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Os socialistas norte-americanos e o ataque ao Irão

Na sequência do atentado contra o general Suleimani, Dan La Botz defende que os socialistas nos EUA devem opor-se ao imperialismo do seu país sem com isso passar a apoiar o regime iraniano ou nenhum dos imperialismos regionais em conflito na região. O lado dos socialistas é o da classe trabalhadora contra os tiranos, argumenta.
Manifestação em Nova Iorque contra a guerra com o Irão. Fevereiro de 2012.
Manifestação em Nova Iorque contra a guerra com o Irão. Fevereiro de 2012.

O presidente Donald Trump declarou de facto guerra ao Irão através do assassinato do Major General Qassim Suleimani, líder da força de elite iraniana Quds, num ataque aéreo próximo do Aeroporto Internacional de Bagdade.

O assassinato de Suleimani levará muito provavelmente a uma guerra, apesar de ser pouco claro como tal guerra se vai desenvolver e que forma vai assumir. Como é que os socialistas americanos decidem a sua posição nesta nova situação?

Oposição ao imperialismo dos EUA

Em primeiro lugar, opomo-nos ao último ataque do governo dos EUA ao Irão, o mais recente de uma série de medidas diplomáticas, económicas e militares contra o governo iraniano. As medidas económicas afetaram toda a população. Em maio de 2018 Trump retirou os Estados Unidos da acordo nuclear com o Irão e depois em junho e mais tarde outra vez em setembro de 2019 anunciou novas sanções económicas contra o Irão.

Todas estas medidas foram um caminho para chegar ao último ataque contra o Irão na forma do assassinato de Suleimani. Agora a administração de Trump enviou mais três mil tropas adicionais para o Médio Oriente. Nós, socialistas, devemos erguer-nos contra as pressões ou ataques diplomáticos, económicos e militares dos EUA contra o Irão.

Trump criou uma presidência imperial e atuou de uma forma autoritária e completamente anti-democrática ao conduzir os Estados Unidos para a guerra. Para desencadear o ataque ao Irão, Trump não requereu ao Congresso um novo projeto de lei de Poderes de Guerra, nem invocou as antigas leis, agora fora de prazo, nem sequer consultou os líderes do Congresso. De acordo com a Constituição dos EUA, claro, apenas o Congresso pode declarar guerra, apesar dos congressos desde a Segunda Guerra Mundial terem declinado assumir a responsabilidade de declarar ou recusar declarar guerra.

A guerra depende, em última instância do orçamento militar, que foi aprovado em julho passado no Senado com 67 votos contra 28 e na Câmara dos Representantes com 284 contra 149; ou seja tanto os Republicanos quanto Democratas votaram atribuir fundos para armamento e guerra. Honra lhe seja feita, o candidato presidencial Bernie Sanders votou contra ou não esteve presente na votação dos últimos orçamentos militares.

Durante décadas, Washington procurou manter a sua dominação no Médio Oriente, particularmente sobre os seus imensos recursos petrolíferos. Isto significou invadir o Iraque, sustentar regimes ditatoriais, impor sanções mortíferas e providenciar apoio diplomático e armamento para permitir à Arábia Saudita manter a sua guerra brutal no Iémene e a Israel multiplicar os seus assaltos fatais a Gaza.

Ao tentar manter uma ordem reacionária, a intervenção dos EUA causou prejuízos à região e ao seu povo. Opomo-nos ao imperialismo dos EUA em todas as suas formas políticas e económicas. Os Socialistas Democratas da América, dos quais sou membro, lançaram uma excelente declaração opondo-se ao ataque ao Irão e aqui em Nova Iorque, onde eu vivo, organizou-se um protesto contra a guerra no Irão junto à casa do senador democrata Charles Schumer, exigindo-se que ele também se opusesse ao ataque. Devemos exigir que ele e todos os Democratas assumam uma posição frontal contra a guerra no Irão e não apenas utilizando fundamentos procedimentais. Exigimos que todos os Democratas tomem posição contra a guerra no Irão e aqueles que não o façam não deveriam receber apoio político no futuro.

