Os riscos do ataque à central nuclear de Zaporizhzhia

05 de March 2022 - 10:10

Apesar de esta central possuir um sistema de reforço da estrutura que a protege de embates de aeronaves ou de acidentes naturais, nenhuma central foi concebida para estar blindada a situações de guerra. Por Rui Curado Silva.

porRui Curado Silva

PARTILHAR
Captura de ecrã da conferência de imprensa da AIEA com alguma edição de indicações dos edifícios feitas por Rui Curado da Silva.

O projétil disparado na madrugada de ontem sobre o complexo da Central Nuclear de Zaporizhzhia caiu apenas a 150 metros de um dos 6 reatores da central (ver imagem). Atingiu um edifício de formação e treino de pessoal e feriu dois seguranças de vigilância da central. O fogo foi extinto ainda durante a madrugada. Nenhum dos reatores foi afetado. Os sistemas de medição de radiação também não foram danificados e continuam a medir os níveis de radiação habituais para a zona do complexo de Zaporizhzhia.

Esta é a maior central nuclear da Europa, sendo composta por seis reatores nucleares. Estes reatores são mais evoluídos do que os reatores nucleares de Chernobyl, são mais seguros, foram concebidos com dois circuitos de água independentes, um circuito para arrefecer o reator e outro para produzir eletricidade. No momento do ataque, apenas o reator 4 estava operacional, a cerca de 60% da sua capacidade. O reator 1 está em manutenção. Os reatores 2 e 3 estavam em modo de paragem. Os reatores 5 e 6 estavam no modo de reserva, a funcionar a de baixa potência.

Apesar de esta central possuir um sistema de reforço da estrutura que a protege de embates de aeronaves ou de acidentes naturais, nenhuma central foi concebida para estar blindada a situações de guerra. Os quatro pilares de segurança de uma central nuclear são: 1) integridade material dos edifícios; 2) operacionalidade dos sistemas de segurança; 3) prontidão de resposta dos operadores da central; 4) operacionalidade permanente de um sistema de alimentação elétrico exterior à central. Por muito robustas que sejam as estruturas, num cenário de guerra ninguém consegue afiançar que os pontos 3) e 4) estarão garantidos. No caso de uma operação militar que neutralize os operadores da central (ou operadores responsáveis pela segurança) ou de uma operação em que se destrua o sistema de fornecimento de energia elétrica exterior (pode ser um motor a diesel), a segurança de uma central ficará dramaticamente comprometida e o circuito de arrefecimento a água pode causar variados tipos de acidentes gravíssimos como o acidente de Fukushima. No Japão a eletrólise induzida no circuito de água produziu enormes quantidades de hidrogénio que explodiu, atingindo o reator. Mas podem ocorrer também explosões meramente associadas com o aumento da pressão da água de um circuito, como aconteceu em Chernobyl.

A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) na conferência de imprensa de ontem destacou a enorme importância de garantir os referidos quatro pilares de segurança e expressou a sua total inquietude sobre a possibilidade de poderem continuar a ser garantidos. O diretor da AIEA, Mariano Grossi, irá voar nos próximos dias para a Ucrânia onde tem um encontro agendado em Chernobyl com um representante russo e um representante ucraniano para negociar medidas que possam garantir que a guerra não afete o normal funcionamento das centrais nucleares da Ucrânia.

Rui Curado Silva
Sobre o/a autor(a)

Rui Curado Silva

Investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra