You are here

O milagre económico, como o carnaval, durou três dias

As exportações não só nunca cresceram tão pouco, como o seu aumento se deve em grande parte aos combustíveis e não representou nenhum ganho na capacidade produtiva. O relatório do FMI torpedeou o porta-aviões de Paulo Portas, diz a deputada Mariana Mortágua.
Mariana Mortágua: "Os cortes nos salários e pensões são ou não temporários? Se são permanentes, digam-no aos portugueses e ao Tribunal Constitucional que passam a vida a tentar contornar. Se são temporários, comprometam-se de vez a devolver os salários e as pensões."

Eis a declaração política na íntegra:

O porta-aviões da recuperação, a que se referia o ministro Paulo Portas, durou menos de um dia até se afundar como um barquinho de papel feito de folhas de jornal. Que tenha sido o FMI a afundar a propaganda que o Governo pretendia levar até às eleições é a ironia poética de toda esta história.

O milagre económico anunciado pelo Governo, como o carnaval, durou três dias e quem enterrou o entrudo foi o próprio FMI. As exportações, como já foi dito e redito, não só nunca cresceram tão pouco, como o seu aumento se deve em grande parte aos combustíveis.

Pior. O aumento das exportações não representou nenhum ganho na capacidade produtiva. O que aconteceu foi que, com a diminuição do consumo em Portugal, as empresas direcionaram o que vendiam em Portugal para o estrangeiro. Ainda bem que o fizeram, mas não vale a pena embandeirar em arco com a alteração de paradigma económico, porque essa pura e simplesmente não existe. Não há aumento de produção sem investimento e o investimento em Portugal é coisa que já ninguém vê há muito e muito tempo.

O que é que mudou, então, no ciclo económico? Alguns pequenos indicadores, certamente, mas essencialmente o discurso político de um Governo sedento de se celebrar a si próprio.

Estamos bem lembrados sobre o que aconteceu no verão passado. Vítor Gaspar, com um défice real de 5,8% bateu a porta e disse que não tinha condições para continuar. Agora, depois do maior aumento de impostos de sempre, o Governo consegue a proeza nada recomendável de descer o défice duas míseras décimas e, com 5.6%, fala em milagres e faz a festa aos santos padroeiros da propaganda, Paulo Portas e Pires de Lima.

O “momento de viragem” resulta antes de mais da necessidade do Governo e da troika apresentarem um caso de sucesso. Não há nada de limpo no empobrecimento e na devastação social. A avaliação que conta é a que nos diz que país teremos em 2014. Foi esse o debate que aqui tivemos ontem, quando falámos de fundos estruturais. E o diagnóstico foi claro: o problema do país são as baixas qualificações e baixos salários. O problema do país é ser pobre, é ser desigual.

Se era este o retrato do país, hoje temos um país ainda com menos emprego, com salários ainda mais baixos, menos qualificado, com maior precariedade, impostos mais altos e menor solidariedade entre gerações. O que o Governo procura limpar, com o discurso da saída limpa, é a sua própria imagem a caminho das eleições.

O que aconteceu nestes últimos três anos não teve nada a ver com a correção das debilidades estruturais da economia e da sociedade portuguesa. Nem uma foi corrigida. Olhemos para trás.

No rescaldo de uma crise financeira, que a direita apagou da história para poder culpar de despesismo um povo que vivia com salários médios de 700 euros, a troika pegou num país estruturalmente pobre e disse: o problema de Portugal é não ser pobre o suficiente. Disseram mais, sempre com a cumplicidade da direita: Tudo aquilo que atenuou a vossa pobreza extrema e construiu a democracia nas últimas décadas - educação, saúde, segurança social, infra estruturas, proteção no emprego, salários mais dignos - tudo isso  foi o país a viver acima das suas possibilidades.

É preciso voltar ao que é suposto serem as nossas possibilidades, disse-nos Passos Coelho a semana passada, ao defender que agora temos uma economia mais de acordo com o país. É o regresso do tristemente célebre discurso dos pobres mas honrados. Mas não há nada de honrado no empobrecimento.

Não houve nenhum ajustamento e muito menos ajuda. Isso são palavras vazias para esconder o que tomou conta do país: um ajuste de contas da direita com a história, aproveitando o pretexto do combate à crise para diminuir salários, facilitar os despedimentos, consolidar os grandes interesses económicos. Hoje mesmo, ficámos a saber que, no meio do empobrecimento generalizado, os 10% mais ricos nunca foram tão ricos.

O relatório do FMI torna ainda claro que o Governo diz uma coisa a Bruxelas e Berlim e outra aos portugueses. Aos portugueses dizem que os cortes são temporários. Que vamos recuperar a soberania quando a troika sair e que querem mexer em todo os impostos que foram subindo. Um novo ciclo, diz o Governo de cá, para percebermos que lá assinam compromissos para cortar mais 2000 milhões de euros só em 2015.

Novo ciclo, sim, mas só se for de maior austeridade!

Em nome da seriedade e da clareza do debate, senhoras e senhores deputados do CDS e PSD, digam aos trabalhadores a quem prometeram não cortar salários que os cortes são para sempre. Admitam que em 2015 vão ter os mesmos cortes e mais outros.

Não lhes pedimos para nos dizer se há ou não milagre económico, que todos nós já percebemos que ninguém o vê, mas há um ponto que tem que ficar claro.

Os cortes nos salários e pensões são ou não temporários? Se são permanentes, digam-no aos portugueses e ao Tribunal Constitucional que passam a vida a tentar contornar. Se são temporários, comprometam-se de vez a devolver os salários e as pensões.

o_milagre_economico_como_o_carnaval_durou_tres_dias

Termos relacionados Política
(...)