Nenhum apoio político ao governo do Irão

A nossa oposição ao ataque dos EUA contra o Irão não implica qualquer apoio político ao seu governo autoritário, de direita e teocrático. Dentro do Irão, estamos do lado do movimento pela democracia, pelo pluralismo político, pelos direitos civis, pela liberdade e dentro deste movimento democrático estamos com as forças socialistas e da classe trabalhadora.

Como escreve a Aliança dos Socialistas do Médio Oriente do Norte de África:

“No Irão, a Guarda Revolucionária Islâmica e outras forças de governo suprimiram brutalmente os protestos populares que envolverem todo o país e que irromperam no dia 15 de novembro em oposição ao aumento do preço do petróleo e apelaram ao derrube da República Islâmica e ao fim das suas intervenções militares na região. De acordo com a Reuteurs, pelo menos 1500 manifestantes foram mortos em quatro dias. Entre 8000 e 10000 manifestantes, sobretudo jovens, foram presos e desde então não se ouviu falar da maior parte deles. Muitos prisioneiros políticos, incluindo ativistas do trabalho, feministas e das minorias oprimidas definham nas prisões desde protestos anteriores. Estes e os manifestantes revolucionários no Iraque, Líbano, Sudão e Argélia são as forças que os socialistas de todo o mundo precisam contactar e apoiar.”

Opomo-nos ao imperialismo dos EUA mas também apoiamos as forças democráticas no Irão, sabendo que no curto termo o ataque de Trump sobre o seu governo irá tornar as suas tarefas mais difíceis mas que no longo prazo a guerra pode minar a credibilidade e apoio do governo iraniano. Nós, como socialistas, certamente apoiaríamos uma revolução política ou democrática no Irão, apesar de nos opormos nessa situação a uma intervenção dos EUA:

Oposição aos EUA e a todos os outros poderes imperiais

Ao mesmo tempo, enquanto socialistas internacionalistas, enquanto focamos a nossa atenção na oposição ao papel dos Estados Unidos no Médio Oriente, também nos opomos à intervenção de outros países na região. Opomo-nos ao governante autoritário da Rússia, Vladimir Putin, e à sua ajuda ao ditador sírio Bashir al-Assad através do bombardeamento da província de Idlib, o último refúgio da oposição síria, incluindo o bombardeamento de escolas e o assassinato de civis, homens, mulheres e crianças. Devemo-nos opor ao papel da Arábia Saudita na destruição terrível e na chacina de seres humanos no Iémene e também ao da Turquia que enviou tropas para a Líbia.

Mesmo opondo-nos ao ataque dos EUA no Irão, devemos também opor-nos às manobras navais iraniano-russo-chinesas no Oceano Índico e no Golfo de Omã. Tanto a Rússia como a China demonstraram já as suas ambições imperais, a Rússia tomando a Crimeia e a China anexando o Tibete e procurando obliterar a sua cultura e a dos uigures, ao mesmo tempo que está também a construir novas ilhas e bases navais no Mar do Sul da China para intimidar os Estados vizinhos.

Em todas estas situações, nós como socialistas opomo-nos aos grandes poderes imperiais como os EUA, a Alemanha, a França, a Rússia e a China mas também opomo-nos aos poderes regionais como a Arábia Saudita e a Turquia. E defendemos a auto-determinação para todas as nações e povo do Médio Oriente, tal como os iemenitas e os curdos. Colocamo-nos do lado dos movimentos democráticos e, quando existam, do lado dos movimentos socialistas no Iraque, Irão, Arábia Saudita e Turquia. Em todo o lado, do lado da classe trabalhadora contra os tiranos.

Artigo publicado na New Politics a quatro de janeiro de 2019.

Dan La Botz é sindicalista, professor e escritor. É co-editor da New Politics.

Tradução de Carlos Carujo.

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