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Olhares sociais

"Todos nós temos uma criada de servir cá dentro" disse, em entrevista, António Lobo Antunes. Por Maria de Baledón
A ideia de obrigar os desempregados a apresentarem-se quinzenalmente nas juntas de freguesia resultou do síndrome de inferioridade daqueles que gostam das criadinhas. Tudo construções sociais legitimadas pelo Estado através de medidas como esta com que agora se rompeu. Finalmente!
A ideia de obrigar os desempregados a apresentarem-se quinzenalmente nas juntas de freguesia resultou do síndrome de inferioridade daqueles que gostam das criadinhas. Tudo construções sociais legitimadas pelo Estado através de medidas como esta com que agora se rompeu. Finalmente!

Sim, somos todos muito pirosos, senão o que nos levaria a caminhar de quinze em quinze dias para a porta de uma junta de freguesia, a esperar pela vez, a estender a mãozinha com o papel, a tirar o cartão de cidadão, e nem uma palavra, a aguardar novo papel e carimbadela, truz, assinatura, outra vez a mãozinha estendida, dobra ao meio, dobra ao meio e põe na mala?

Encolhe os ombros, dá meia volta e regressa passada a quinzena.

Transporta a tiracolo a ameaça, a chantagem, o medo, por isso não admira que vá de olhos postos no chão. Também não me espanta que leve sempre os mesmos sapatos e que os arraste, na verdade nem sei se tem sapatos.

Calçavas sapatos? Ninguém repararia se sim, se não.

Sim, somos submissos, obedecemos, acatamos ordens, ainda que absurdas, ainda que obtusas.

Arbitrariedade. Discricionariedade. Humilhação.

Nunca nenhuma junta de freguesia serviu para ajudar um desempregado a encontrar trabalho, nunca esteve realmente ao serviço dos desempregados e em rede com os centros de emprego, nem tão pouco a medida terá servido para evitar conciliar trabalho com subsídios.

Não evitou nenhuma fuga nem poupou dinheiro ao Estado.

A ideia peregrina e aviltante de obrigar os desempregados que recebem apoios do Estado a apresentarem-se quinzenalmente nas juntas de freguesia do País sob pena de, não o fazendo, perderem os seus subsídios, resultou do síndrome de inferioridade daqueles que gostam das criadinhas, tão giras, mas só se for para mandar.

E hoje desapontamos tanta gente dessa!

Criaturas para as quais as criadinhas e os desempregados são uns malandros, gentinha com quem se deve ter "voz firme e olho vivo", tal como era preconizado no Estado Novo quando se definiam uns a partir do seu lugar de nascimento e hoje, outros, pela sua condição, ambos encarados como sujos, desobedientes, indolentes e preguiçosos.

Tudo construções sociais legitimadas pelo Estado através de medidas como esta com que agora se rompeu.

Finalmente!

Artigo de Maria de Baledón para esquerda.net

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