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“O maior ato de solidariedade é reconhecer refugiados e migrantes como sujeitos políticos”

Intervenção de Chloe Haralambous, que trabalha na recepção de refugiados e migrantes na ilha de Lesbos, na conferência organizada pelo Bloco “Celebração do 8 de março – Feminismo contra a guerra”. O vídeo da intervenção pode ser visto em baixo.
Chloe Haralambous.

“Olá, sou a Chloe Haralambous, tenho trabalhado em Lesbos nos últimos 8 meses na recepção de refugiados e migrantes. 

Os refugiados e migrantes chegam aqui a partir da costa turca, são contrabandeados pela fronteira marítima para a Grécia e daí são levados para o continente até à fronteira com a Macedónia, onde continuam pela rota balcânica tendo normalmente a Alemanha como destino. 

A maioria das pessoas sabe mais ou menos como é que isso funciona. As pessoas conhecem contrabandistas no outro lado, cruzam o mar Egeu normalmente em Deniz, às vezes em barcos grandes, precários e que estão a apodrecer. A passagem é perigosa, mas muito menos que a de Lampedusa, e é por isso que tantas pessoas preferem fazê-la por aqui. São 7 km de distância e embora tenha havido pessoas que se afogaram, a percentagem é muito mais pequena quando comparada com Lampedusa. 

O maior problema para a passagem das pessoas neste momento é o estado da política europeia sobre migração e que esta esteja a mudar constantemente.

O maior problema para a passagem das pessoas neste momento é o estado da política europeia sobre migração e que esta esteja a mudar constantemente. Um dos novos impedimentos é a frota da NATO no mar Egeu, que originalmente começou por ser para reunir informação sobre traficantes. Os traficantes operam a partir de terra e não no mar, por isso é uma escolha um pouco estranha. De vez em quando, um traficante pode trazer um pequeno barco de 15 pessoas e depois volta mas isso acontece muito raramente. A maioria dos traficantes opera a partir de terra.

Originalmente, a frota da NATO foi desenhada como uma recolha de informação para desmantelar as redes de traficantes, porque os traficantes são sempre o ponto onde  a UE deflecte  a criminalidade. Os traficantes são as pessoas más, que se estão aproveitar dos refugiados e do seu desespero. Os traficantes estão a fazer tanto dinheiro porque não há alternativa não existe nenhum caminho legal, nem nenhum caminho seguro para a Europa.

Recentemente, a NATO disse que vão fazer operações de salvamento, resgatando pessoas enviando-as para trás, para a Turquia, onde as pessoas vão encontrar mais traficantes e fazer a viagem outra vez. Isto não é muito eficaz. A guarda costeira turca faz com que as pessoas voltem a trás, a guarda costeira grega, que nós saibamos, não o faz. 

Mobilizamo-nos à volta de uma moldura que é construída pelos Estados europeus para mobilizar compaixão pelos refugiados. O que justifica que acções brutais sejam feitas contra migrantes económicos ilegalizados.

O Frontex é sempre imprevisível, nós não temos a certeza absoluta do que é que o Frontex faz. Muito do nosso trabalho é baseado em tentar perceber e estimar o que está a acontecer na fronteira turca, por exemplo, quando a polícia turca está ativamente a impedir as pessoas de fazer a travessia, porque o fluxo de pessoas diminuiu drasticamente. 

Quando as pessoas chegam aqui, são levadas para o campo de refugiados e são registadas. Têm um tipo de registo provisório e depois continuam a viagem. Esta tem sido a política até aqui, e é provável que novas medidas venham a ser tomadas para enviar pessoas para trás directamente desde Lesbos, se as pessoas não se qualificarem para o estatuto de refugiado. 

E isto é sempre sujeito a certos interesses, e são os problemas criados pela condição de refugiado e pela forma como nos mobilizamos à volta da ideia de “refugiado”. Mobilizamo-nos à volta de uma moldura que é construída pelos Estados europeus para mobilizar compaixão pelos refugiados. O que justifica que acções brutais sejam feitas contra migrantes económicos ilegalizados.

A definição de refugiado está sempre a mudar. Durante muito tempo, os afegãos não estavam incluídos, depois foram incluídos e depois a polícia da Macedónia decidiu que não estavam incluídos. Umas das coisas que eu insisto muito é no uso da palavra refugiado com algum cepticismo. O termo refugiado é um termo instituído pelo sistema, e é uma treta manipuladora para servir certos interesses. 

O termo refugiado é um termo instituído pelo sistema, e é uma treta manipuladora para servir certos interesses. 

Vocês estão interessadas na condição de mulher refugiada, que é um assunto no qual não costumávamos ter que pensar muito porque a imigração é associada tipicamente a homens, normalmente jovens que faziam a travessia para a Europa de qualquer forma e talvez depois trariam as suas famílias. Há todo o tipo de discursos ideológicos bastante frios associados a estas homens, que são normalmente reformulados para lidar com a migração actual.

Um exemplo é aquilo que aconteceu em Colónia, que foi uma forma muito visceral de falar dos medos de entrada, de penetração do outro na nossa sociedade, nas nossas mulheres e esse tipo de medos. Mas agora é diferente, porque 20% das pessoas a fazer a travessia são mulheres e 34% são crianças. 

