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O primeiro contratempo do Podemos

Análise dos resultados eleitorais no Estado Espanhol. Por Manuel Garí.
Alberto Garzón, Pablo Iglesias e Iñigo Errejón, foto de Zipi/EPA/Lusa

O ciclo eleitoral espanhol após a emergência do 15M, que permitiu o nascimento de uma nova força política de massas anti-neoliberal, está prestes a terminar. Só estão pendentes as eleições nos parlamentos da Galiza e do País Basco, depois de já terem sido realizadas as eleições europeias, as eleições para a maioria das comunidades autónomas e municipais, as duas eleições para o Parlamento e Senado espanhóis a 20 de dezembro (que tiveram como resultado um equilíbrio de forças que impediram a formação de governo) e as eleições de dia 26 de junho, cujos resultados serão aqui discutidos. A afluência às urnas caiu de 73,20% em dezembro para 69,84% em junho.

A primeira coisa a destacar é que o Partido Popular (PP) obteve a maioria, com 7.906.185 votos (33,28% do total) e 137 mandatos, e aumentou os resultados em relação a dezembro do ano passado (7.215.752 votos e 123 lugares), graças a uma grande transferência de votos do Ciudadanos (Cs) que lhes cederam quase 377.000 votos, e do PSOE que lhes transferiu mais de 100.000. No entanto, deve ser notado que o PP não conseguiu a maioria absoluta de 2011, em que obteve 10,866,566 votos, 44,63% dos resultados e 186 mandatos. Uma primeira reflexão: apesar das políticas de corrupção e de austeridade, a direita da sociedade espanhola mantém-se fiel ao PP. Viragem social à direita? Acho que não, simplesmente reafirmação de uma parte da sociedade que interpreta a incerteza e os seus medos no partido conservador, ao mesmo tempo que mantém pouca consciência democrática, fenómeno favorecido por não temos sido capazes de iniciar o processo de romper com o regime 78 e por não ter havido uma mobilização social sustentada contra as políticas de cortes na saúde, educação, etc. O movimento social foi o grande ausente. Os seus setores mais conscientes colocaram todas as suas esperanças no campo eleitoral, que apesar de fundamental, não é capaz por si só de desbloquear a situação. Infelizmente, é muito possível um novo governo do PP de forma mais ou menos disfarçada de grande coligação “à espanhola” [do PP com o PSOE].

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) obteve 85 deputados - menos 5 do que em dezembro -, perdeu mais de 100.000 votos, tendo somado 22,83% dos votos. De momento, atingiu o seu objetivo máximo nestas eleições: não ser superado pelos Unidos Podemos nem em votos, nem em mandatos. Mas a crise interna do partido que foi um eixo da política desde meados dos anos setenta, é profunda: não tem projeto, nem conseguiu renovar a sua base eleitoral nos setores urbanos jovens, mas conseguiu pôr a trabalhar toda a sua militância na campanha para ativar os antigos laços sociais que tem com grandes setores das classes assalariadas. O PSOE vai sofrer uma cisão interna, se a sua direção permitir governar o PP. Todos os poderes financeiros, mesmo a velha guarda do partido apoiam a opção de assegurar a governabilidade nestes tempos do Brexit, de petições sobre a independência da Catalunha, a necessidade de novos cortes orçamentais, devolução da dívida e ajuste fiscal para assegurar as normas da UE sobre o défice. O PSOE não está em processo de “Pasokização”, mas não tem garantida uma existência fácil.

E o Unidos Podemos. Começo por dizer que as sondagens falharam porque todas elas o colocavam em segunda posição depois do PP e à frente do PSOE. Só acertaram nos casos bem-sucedidos do País Basco e da Catalunha. Os efeitos da coligação entre a  Esquerda Unida e o Podemos não foram os esperados. A coligação foi e é uma necessidade estratégica no campo da construção da unidade popular, mas a sua primeira aparição eleitoral elegeu os mesmos 71 deputados que os partidos tinham tido em separado, mas passou de 24,3% dos votos em dezembro para 21,6% em junho, e de 6.100.000 votos para 5.049.734. É possível que tenha sido uma das forças que a abstenção mais prejudicou. Um excelente resultado, se considerarmos que é a primeira vez na história do país desde 1977 que uma força antineoliberal obtém mais de 1 em cada 5 votos e a maioria da votação dos menores de 30 anos de idade; mas foi um resultado decepcionante, pois criou-se a falsa expectativa de "ultrapassar" o PSOE e da possível disputa de governo com o PP. Na cabeça muitas pessoas criou-se a ideia: queremos expulsar o PP do governo e aspiramos a governar, num prognóstico quase certo.

É tempo de reflexão no Podemos, na Esquerda Unida e, claro, nos Anticapitalistas. Só quero deixar algumas indicações para esse debate. 1) Sem maior presença da mobilidade popular, os avanços eleitorais são efémeros. 2) Não há avanços lineares, as correlações de forças entre as classes obrigam-nos a operar em ziguezague. 3) O discurso do Podemos de recuperar termos da mudança política (e social) ou reclamar-se socialdemocrata não funcionou para trazer a consciência popular do seu estado de mal estar - cada vez mais resignado, é certo -, a uma vontade de mudança. 4) Apelando em abstracto à esquerda contra a direita, e fazer arremessos ao PSOE como se de uma força de mudança se tratasse, também não têm um efeito positivo na construção de um novo poder popular a partir do estado de consciência e organização verdadeira das massas, depois de anos em que a esquerda ou o movimento operário ainda se associavam ao PSOE. 5) É necessário aprofundar o processo de confluência do Unidos Podemos, é imprescindível realizar na Esquerda Unida e no Podemos um debate sobre o programa para a mudança e sobre novas formas de organização política de massas, capazes de acolher o entusiasmo e a excitação dos e das ativistas que, depois de conhecer os resultados, continuaram na praça reunidos e a gritar "Sí se puede” [“Sim, nós podemos”]. Esse e nenhum outro é o capital político do Unidos Podemos, um capital muito superior a trocadilhos e discursos que as elites universitárias se auto-erigiram como supostos construtores do povo, e que usam para falar sem dizer nada. Os projectos de um novo país ou se concretizam, ou desaparecem perante as dificuldades. 6) Toda a direção do Unidos Podemos, mas particularmente os seus dois principais expoentes - que na noite eleitoral discursaram -  Alberto Garzón e Pablo Iglesias têm perante de si uma enorme responsabilidade: conseguir fazer um novo "Vista Alegre" (o Congresso fundador do Podemos), mas desta vez de uma nova formação unitária com vistas no futuro.

Artigo publicado a 28 de junho no Viento SurTradução de Joana Louçã para o esquerda.net.

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