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O que escondem ou ignoram os media sobre as eleições dos Estados Unidos

A cobertura do que está a acontecer nas eleições primárias para o cargo de presidente dos Estados Unidos por parte dos maiores meios de informação é, com limitadíssimas exceções, muito parcial, traduzindo a orientação conservadora e/ou neoliberal que caracteriza a grande maioria de tais meios. Por Vicenç Navarro.

A bem conhecida (a nível internacional) falta de diversidade ideológica na televisão e na rádio, assim como na imprensa escrita, com raríssima presença de vozes de esquerda, reflete-se tanto nos media de dentro quanto nos de fora dos Estados Unidos. E não poderia ser diferente: os correspondentes presentes no país limitam-se a traduzir o que dizem os maiores meios de informação norte americanos, sem ir mais longe e sem aprofundar criticamente. E para complicar mais as coisas, na sua tradução do que a imprensa norte americana diz, muitas vezes copiam literalmente o que se escreve em tais meios, sem perceber que alguns termos têm um significado oposto nos dois lados do Atlântico. Assim, o que nos Estados Unidos se chama de “liberal” seria um político que apoia o intervencionismo do Estado na atividade económica, propondo medidas redistributivas e a expansão da despesa pública. Liberal, nos Estados Unidos, é o que na Europa ou na América Latina se conhece como social democrata – nessas mesmas regiões, um político liberal é aquele que está contra o intervencionismo do Estado, que desfavorece as políticas redistributivas, e promove a privatização do setor público.

O que acontece nos Estados Unidos?

Hoje, a notícia mais importante nos Estados Unidos é a de que um candidato à presidência do país, que se apresenta como socialista – sem temores, com orgulho de sê-lo –, e que pede uma revolução política no país, utilizando essa expressão em cada um dos seus atos eleitorais, está a causar um tsunami eleitoral semelhante ao que ocorreu em Espanha com o Podemos, ou com o candidato trabalhista britânico, Jeremy Corbyn. Na primeira batalha das primárias, há alguns dias atrás, em Iowa, o candidato socialista empatou com a candidata claramente apoiada pelo aparato do Partido Democrata, a Sra. Hillary Clinton, que conta principalmente com a bênção do establishment político-mediático do partido. E essa quase vitória de Sanders, o candidato socialista, ocorreu apesar da clara hostilidade que sofreu por parte dos maiores meios de informação do seu país – tal como ocorre com o Podemos na Espanha e com Corbyn no Reino Unido, para ficar em apenas outros dois exemplos.

O aparecimento deste movimento antiestablishment nos Estados Unidos, liderado por Bernie Sanders, também tem características semelhantes ao que sucede na Espanha e no Reino Unido, e responde a uma situação comum nos três países: as classes populares estão cansadas do conluio entre os interesses económicos e financeiros das grandes empresas, que constituem a classe corporativa, por um lado, e as instituições representativas desses mesmos interesses por outro – as mesmas que se tornaram meros instrumentos de tal classe. Tal situação foi possível devido à privatização do processo eleitoral nos Estados Unidos, onde todo o candidato a um cargo político pode receber todo o dinheiro que a sua campanha puder arrecadar, e financiar as suas campanhas através dos chamados Super PACs, que permitem que se compre todos os espaços televisivos, sem que exista nenhuma regulação ao acesso a tais meios. A maioria dos fundos que a classe política recebe provém das grandes empresas, do 1% mais rico da sociedade, os que controlam também a maioria dos meios de informação e persuasão do país.

A consequência deste conluio entre o mundo do capital e as instituições políticas é que as políticas aprovadas pelo Congresso dos Estados Unidos – hoje controlado pela ultra direita norte americana, um setor financiado massivamente por Wall Street – favorecem sistematicamente os interesses desse capital, e prejudica o mundo do trabalho, composto pela maioria das classes populares dos Estados Unidos.

Tal situação também afeta grande parte do Partido Democrata. Foi precisamente o presidente Bill Clinton que desregulou a banca (tendo como ministro de Finanças o Sr. Robert Rubin, um dos maiores banqueiros de Wall Street), criando as bases para que surgisse a maior crise financeira que o país já viveu desde a Grande Depressão. A mais recente crise criou uma grande queda no nível de vida das classes populares, e ao mesmo tempo aumentou as desigualdades existentes no país. Como constantemente aponta Bernie Sanders, “apenas um décimo desses 1% mais ricos do país 90% das riquezas norte americanas”. E os dados, facilmente acessíveis, comprovam a veracidade e a credibilidade dessa mensagem.

