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"O próximo governo tem de ter uma certa vontade de conflito com Bruxelas"

Nacho Álvarez, um dos responsáveis pela área económica do Podemos, foi entrevistado pelo esquerda.net na conferência "Por um plano B para a Europa", em Madrid.

A entrevista pode ser lida na íntegra em baixo, ou vista em vídeo aqui.

Como está atualmente a situação política em Espanha?

Bom, a situação política neste momento em Espanha é sem dúvida entusiasmante, temos uma opção histórica de formar pela primeira vez, em muitos anos, um governo ao serviço da maioria social, ao serviço das pessoas. Mas isto acontece se o Partido Socialista tomar a decisão que tem que tomar e decidir se vai apertar, de alguma forma, a mão que lhe estende o Podemos, que lhe estende a Izquierda Unida e que lhe estende o Compromis, para formar um governo de coligação com as forças pela mudança e com as forças do progresso.

Ou se, por outro lado, o Partido Socialista continua a negociar com as forças da direita para formar um governo de geometria variável, um governo de geometria variável que o Partido Socialista pretende formar com o apoio, por um lado da direita com o Ciudadanos, e por outro lado com a esquerda com o Podemos.

Pensamos que esse governo não é possível e não vamos apoiá-lo. Pensar que por um lado podes desenvolver a política económica, e por outro lado a política social não é realista e, em realidade, o que advoga é repetir as experiências fracassadas do passado.

Se o Partido Socialista estiver definitivamente disposto a confrontar Bruxelas e a dizer que o ritmo de redução do déficit tem que ser o que a nossa economia necessite, e não o que Bruxelas estipule, então aí nos encontraremos e será possível desenvolver um governo de mudança que reverta os cortes na saúde, educação e em I&D

Pensar que o social-liberalismo é a saída se o Partido Socialista quiser, de alguma forma, recuperar uma via nitidamente socialdemocrata, então pode encontrar-nos porque assim, de alguma forma, poderemos desenvolver um programa que facilite a recuperação económica se ponha ao serviço do conjunto da cidadania. Se o Partido Socialista estiver definitivamente disposto a confrontar Bruxelas e a dizer que o ritmo de redução do déficit tem que ser o que a nossa economia necessite, e não o que Bruxelas estipule, então aí nos encontraremos e será possível desenvolver um governo de mudança que reverta os cortes que houve na saúde, e que houve na educação, os cortes que houve em I&D, que possibilite, portanto, uma nova política económica ao serviço da maioria social.

Essa é a situação neste país neste momento; é possível mudar, é possível um governo ao serviço da maioria social, e contudo, se isto se faz o se não se faz, vai depender fundamentalmente da direção na qual se mova o Partido Socialista. Se ouve os pedidos maioritários, ou se defrauda novamente esses pedidos, pactuando com a direita.

Quanto tempo têm para concluir o processo?

Bom, formalmente, nos próximos dez dias tem que se tomar essa decisão o debate de tomada de posse vai decorrer na primeira semana de março e portanto, nessa semana o Partido Socialista terá que se ter decidido. Apesar de, na realidade depois temos até ao dia 2 de maio para que definitivamente se forme um governo, ou que convoquem novas eleições. Ou seja, o tempo corre contra as necessidades de mudança, há urgência, mas há ainda tempo para negociar esse governo de mudança.

Quais são os pontos de política económica defendidos pelo Podemos?

O Podemos neste momento está a pôr em cima da mesa a necessidade de uma mudança de política económica. Uma mudança que pensamos que é necessária, e, além disso, pensamos que é viável, que é possível. Defendemos fundamentalmente três eixos.

Acabar com a austeridade significa não apenas terminar com os cortes, significa terminar com esta situação em que o investimento público não cresce.

Em primeiro lugar, há que acabar com a austeridade. Acabar com a austeridade significa não apenas terminar com os cortes, com a ideia que é preciso fazer cortes, e significa também terminar com esta situação em que o investimento público não cresce.

Consideramos, e propusemos, um pacote de expansão fiscal de 24.000 milhões de euros por ano que facilite, não só a recuperação económica, mas sobretudo de forma a que a recuperação económica se faça em benefício da maioria social e que sirvam para reduzir las desigualdades do nosso país, para que se faça a mudança de modelo produtivo para propiciar a transição energética.

