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Odemira: Falam os explorados que enfrentaram a Sudoberry

Trabalhadores oriundos do Nepal, Índia, Paquistão promoveram um protesto inédito contra os permanentes atropelos aos direitos laborais e humanos praticados pela empresa. Fomos ouvi-los. Por Mariana Carneiro.
Fotos Esquerda.net.

Há uma semana, o administrador desta exploração agrícola situada em Odemira encontrou à porta do seu escritório um cenário a que os patrões deste setor não estão habituados. Quase três centenas de trabalhadores manifestavam-se ali mesmo, para exigir condições de trabalho, respeito pela lei e transparência no processamento dos salários. O Esquerda.net foi ouvir estes trabalhadores.

Neste momento, deverão trabalhar na Sudoberry cerca de 600 pessoas. Na época de verão, serão à volta de 1500. De acordo com os trabalhadores, as condições de trabalho têm-se degradado nos últimos dois anos. A maioria daqueles com quem falámos está na empresa há mais de quatro anos.

O ambiente é de permanente intimidação e os ritmos de trabalho são cada vez mais insuportáveis. Se os trabalhadores não conseguem mantê-los, são mandados para casa ao fim de uma ou duas horas. Um ou dois dias depois, voltam a ser chamados, mas se voltarem a não alcançar os parâmetros impostos são despedidos. O trabalho é pago a 6,22 euros à hora. 

Em jornadas de trabalho que chegam a ultrapassar as doze horas, a Sudoberry considera que um intervalo de meia hora é suficiente. E se o trabalho for muito, podem ficar até dois meses sem folgas, como terá acontecido no ano passado. Quando o recibo chega, surgem as dúvidas. Os trabalhadores queixam-se de falta de transparência na contabilização de horas de trabalho. 

O pagamento vem sempre com atraso. Os salários só têm chegado dia sete, oito e, este mês, o atraso ultrapassou o dia dez. Já as despesas com a renda da casa, com alimentação, e outras, não esperam. 

Os trabalhadores estão totalmente nas mãos dos patrões. É de véspera que recebem a informação sobre quando e onde se devem apresentar ao trabalho. No próprio dia, os supervisores, também eles imigrantes oriundos do Paquistão, Índia ou Bulgária, recebem instruções da administração sobre o que exigir aos trabalhadores e impõem as regras de forma implacável. 

Quando se dá um acidente de trabalho, a empresa tudo faz para fugir à sua responsabilidade. Num dos casos que nos foi relatado pelo próprio, a Sudoberry alegou que o trabalhador se lesionou propositadamente. Nem a empresa nem a seguradora lhe pagaram qualquer quantia. Hoje, continua com dores e dificuldade em cumprir algumas tarefas. Mas a administração exige-lhe tarefas cada vez mais pesadas. Segundo lhe dizem, se não aguentar, tem uma boa solução: ir-se embora.

Recentemente, um trabalhador teve de acompanhar a sua mulher ao hospital, numa situação de urgência. Dois dias depois terá sido despedido.

No Brejão, os trabalhadores comem ao ar livre, numa tenda, mesmo quando as condições climatéricas são adversas. Se trabalham sob sol forte e solicitam água, esta é-lhes recusada, com o argumento de que a empresa não tem essa responsabilidade. As casas de banho são portáteis e não têm qualquer manutenção durante períodos que chegam a atingir uma semana. 

Usar a nacionalidade para dividir os trabalhadores 

As condições não são iguais para todos. A administração favorece algumas nacionalidades, atribuindo a determinados trabalhadores tarefas, responsabilidades e remunerações mais favoráveis, numa aparente tentativa de semear a discórdia e incapacidade para a luta. 

Um trabalhador nepalês disse ao Esquerda.net que permaneceu na empresa por mais de quatro anos e confirmou as denúncias de permanente pressão e de turnos insustentáveis. A sua esposa também trabalhou na Sudoberry durante três meses, mas foi despedida assim que souberam que estava grávida. Sem ter completado os seis meses de descontos previstos na lei, a trabalhadora não teve direito a qualquer apoio. 

A Sudoberry, com sede no Brejão, concelho de Odemira, produz, embala e exporta frutos vermelhos há cerca de três décadas. A sua produção abrange 44 hectares cobertos para produção de morango e mais 3 de framboesa, além de 10 hectares de área descoberta. Em 2019, a Sudoberry recebeu 55 mil euros de benefícios fiscais, sendo uma das empresas agrícolas de Odemira mais beneficiadas.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.
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