A revolta popular contra o establishment político-mediático

Resultado dessa situação, a legitimidade e popularidade das instituições políticas despenharam. A enorme abstenção no processo eleitoral – verificado principalmente entre as classes populares – é um indicador dessa perda de fé nas mesmas. O slogan “não nos representam” ressoou tanto no 15M espanhol quanto nos Estados Unidos, através do movimento Occupy Wall Street. Por isso, o apelo de Sanders a uma revolução política que rompa com o conluio entre a classe corporativa e as instituições que se definem como democratas são um elemento central do seu discurso. A sua tese é a de que sem essa revolução política será impossível fazer as mudanças políticas que está a propor, que são medidas típicas da social democracia – antes desta se transformar em social liberalismo, como ocorreu na maioria de países europeus, e em alguns da América Latina.

As propostas do candidato socialista

Entre as propostas de Sanders, estão a de romper com os grandes bancos, dividindo-os em entidades menores, além de fazer com que eles devolvam o dinheiro dado como resgate para salvá-los do colapso durante a crise de 2008, o que foi feito com fundos públicos. Essas medidas são altamente populares. O senador também tem no seu programa, como propostas principais, a de fazer um investimento massivo em obras públicas, facilitando a transição das fontes de energia, passando de uma matriz baseada em combustíveis fósseis a uma voltada para as fontes renováveis – propondo criar 13 milhões de postos de trabalho através dessa política –, e a de estabelecer uma reforma da saúde mais profunda que a de Obama, para garantir a universalidade do acesso ao sistema – hoje, nos Estados Unidos, há mais mortes por falta de acesso à saúde que pelo VIH/Sida, por exemplo. O grau de cobertura de saúde no país é muito insuficiente: 45% das pessoas que sofrem de doenças terminais expressam preocupação sobre como eles e os seus familiares conseguirão pagar as dívidas médicas.

Outra proposta com grande respaldo anunciada pelo candidato Sanders é a de realizar as reformas que permitiriam o acesso a todos os níveis do sistema educativo, desde as escolas infantis até as universidades. O acesso aos centros de educação infantil e escolas de ensino fundamental e médio tem diminuído entre as classes populares de forma bastante evidente, especialmente devido ao encarecimento das mensalidades. Talvez seja essa a medida que mais contribuiu para que cerca de 80% das pessoas entre 18 e 30 anos apoiassem Sanders nas primárias de Iowa. A nível nacional, segundo a maioria das sondagens, uma percentagem semelhante de jovens pais apoia Sanders. Por outro lado, segundo as últimas medições citadas pelo Financial Times (no dia 6 de fevereiro), Clinton e Sanders estão hoje tecnicamente igualados em apoio entre os membros do Partido Democrata – Clinton teria 44% e Sanders 42%.

Um socialista poderia ser presidente dos Estados Unidos?

Existe uma perceção comum entre os maiores meios de informação, de que um candidato socialista não seria capaz de vencer as eleições dos Estados Unidos. Na verdade, alguns dirigentes do Partido Democrata, incluindo Hillary Clinton, consideram que a vitória do candidato socialista nas primárias do conglomerado seria o melhor presente que poderiam dar ao Partido Republicano, ao tornar mais fácil o seu caminho para a vitória nas eleições de novembro, devido à enorme vulnerabilidade que representa o facto de Sanders ser socialista.

Tal opinião, à primeira vista, pareceria razoável tendo em conta os estereótipos que os media reproduzem sobre os Estados Unidos. Porém, tal linha de argumentação ignora que, segundo as principais sondagens – a última delas realizada pela Real Clear Politics Average –, o candidato Sanders ganharia numa disputa contra Donald Trump ou Ted Cruz, os dois candidatos republicanos com maior apoio eleitoral, e com uma margem de vitória sobre eles maior que a sustentada por Hillary Clinton, que conta com o claro apoio da cúpula do Partido Democrata.

O Congresso dos Estados Unidos permitiria que se aplicassem as propostas de Sanders?

