Um destaque particular, contudo, surge na secção sobre a desigualdade global de carbono, que detalha amplamente a parcela desproporcional das emissões de carbono produzidas pelos super-ricos. Embora as pessoas em países ricos tendam a emitir mais como um grupo, as pessoas mais ricas em todo o mundo estão realmente numa categoria própria: tomadas em conjunto, na verdade, aqueles que estão no 1% do topo da receita global respondem por cerca de 15% das emissões – mais do que o dobro da parcela da metade inferior.

As razões para isso são bastante simples. Os estilos de vida dos ultra-ricos, quase por definição, envolvem hábitos de consumo e padrões de comportamento que implicam uma pegada de carbono muito maior. Como Stefan Wagstyl, do Financial Times, afirmou sucintamente neste artigo:

“Quase tudo que os ricos fazem envolve emissões mais altas, desde morar em casas maiores a conduzir carros maiores e voar com mais frequência, especialmente em jatos particulares. Comer carne faz parte disso, assim como ter uma piscina. Sem mencionar uma casa de férias. Ou várias casas.”

É difícil imaginar uma ilustração mais nítida da desigualdade de carbono do que o recente fenómeno dos voos espaciais recreativos, como os realizados pela Blue Origin de Jeff Bezos, a Virgin Galactic de Richard Branson ou a SpaceX de Elon Musk no decorrer deste ano – voos cuja ambição era claramente popularizar a ideia de viagem espacial comercial para que possa eventualmente tornar-se um empreendimento mais comum (e talvez lucrativo).

Então, quanto carbono esses voos emitem?

Analise o “Relatório de Desigualdade Mundial” deste ano e encontrará a estimativa surpreendente de que um único voo espacial de 11 minutos emite pelo menos 75 toneladas métricas de carbono por passageiro (de acordo com os investigadores, esta é na verdade uma estimativa extremamente conservadora, e o valor pode estar na faixa de 250 a 1000 toneladas métricas por passageiro). Para efeito de comparação, os dados do relatório mostram que até 1 bilhão de pessoas emitem menos de uma tonelada métrica por ano – o que significa que um único passageiro num voo espacial curto produz mais poluição de carbono em poucos minutos do que as pessoas que pertencem a cerca de um oitavo da população global, ao longo de toda a sua vida.

Se as viagens espaciais comerciais se expandissem com sucesso além de breves voos sub-orbitais, para viagens mais longas ou mesmo estadias orbitais prolongadas, seria fácil – e assustador – imaginar o quão mais significativa a pegada de carbono se tornaria rapidamente. Atualmente, pelo menos uma empresa está a gabar-se dos seus planos de construir e lançar um hotel espacial de luxo antes do final da década. Se esses planos forem bem-sucedidos como agora estão no papel, a chamada Estação Voyager abrigará quase 300 convidados e mais de 100 membros da tripulação, elevando a poluição produzida pelas viagens espaciais privadas a uma escala inteiramente nova.

Ainda não é claro, obviamente, se o voo espacial comercial pode realmente representar um modelo de negócios viável ou lucrativo nas próximas décadas. O que fica claro é que os hábitos de consumo sempre crescentes dos extremamente ricos já estão a colocar um fardo insustentável no clima global – e que as viagens espaciais privadas realizadas numa escala maior podem efetivamente representar uma sentença de morte para o planeta.


Nota do editor: O World Inequality Lab confirmou que os números acima referidos das emissões de voos espaciais incluem todo o ciclo de vida das emissões envolvidas num voo espacial, não apenas aquelas criadas no ponto de uso.


Luke Savage é colunista da Jacobin.

Artigo publicado originalmente na Jacobin Brasil. Traduzido por Cauê Seignemartin Ameni. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.

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