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O que acontecerá quando derreter o gelo da Antártida?

Derretimento intenso de gelo na Antártida em 2001/02 levou a grandes alterações no ecossistema, como aceleração de cadeias alimentares microbianas ou deslocamento de populações de pinguins.
Os Vales Secos de McMurdo são dos lugares mais secos na Terra. A água presente está quase sempre congelada. Foto de: Hassan Basagic/McMurdo LTER via CC by-SA 4.0

Um estudo publicado na revista BioScience investigou o que passou no continente polar quando se deu a intersecção de dois ciclos climáticos, a Oscilação Antártida e o El Niño, o que produziu uma primavera particularmente quente e ventosa em toda a Antártida em 2001/02. Levou ao derretimento de glaciares, à redução da espessura do lago de gelo perene, e a mudanças na área de gelo marinho. Para os investigadores, também deu uma visão do que poderá ser o futuro ecológico do continente mais remoto.

Os ecossistemas continentais e marinhos "polares muito diferentes fornecem informação sobre como os diversos ecossistemas de todo o mundo vão responder às alterações climáticas", disse Hugh Ducklow, ecologista da Universidade de Columbia e líder do Palmer LTER, um dos observatórios responsáveis pelo estudo. "Com estudos de longo prazo já em vigor, fomos capazes de observar efeitos a muitos níveis diferentes.”

Alterações no gelo do mar influenciam cadeia alimentar

Na península Antártica Ocidental, em 2001-2002 as condições atmosféricas produziram uma camada de gelo marinho mais grossa e compactada contra a beira da península, com um maior derretimento do gelo nas bordas, liberando maiores quantidades de água doce e algas do gelo diretamente na camada superior do oceano. Esta entrada de nutrientes levou a um aumento de algas e a um boom populacional de krill antártico, uma fonte de alimentação importante para pinguins, baleias, focas, peixes e aves marinhas.

Os mesmos padrões atmosféricos levaram a uma maior queda de neve e ao degelo mais cedo do que costume na região costeira ao longo da península, inundando os ninhos dos pinguins Adélie, os primeiros a incubar os ovos, para vantagem do pinguins das espécies Gentoo e Chinstrap, de nidificação posterior.

Molhar os Vales secos

Mais a sul no continente, nos Vales Secos de McMurdo, a chegada repentina de ventos Föhn rapidamente derreteu os glaciares da montanha, criando um curso de água através da paisagem árida, elevando os níveis de água dos lagos e revelando depósitos de poeiras transportadas pelo vento que estavam escondidos nos glaciares. A camada de gelo caracteristicamente espessa do lago (de 4 a 6 metros) rapidamente diminuiu de espessura, permitindo a chegada de mais luz solar do que o habitual às camadas superiores do plâncton na água do lago, sob o gelo. Ventos Föhn ou Foehn ocorrem quando uma camada de vento persistente sobe uma montanha e, ao subir a encosta, o ar arrefece até se condensar; já sem humidade, desce a encosta do outro lado, aquecendo-se e provocando um vento quente e seco.

Ao mesmo tempo, a entrada de carbono orgânico dissolvido dos novos cursos de água aumentou da produtividade bacteriana no fundo nos lagos. Os dados genómicos apontam para a competição por essas duas fontes diferentes de carbono pode levar a mudanças de longo prazo na estrutura das comunidades microbianas dos lagos. A primavera de 2001/02 marcou o início de quase uma década de aumentos sucessivos de nível médio das águas dos lagos e da sua turvação.

Anomalia de hoje, normalidade de amanhã?

De muitas formas, o gelo medeia a resposta destes dois sistemas às mudanças ambientais. As relações raramente são simples, mas as pesquisas ecológicas de longa duração permitem que os cientistas recolham informações para perceber como os ecossistemas podem responder quando o incomum se tornar normal.

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