Nem precisamos de pensar sobre o quão certo seria essa hipótese, com um Congresso como o de hoje, controlado pela ultra direita – que atualemnte domina o Partido Republicano. Porém, se o candidato Sanders ganhar, seria um indicador de que conseguiu criar um movimento ao longo do país que se traduziria numa mudança na configuração do mesmo Congresso no dia das eleições presidenciais, que coincidem com as eleições ao Congresso. O candidato Sanders, durante a sua campanha, tem repetido a importância de criar um movimento progressista de profundas convicções democratas, claramente comprometido com uma mudança política revolucionária, anulando, por exemplo, a enorme influência que a classe corporativa tem sobre o processo eleitoral e sobre as instituições representativas.

Sanders conseguirá financiamento para as suas propostas?

Este argumento é reiterado constantemente em vários países, usado sempre pelas vozes conservadoras e neoliberais, como objeção contra as medidas que requerem expansão da despesa pública social, propostas por forças progressistas. É interessante destacar que nunca se faz a pergunta de se o país tinha dinheiro para pagar o resgate aos bancos – se fosse feita, talvez seria respondida da mesma forma. Se o país teve dinheiro para salvar os bancos em problemas, também deveria ter para ajudar a população que enfrentava os efeitos da crise.

E o mais importante é que existem fundos suficientes nos Estados Unidos. O próprio Sanders comprova isso: reduzindo significativamente a despesa militar, proibindo os movimentos das empresas em paraísos fiscais e fazendo com que paguem impostos como todos os demais, e aumentado a carga fiscal das grandes fortunas, entre outras medidas. Com isso seria possível gerar recursos mais que suficientes para assumir tais gastos. A não existência desses fundos agora deve-se a causas políticas (o já citado conluio entre o poder económico e o poder político), não a causas económicas.

O grupo de economistas do candidato Sanders publicou um artigo sobre como seriam financiadas cada uma das reformas que propõe. Por exemplo, o programa de universalização dos serviços saúde substituiria o financiamento privado do atual sistema norte americano – que se baseia no pagamento de apólices às companhias privadas de seguros, cujos valores são impossíveis para milhões de pessoas, o que determina que elas terão muitas dificuldades em receber assistência médica – por um financiamento público, e assim a cidadania não estará mais obrigada a procurar o serviço das companhias privadas, que oferecem uma cobertura insuficiente, tendo a possibilidade de contar com uma agência pública, que cobrará um valor muito menor e que garantiria uma cobertura completa, como acontece no Canadá – onde a popularidade do sistema de saúde é muito maior que a do sistema privado norte americano. Na verdade, os impostos não seriam aumentados para a maioria da população, pois a expansão dos serviços públicos seria feita com base nas mudanças de prioridade da despesa pública, transferindo fundos da área militar para a social, e no aumento dos níveis impositivos dos bilionários, que pagam pouquíssimos impostos atualmente, em valores desproporcionais com respeito a sua renda e património.

Sanders não seria velho demais?

Um argumento que parece vulgar mas que tem sido utilizado para desacreditar Sanders, como se a sua idade avançada fosse sinónimo de menos habilidade política. Sanders tem lá os seus 74 anos, goza de boa saúde e, como tem vindo a mostrar ao longo da campanha, é capaz de manter uma vida ativa, sem diminuir a intensidade que o cargo ao qual postula requer. Na verdade, a idade é um ponto a seu favor, pois mostra a coerência na sua vida política, sempre colocada ao serviço das classes populares, o que lhe permite adquirir maior credibilidade, que outros candidatos não alcançam, devido à pouca experiência ou às constantes mudanças de posturas e crenças.

Sanders, o político de maior idade no Senado dos Estados Unidos, e ao mesmo tempo o político mais popular entre os jovens do país, sempre apoiou ativamente todas as causas progressistas nos Estados Unidos, começando pelo seu apoio à campanha de Martin Luther King a favor da libertação dos negros. Foi prefeito da cidade de Burlington, membro do Congresso e do Senado, e sempre se distinguiu por defender o movimento sindical, os movimentos sociais, feministas e ambientais, liderando também a campanha de consciencialização sobre o aquecimento global. É precisamente isso que faz com que seja especialmente atraente para os jovens, que têm ânsia e desejo de libertação, integridade e compromisso.

