Este artigo pode também ser ouvido no Alta Voz, o podcast de leitura de artigos longos do Esquerda.net. Para isso basta carregar nesta ligação.
A vitória eleitoral de Pedro Castillo e do Perú Libre nas eleições presidenciais de 2021 augurava o aprofundamento de uma crise política peruana que vem desde há mais de cinco anos, com a particularidade da selvajaria das classes dirigentes em relação a um líder sindical de origem camponesa que cristalizou brutalmente o racismo prevalecente e o McCarthyismo da nossa sociedade.
Populismo de baixa intensidade
Ao contrário das experiências nacionais-populistas recorrentes na América Latina, o projeto Castillo não tinha uma estratégia definida, uma sólida base popular e uma ampla maioria parlamentar para implementar as mudanças propostas na campanha eleitoral. Além disso, a convivência com o Partido Perú Libre foi mais um entendimento prático do que um compromisso com a construção do partido e a separação foi finalmente formalizada há alguns meses.
Face ao assédio golpista da ultra-direita, Castillo optou por concessões constantes às classes dirigentes a ponto de deixar sepultar as medidas mínimas do programa de mudanças com as quais ganhou a segunda volta das eleições. Isto ficou evidente na mudança do gabinete ministerial, no qual a tecnocracia neoliberal recuperou o Ministério da Economia e alguns setores de direita se infiltraram no executivo após apenas seis meses de governo.
Castillo derrotou as duas primeiras moções de destituição, estabelecendo acordos com as bancadas de direita mais ligadas às regiões e uma certa burguesia provinciana, como a Alianza para el Progreso (APP), uma fração da Acción Popular (AP) e o Podemos. De certa forma, a divisão da esquerda, as disputas entre Perú Libre e Nuevo Perú nos primeiros seis meses do governo, contribuíram para esta dinâmica, fortalecendo o ambiente regionalista e familiar próximo a Castillo, que atuou como a direção política informal do executivo, sustentando sua direitização e capitulação.
O assédio golpista permanente
A ultra-direita peruana, liderada pelo Fujimorismo, desde o dia zero ignorou a vitória eleitoral de Castillo e tentou de várias formas impedir a tomada de posse do presidente, utilizando um grupo de advogados reacionários e os meios de comunicação de massa que se propuseram minar a legitimidade do novo governo que chegava sob bandeiras de esquerda.
As manifestações anti-governamentais que convocaram apenas conseguiram reunir a velha partidocracia da APRA e do PPC, e algumas frações da classe média e da burguesia de Lima que não tolerariam alguém vindo do mundo popular como presidente da República. Em certa medida, o equilíbrio de poder nas ruas e no Congresso entre a oposição burguesa e o grupo no poder permitiu a política de sobrevivência que levou Castillo a manter o piloto automático neoliberal.
Diante do impasse, outra frente de disputa política mais contundente foi aberta pelo Poder Judiciário e pela Procuradoria Geral da República que abriram seis processos de acusação em tempo recorde contra o então presidente Pedro Castillo, a fim de conseguir o seu derrube depois de deslegitimá-lo aos olhos da opinião pública. A promotora encarregada da investigação que é suspeita de ligações ao narcotráfico convertia-se agora num ponto de referência na luta contra a corrupção, de acordo com a narrativa dos grandes meios de comunicação social alinhados com os golpistas. Até agora, eles só tinham conseguido obter testemunhos contra o ex-presidente Castillo de antigos altos funcionários e empresários lobistas, sem nenhuma prova que apoiasse as alegações.
No Congresso preparava-se um pedido de suspensão do então presidente Castillo, uma vez que requeria uma votação menor do que as moções de destituição, mas esta via não teve sucesso, e assim um terceiro pedido de admissão da moção de destituição presidencial foi aprovada, o que significava uma segunda votação em 7 de dezembro para a sua aprovação final.
Uma saída precipitada
Face a uma crise política não resolvida, Castillo decidiu encerrar o congresso golpista sem a correlação de forças política necessária e sem o esmagador apoio popular que lhe permitisse levar a cabo a sua medida de exceção. O seu isolamento foi tal que todos os ministros acabaram por se demitir em poucas horas ou minutos, incluindo setores da esquerda pró-Castillo, como Roberto Sánchez do Juntos por el Perú e Betssy Chávez de Voces del Pueblo.
O pronunciamento das Forças Armadas contra o encerramento do Congresso clarificou a atual correlação de forças, bem como a natureza precipitada e absurda da medida de emergência que ele tentou implementar, para além das questões formais/constitucionais priorizadas na análise da esquerda liberal, que chamou o ex-presidente Castillo de líder golpista e até o comparou a Alberto Fujimori, e alguns ex-ministros como Pedro Francke e Mirtha Vásquez juntaram-se ao coro mediático da reação que condenou a tentativa frustrada de encerramento do Congresso.
Depois da precipitada medida de Castillo ter sido derrotada, o Congresso apressou-se a aprovar a terceira moção de destituição presidencial com os votos a favor de alguns congressista do Perú Libre, do Nuevo Perú e do Partido Magisterial e Popular. Uma vez consumado o golpe parlamentar, os polícias prenderam o ex-presidente na prefeitura sob a acusação de rebelião, demonstrando mais uma vez a sanha das classes dirigentes do Peru contra o líder sindical de origem camponesa.
A crise continua
A posse presidencial de Dina Boluarte, ex-vice-presidente, é o produto do acordo tácito das forças políticas no Congresso nas suas manobras para normalizar o golpe parlamentar consumado. Apenas meses antes, a ultra-direita tinha tentado inabilitar a então vice-presidente por motivos absurdos, mas nos últimos dias recuaram na medida a fim de permitir uma transferência do poder presidencial sem insurreições populares.
Boluarte anunciou um governo de unidade nacional que significa na realidade um continuismo neoliberal agora talvez num nível de vinculação mais estreita com a tecnocracia e a direita tradicional. Não cumpriu a promessa de renunciar se Castillo fosse destituído, como declarou num dos seus últimos discursos políticos, nem mencionou nada sobre o processo constituinte ou quaisquer reformas progressistas durante a sua tomada de posse presidencial. Mesmo assim, a ultra-direita não baixará as suas bandeiras golpistas, apenas se prepara para um contexto com melhores condições para sua política sediciosa.
Hoje mais do que nunca fica claro que a independência política da esquerda e dos movimentos populares é vital para preparar uma saída democrática e anti-neoliberal para a crise política permanente. Nesta medida, construir um ponto de referência política para as maiorias populares é a tarefa principal do momento e das novas gerações de militância revolucionária.
Johnatan Fuente é sociólogo na UNMSM e ativista da Corriente Amaru.
Texto publicado na página da Insurgência. Editado pelo Esquerda.net para português de Portugal.