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O passo à frente da França, o crescimento do Estado Islâmico, as ingerências

A dominação estrangeira, ao serviço de interesses alheios à população local, nunca foi bem recebida no Médio Oriente. As ingerências e as operações militares atuais também não o são. A cada bomba, a cada discurso desafiador, a cada retórica racista, o Daesh ganhará novos adeptos. Por Olga Rodríguez
Nos últimos anos Paris quis situar-se na primeira linha da geopolítica, impulsionando operações militares na Líbia ou no Mali. A Líbia converteu-se em arsenal de jihadistas armados que participaram no horror atual que esse país vive tal como a Síria
Nos últimos anos Paris quis situar-se na primeira linha da geopolítica, impulsionando operações militares na Líbia ou no Mali. A Líbia converteu-se em arsenal de jihadistas armados que participaram no horror atual que esse país vive tal como a Síria

Este artigo é a segunda parte de: Como surgiu o Estado Islâmico, como se financia e quem faz “vista grossa”

Nos últimos anos Paris quis situar-se na primeira linha da geopolítica, impulsionando operações militares na Líbia ou no Mali, com consequências nefastas.

O passo à frente da França

Hollande disse que o massacre de Paris é um ato de guerra, mas a verdade é que a França participa em guerras desde há muito.

Nos últimos anos o nosso país vizinho quis situar-se na primeira fila da geopolítica, em busca de uma maior influência internacional. Para isso fez bandeira da defesa da intervenção militar na Líbia, pela mão do filósofo Bernard-Henri Levy, que ontem mesmo pedia, numa fuga para a frente, mais tropas no terreno sírio e mais guerra.

Com a desculpa de libertar uma cidade das garras do exército de Khadafi, uma coligação militar liderada por França e Reino Unido - com companheiros de duvidosa reputação - armou em 2011 grupos jihadistas e indivíduos que antes tinham participado na guerra contra os EUA no Afeganistão.

Aquela operação prosseguiu durante meses e não parou até que França e EUA assassinaram extrajudicialmente Khadafi. Foi impressionante como ambos os países disputaram, qual despojo, a autoria de um assassinato que violava a lei internacional.

Chegámos, vimos, morreu”

Hillary Clinton celebrou o assassinato de Khadafi: "Chegámos, vimos e morreu"

Hillary Clinton celebrou o assassinato de Khadafi: "Chegámos, vimos e morreu"

A Líbia foi fragmentada e dividida em milícias armadas pelo Ocidente, algumas delas extremistas. Não importou. Hillary Clinton não pôde evitar aquilo de “chegámos, vimos e morreu”, comentando o assassinato de Khadafi. O selvagem oeste voltava a ser reivindicado. Para quê cárceres e tribunais quando se pode executar alguém sem mais?

A Líbia converteu-se em arsenal de jihadistas armados que participaram no horror atual que esse país vive tal como a Síria.

França também impulsionou uma intervenção militar no Mali em 2013, enviando tropas francesas para o terreno.

Os papéis na Síria

Desde 2011 vários serviços secretos ocidentais, assim como unidades especiais dos EUA, estiveram presentes na Síria, estudando que grupos da oposição apoiar e armar.

Já em 2012 escrevi no livro “Eu morro hoje. As revoltas no mundo árabe” como a França ou o Reino Unido, assim como Arábia Saudita, Emiratos ou Qatar, estavam a oferecer apoio logístico, militar ou de espionagem a diversos grupos “rebeldes”, alguns deles jihadistas.

A aposta de Obama foi a estratégia do desgaste: deixar que os lados envolvidos se debilitassem entre si, apoiando determinados grupos da oposição mas sem fornecer armamento pesado e evitando um desenlace.

Em 2014 começou uma campanha de bombardeamentos aéreos dos EUA e dos aliados do Golfo e em setembro deste ano juntou-se a França. Não é a primeira vez portanto que aviões franceses atacam posições do Daesh.

O Irão e a Rússia estiveram presentes apoiando o regime de Bashar al Assad, que não hesitou em golpear duramente com os seus bombardeamentos sobre zonas urbanas numa tentativa de acabar com a oposição, à custa de morte e destruição, o que contribuiu para o aumento do extremismo.