Ou seja, definitivamente há que pôr os orçamentos gerais ao serviço das necessidades da maioria do país. Contra o déficit público, pensamos que há déficits mais importantes, sobretudo o déficit de emprego. Temos que reduzir o ritmo de desemprego muito mais rapidamente e isso exige uma mudança em temos da austeridade fiscal e da política fiscal que se tem vindo a vindo executar até agora.

Contra o déficit público, pensamos que há déficits mais importantes, sobretudo o déficit de emprego. Temos que reduzir o ritmo de desemprego muito mais rapidamente e isso exige uma mudança em temos da austeridade fiscal e da política fiscal que se tem vindo a vindo executar até agora.

Em segundo lugar, pensamos que há um segundo pilar fundamental, que é o pilar que tem a ver com as mudanças nas relações laborais. É preciso revogar a reforma laboral, é preciso voltar a um marco laboral mais equilibrado no qual a negociação colectiva volte a jogar um peso importante. Pensemos que de Espanha nos últimos anos saíram mais de três milhões e meio de pessoas da negociação coletiva e os salários caíram drasticamente e, portanto, necessitamos reverter essa situação.

Isto exige não só revogar a reforma laboral, exige ir mais além e ir mais além neste momento quer dizer atacar fundamentalmente as bases da precariedade, exigir que não se possa, como defendemos no nosso programa, renovar contratos temporários num prazo superior a um ano e isto é possível, não depende de Bruxelas, que não tem por que o autorizar, depende fundamentalmente da política nacional, e pensamos que se pode perfeitamente desenvolver e levar a cabo.

Em terceiro lugar, Espanha precisa de alterações estruturais. São várias as alterações estruturais que necessita, mas alguns são muito evidentes. A primeira de elas é uma reforma fiscal. Espanha, de acordo com o seu tamanho económico, tem um nível de tributação de 90.000 milhões de euros por ano abaixo da média europeia, de acordo com o tamanho económico.

Por isso pensamos que é possível uma reforma fiscal que permita recolher mais no nosso país, mas fazê-lo de uma forma progressiva, garantindo que o aumento da suficiência fiscal é à custa dos rendimentos mais altos e dos rendimentos empresariais e de novo isto não depende de Bruxelas. Este é o parlamento nacional e é a soberania nacional que pode definir um governo de mudança definitiva se se levar a cabo, ou se não se leva a cabo, e pensamos que se pode levar a cabo, que é possível, exatamente da mesma forma que utilizar estes recursos das contas públicas para propiciar uma mudança no modelo produtivo do país.

Não podemos continuar a pensar que o desenvolvimento de Espanha passa por um modelo de construção e de bolha imobiliária; precisamos de garantir reindustrialização do nosso país e fazê-lo, em particular, permitindo que a competitividade não caia sobre os salários.

Não podemos continuar a pensar que o desenvolvimento de Espanha passa por um modelo de construção, de sol e de bolha imobiliária; precisamos de garantir reindustrialização do nosso país e fazê-lo, em particular, permitindo que a competitividade não caia sobre os salários, mas que sobretudo caia sobre a ganância.

Isto vai supor que a Europa impeça o desenvolvimento desta política económica, mas eu acho que não, acho que Espanha tem margem, neste momento para propiciar esta mudança na política económica, que depende fundamentalmente dos enquadramentos nacionais e que, portanto, tem que ser empurrada e tem que ser desenvolvida, e, além disso, acho que Espanha tem que ter, ou o próximo governo, em concreto, um certa vontade de conflito com as instituições de Bruxelas, não podem ser as instituições de Bruxelas a definir quais têm que ser os pilares fundamentais da política do nosso país, temos exemplos em outros países europeus, o caso francês ou o caso italiano, onde os governos de alguma forma informaram Bruxelas sobre quais eram prioridades nacionais e esse é o caminho que pensamos que tem que seguir também o próximo governo em Espanha.

Nacho Álvarez "O próximo governo tem de ter uma certa vontade de conflito com Bruxelas"

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