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“O trumpismo não acabará com a saída de Trump”

Num artigo de opinião publicado no semanário Expresso, o politólogo Pedro Magalhães considera que o “regime de Ronald Reagan” continua a definir a sociedade e política dos EUA, incluindo os democratas. 
Com um aumento exponencial de desigualdades e redução de mobilidade social, os custos do "regime Ronald Reagan" definem a américa moderna.
Com um aumento exponencial de desigualdades e redução de mobilidade social, os custos do "regime Ronald Reagan" definem a américa moderna. Foto de Shawn Thew, via EPA/Lusa.

Para o politólogo Pedro Magalhães, as condições sociais, económicas e políticas que definiram o surgimento do trumpismo continuam inalteradas e definem também o Partido Democrata. “Mesmo que os Democratas ganhem a presidência e o controlo do Congresso, não é claro que haja muito que os una além do repúdio a Trump”, escreve no semanário Expresso.

E avisa que “o trumpismo não acabará com a saída de Trump - e muito menos acabará o regime que o tornou possível”. Pedro Magalhães refere-se ao que chama de “regime Ronald Reagan”. Um regime marcado pela “diminuição da regulação estatal da economia, da erradicação dos sindicatos como forma de organização da esmagadora maioria dos trabalhadores, do aumento do poder dos grandes acionistas e das administrações das empresas, da manutenção do salário mínimo a níveis baixos, do crescimento exponencial do setor financeiro, da redução da progressividade dos impostos e da contenção dos gastos sociais”.

 

Este paradigma manteve-se com Bill Clinton, declarando “the era of big government is over” [a era do governo para todos acabou], em 1996, “depois de ter falhado a reforma do sistema de saúde, dado prioridade à redução do défice e aprovado uma reforma conservadora da segurança social”. Mas também com Obama, que “baseou a sua reforma do sistema de saúde no plano de um governador republicano (Romney)”.

Com um aumento exponencial de desigualdades e redução de mobilidade social, os custos deste regime são extensos: “a esperança de vida à nascença de um americano é hoje a mais baixa, e a mortalidade infantil a mais alta, entre as democracias ricas d a OCDE; e a disparidade entre americanos ricos e pobres em relação a estes indicadores não pára de aumentar”, explica.

Se o “ímpeto” para restaurar e corrigir estes desequilíbrios é uma corrente partilhada por boa parte da sociedade, mesmo que o Partido Democrata obtenha uma maioria no Congresso (um cenário bastante improvável), “mudar de regime é muito difícil”, explica. “Um novo compromisso entre classes, semelhante ao que deu origem ao New Deal, depara-se hoje com a ausência de um dos interlocutores principais, os sindicatos”.

"Se há coisa que estas eleições mostram (...) é que a aliança entre privação económica, nativismo, ressentimento racial e extremismo retórico não constitui um handicap eleitoral", explica Pedro Magalhães com base em dados de inquéritos à população dos EUA. 

"Os níveis de satisfação com a maneira como as coisas vão hoje no país ou a perceção de que o país vai na direção certa encontram-se estagnados há quase 20 anos a níveis baixos. Os norte-americanos estão menos satisfeitos com a vida e sentem-se menos felizes do que antes - menos do que em grande parte das democracias desenvolvidas", escreve.

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