O Daesh na Síria

Estado Islâmico na Síria

Com a chegada à Síria de uma delegação do “Estado Islâmico” do Iraque em agosto de 2011 pôs-se em marcha o “Estado Islâmico” do Iraque e da Síria, que se estabeleceu em várias áreas sunitas do país, algumas delas próximas da fronteira da Turquia, onde têm operado os serviços secretos turcos, que têm feito vista grossa às idas e vindas dos jihadistas. Como apontei na primeira parte deste artigo, vários atores regionais beneficiaram com a existência do EI.

Em 2013, após a tomada de algumas cidades importantes do Iraque, o EI tornou-se forte e popular entre alguns setores de jovens muçulmanos marcados pela guerra ou pelo abandono. Para isso contribuiu a sua sofisticada campanha de propaganda através da Internet.

Sykes-Picot

O EI proclamou num vídeo que Sykes-Picot acabou, e muitos na região opinam que estamos perante um segundo Sykes-Picot.

O acordo de Sykes-Picot, chamado assim pelo apelido dos seus dois autores, foi subscrito de forma secreta em 1916, na I Guerra Mundial, entre a França e o Reino Unido. Através dele as duas potências repartiam entre si o controle do Médio Oriente em caso de uma vitória militar: a França exerceria a sua influência sobre os atuais Síria e Líbano, e o Reino Unido sobre a Transjordânia (a atual Jordânia e a Cisjordânia), Palestina e Iraque.

Assim o acordaram e assim se fez, apesar de que as suas promessas à população local tenham sido outras. A independência, ansiada pelos árabes, caiu em saco roto. Sykes-Picot converteu antigas províncias do Império otomano em países, desenhou fronteiras à sua vontade e repartiu um delicioso bolo entre Paris e Londres.

O papel da França na área

Desde 1920 e até à década de 40 a França exerceu o controle sobre a Grande Síria, que compreendia o que hoje conhecemos como Líbano e Síria. No Líbano impôs-se um sistema de partilha de poder em função da confissão religiosa fomentado por Paris, interessado em beneficiar os cristãos.

Esse sistema estabeleceu a presença no Parlamento de seis cristãos por cada cinco muçulmanos, apesar de estes serem a maioria no país. Isto estabeleceu uma divisão de facto entre as diferentes religiões.

A Cruz sobre a Meia Lua”

General francês Gouraud a desfilar nas ruas de Alepo em 1920

General francês Gouraud a desfilar nas ruas de Alepo em 1920

Na Síria, a França também exerceu o seu mandato impondo os seus interesses, violando a independência que o rei Faisal I tinha declarado em 1920 e declarando a Síria como sua “colónia”.

O oficial francês Gouraud comandou as suas tropas até Damasco, ocupou a cidade e esmagou uma revolta popular contra o mandato de Paris, na batalha de Maysalum. Depois disso, Gouraud dirigiu-se ao túmulo de Saladino, pontapeou-o e, segundo se lhe atribui até hoje, disse:

“Acorda, Saladino. Regressámos. A minha presença aqui consagra a vitória da Cruz sobre a Meia Lua”.

Apesar da repressão francesa, nos anos seguintes sucederam-se várias revoltas na Síria e no Líbano contra a dominação estrangeira. É importante ter em conta como esta continua a ser percebida desde há décadas.

As ingerências

Em 1948, no território vizinho à Síria, nasceria o Estado de Israel, patrocinado pela ONU, pelas potências ocidentais e pela URSS e com a oposição dos países árabes da zona, que viam em perigo os seus próprios territórios.

Quatro anos antes, quando dois rabinos tinham ido à Casa Branca pedir um Estado judeu na Palestina ao presidente Roosevelt, este disse: “Pensando nisso, dois homens, dois homens sagrados, vêm aqui pedir-me que permita que milhões de pessoas sejam assassinadas numa jihad”.

Também Hannah Arendt explicou então a sua oposição ao sionismo alegando que as políticas judias na Palestina dependeriam da proteção das grandes potências. E assim foi. O Ocidente continuou desde então a tomar partido pela ocupação israelita, que continua na Cisjordânia, em Jerusalém Leste, Gaza e nos Montes Golã da Síria.

A permissividade do Ocidente com semelhantes políticas, em comparação com os seus castigos aos árabes, tem sem dúvida consequências que há que avaliar.

A era colonial no Médio Oriente e as ingerências - como o golpe de Estado da CIA e do Reino Unido contra o governo democrático iraniano de Mossadegh - desembocaram na criação de organizações árabes de resistência armada ou, no caso iraniano, na revolução islâmica de 79.