Sanders possui experiência em política externa?

Esta pergunta tem sido repetida com certa frequência pelos assessores de Hillary Clinton, que foi Secretária de Estado durante o primeiro mandato de Obama. Como bem respondeu Sanders, o que importa não é tanto a experiência, mas sim a sensibilidade e os critérios que tenha aquele que desenha e configura a política exterior nos Estados Unidos. E nesse sentido, o senador tem mostrado que possui maior sensibilidade e critérios que a candidata adversária em decisões cruciais. Por exemplo, Sanders opôs-se à invasão do Iraque, enquanto Clinton apoiou-a. Sanders opôs-se ao bombardeamento da Líbia e ao golpe contra Muammar al-Gaddafi. Hillary Clinton apoiou-o. Sanders opõe-se a continuar a política de confrontação com a Rússia e o Irão. Hillary Clinton favorece-a. Sanders opõe-se aos tratados TPP e TTIP. Hillary Clinton apoiava-os – embora se tenha distanciado deles ultimamente.

Sanders não parece ser excessivamente utópico e pouco realista?

Novamente vemos uma postura idêntica à utilizada contra o Podemos na Espanha e contra o novo trabalhismo de Corbyn no Reino Unido, assim como outras forças políticas questionadoras que se opõem ao status quo atual. Nem é preciso lembrar que o establishment costuma colocar esse rótulo de “utópico” e “pouco realista” em todas as forças políticas que questionam o seu poder. Mas as medidas que Sanders propõe são amplamente reconhecidas por especialistas como reformas necessárias. Por exemplo, una medida de grande importância lançada pelo senador é a do desmembramento dos grandes bancos (que foram resgatados com dinheiro público) evitando que o tamanho dessas empresas financeiras seja um elemento negativo e empurre para um panorama onde o sistema económico dependa de um número excessivamente limitado de entidades bancárias. Hillary Clinton não apoia essa medida. O facto de ser ou não realista depende primordialmente da vontade política, além do conhecimento técnico e científico, mas não é difícil de se realizar, além de ser aconselhável de se fazer.

Uma situação semelhante ocorre em relação ao aumento da idade para a reforma (que é de 67 anos nos Estados Unidos), proposta à qual Sanders se opõe e que Hillary não descarta. Escusado será dizer que Hillary Clinton é uma alternativa muito melhor face a qualquer um dos candidatos republicanos. Mas para uma pessoa progressista, Bernie Sanders é o que melhor se posiciona.

O establishment político-mediático permitiria que Sanders fosse presidente?

Esta observação, procedente de grupos mais céticos da esquerda, tem muito peso. Que o establishment mostra uma enorme hostilidade para com a candidatura de Sanders é uma realidade. Os maiores canais de televisão do país (ABC, CBS e NBC) dão muito mais cobertura aos outros candidatos do que a Sanders. Segundo a análise do tempo de cobertura dos candidatos, o tempo que esses canais ofereceram ao candidato republicano Donald Trump em 2015 foi cerca de 16 maior que o dado a Sanders, que goza de maior apoio popular que Trump.

Fazer esse questionamento leva ao centro do problema: a cooptação das instituições democráticas por parte dos interesses económicos e financeiros, corrompendo a democracia. Por isso, o apelo de Sanders a transformar as instituições políticas (e mediáticas), aquilo que o senador define como Revolução Política, é tão potente quanto o apelo a uma nova ordem económica, justa e solidária – e, no fundo, ambos os apelos são a mesma coisa, segundo o próprio. Este é o grande desafio que os Estados Unidos e todo o mundo têm hoje pela frente. Não há dúvidas de que estamos diante de um momento histórico, que estamos a viver o fim de uma época, a alvorada de uma nova, e que ainda conhecemos pouco da configuração do mundo que virá. A enorme insatisfação das classes populares pode ser canalizada pelas forças políticas mais reacionárias (como Trump, nos Estados Unidos) ou pelas mais democráticas (como Sanders). Um futuro a favor das alternativas democráticas e progressistas dependerá das mobilizações populares pressionando para que isso ocorra. É assim tão simples.

Artigo publicado no Público espanhol.
Tradução de Victor Farinelli para a Carta Maior

Sobre o/a autor(a)

Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha).
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