Nos anos setenta os movimentos árabes seculares dominavam a cena, mas começaram a crescer alguns grupos religiosos islâmicos, impulsionados e apoiados por regimes conservadores que queriam diminuir a influência desse nacionalismo árabe laico predominante até então.

O ponto de inflexão

O ponto de inflexão: a guerra do Afeganistão. O remate final foram a invasão do Afeganistão em 2001, a ocupação do Iraque em 2003 e o inferno que provocaram – Foto de tropas de ocupação dos EUA no Iraque

O ponto de inflexão: a guerra do Afeganistão. O remate final foram a invasão do Afeganistão em 2001, a ocupação do Iraque em 2003 e o inferno que provocaram – Foto de tropas de ocupação dos EUA no Iraque

E chegamos de novo ao ponto de inflexão: a guerra do Afeganistão e os integristas islâmicos que receberam armas e financiamento dos EUA ou da Arábia Saudita para combater a URSS em solo afegão.

Ao mesmo tempo Israel invadia o Líbano, o que provocou a criação do Hezbolah, que em 1983 perpetrou um enorme atentado suicida contra o quartel dos marines norte-americanos em Beirute e contra um posto de comando francês.

Ao mesmo tempo na Palestina eclodia a primeira Intifada e, face à repressão israelita, surgiu a organização de resistência armada palestina Hamas. Também nasciam a Jihad Islâmica e grupos extremistas egípcios.

Poucos anos depois na Argélia, ex-colónia francesa, ocorria um golpe de Estado para impedir que a Frente Islâmica de Salvação, que tinha ganhado as eleições na primeira volta, pudesse governar. Desse modo nasceu o GIA, Grupo Islâmico Armado, que protagonizou um dos primeiros atentados jihadistas registados em França.

Tudo isto pressupôs a consolidação do islamismo e do extremismo nos grupos armados que lutavam ou pela independência, ou contra a ocupação, ou simplesmente já pela jihad. O remate final foram a invasão do Afeganistão em 2001, a ocupação do Iraque em 2003 e o inferno que provocaram.

Em 2006, o Ocidente novamente não quis reconhecer o vencedor de umas eleições democráticas quando o Hamas arrasou nos territórios palestinianos. Posteriormente em 2013 no Egito um golpe de Estado apoiado por setores ocidentais derrubou o governo da Irmandade Muçulmana eleito nas urnas e instaurou uma forte repressão, o que levou a que alguns jovens egípcios, radicalizados, tenham viajado para a Síria para se juntarem à guerra.

O mesmo ocorreu na Síria, onde a guerra e a repressão só têm engendrado fanatismo e dor.

A cada intervenção...

O ex-general norte-americano Wesley Clark disse há uns meses que “os EUA usaram o Islão radical para lutar contra os soviéticos no Afeganistão. Pedimos aos sauditas que pusessem dinheiro; e eles fizeram-no”.

Também este ano um antigo enviado especial da ONU, Lakdar Brahimi, que trabalhou no Iraque e no Afeganistão, atribuiu a emergência do EI à invasão do Iraque:

“Não havia justificação para a guerra do Iraque e todos pagamos as consequências”.

As guerras em que o Ocidente há anos está envolvido não só não pararam o terrorismo, como este tem aumentado.

A cada bomba sobre determinadas zonas da Síria, a cada discurso desafiador, a cada retórica racista, o EI ganhará novos adeptos não só no Médio Oriente, mas também em bairros deprimidos da Europa como naquele em que vivia um dos terroristas de Paris

A cada bomba sobre determinadas zonas da Síria, a cada discurso desafiador, a cada retórica racista, o EI ganhará novos adeptos não só no Médio Oriente, mas também em bairros deprimidos da Europa como naquele em que vivia um dos terroristas de Paris.

Este escrito é um simples esboço, pouco completo porque este formato impede-o, mas suficiente para mostrar que, apesar do que alguns insinuam em programas e tertúlias, o extremismo violento que se exerce em nome do Islão não procede de nenhum DNA inato a uma religião ou a uma etnia; que não surge por ciência infundida a partir do nada; que tudo tem um contexto político e histórico; que para procurar soluções para os problemas há que analisar as suas causas.

Artigo de Olga Rodriguez* publicado em eldiario.es. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net.


* Olga Rodriguez é jornalista especializada em informação internacional, Médio Oriente e Direitos Humanos (biografia, em espanhol).

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