Muita da compaixão ocidental foi mobilizada à volta desta ideia de mulheres e crianças pobres e envolve um tipo de objetificação continuada. Este tipo de compaixão que funciona através de um bombardeamento de imagens de refugiados que vemos em todo o lado nas notícias, como o bebé a gritar, ou a mulher a gritar ou a chorar. E funciona como uma despolitização das mulheres e das crianças. 

Este tipo de compaixão funciona através de um bombardeamento de imagens de refugiados que vemos em todo o lado nas notícias, como o bebé a gritar, ou a mulher a gritar ou a chorar. E funciona como uma despolitização das mulheres e das crianças. 

Os homens são perigosos por isso ainda são políticos. As mulheres e as crianças estão só a sofrer, não são políticas, não são ameaçadoras, não são seres políticos. O que acontece nas zonas fronteiriças facilita isso, porque são espaços onde as estruturas patriarcais que são trazidas desmoronam. O homem da família de repente não tem qualquer poder para proteger a sua família. Se o traficante pede um valor diferente, o homem não pode negociar muito, ele quer fazer a travessia. Ele faz a travessia, uma travessia perigosa, com a sua família e não está numa posição em que possa protegê-los. Eles chegam cá e ele não pode tomar qualquer decisão, as autoridades ou as ONGs tomam as decisões. Eles não decidem onde vão ou o que podem, ou não, fazer, o que significa que a migração é muitas vezes uma experiência castrante para os homens migrantes.

O patriarcado é continuado através de uma espécie de discurso liberal humanitário. Ao representarmos e fantasiarmos este sofrimento através de mulheres e crianças, vemos-nos livres de um patriarcardo, mas instituímos o Ocidente como patriarcado, que vai tomar conta delas porque elas não têm agenciamento não são consideradas um sujeito ativo. Este é um dos problemas de uma compaixão de género. A continuação do patriarcado através de outros meios, onde o Ocidente liberal toma o lugar do patriarcado. 

É verdade que a viagem é mais perigosa em determinadas formas para as mulheres e isso é algo em que não estamos habituados a pensar, ou em que a maioria das pessoas não está habituada a pensar, a dinâmica de género na migração. O facto de muitas mulheres serem assediadas durante todo o caminho pelos traficantes, pelas autoridades ou por outros migrantes. E não há, ou há muito poucas estruturas que tenham algum cuidado particular com as mulheres, pelo menos em pontos de trânsito como este.

Ao representarmos e fantasiarmos este sofrimento através de mulheres e crianças, instituímos o Ocidente como patriarcado, que vai tomar conta delas porque elas não têm agenciamento não são consideradas um sujeito ativo. Este é um dos problemas de uma compaixão de género.

Algumas das refugiadas e migrantes chegam até nós vestidas de homens e em parte isto tem a ver com uma tentativa de se protegerem contra este assédio. Quando chegam, são normalmente colocadas em campos, tendas com centenas de outras pessoas onde é suposto dormirem lado a lado com estranhos, que normalmente são homens. As mulheres raramente viajam sozinhas, normalmente estão acompanhadas por um tio, um pai, um marido, embora às vezes aconteça. E  é sempre obviamente uma experiência muito desconfortável. 

Depois há coisas práticas. Em termos de doações, temos um grande quantidade de fraldas, mas não temos pensos higiénicos ou tampões. Porque não ocorre às pessoas pensar realmente na carne, na corporalidade, na fisicalidade do corpo de outro e considerar que a experiência da migração para as mulheres é diferente. E é diferente em situações muito práticas e imediatas. 

Embora seja provável que quando chegam aos seus destinos, na Alemanha por exemplo, haverá estruturas que estão desenhadas para ajudar estas mulheres, pelo caminho estas estruturas não existem. Talvez haja casas de banho diferenciadas por género, mas normalmente não há quartos ou tendas divididas. 

Acho que é importante ter discussões como esta para conseguirmos formular um discurso sobre as mulheres migrantes, que são tão negligenciadas, apesar de haver uma abundância de discursos, normalmente de direita, à volta de migrantes homens. Isso não existe para as mulheres, as mulheres simplesmente não são consideradas quando falamos de migração. Talvez porque a ideia de famílias completas, aldeias inteiras ou de mulheres velhas migrarem é bastante recente.

Politicamente, a coisa mais importante a fazer é pressionar para uma passagem segura, mas uma passagem segura pode parecer muito diferente em diferentes cenários, pode significar abrir fronteiras terrestres ou pode também significar levar as pessoas directamente da Turquia. 

Sobre o que se pode fazer para ajudar, se estiverem interessados em doar, não enviem materiais para Lesbos, porque se tornou um sítio tão icónico da travessia, que as pessoas doam tudo para aqui e de momento estamos bastante bem abastecidos. Em Idomeni, na fronteira norte com a Macedonia, estão menos abastecidos e têm menos voluntários. E ao longo de toda a rota balcânica, que é onde esta experiência se torna muito diferente de acordo com a nacionalidade. Os casos de asilo não deveriam ser avaliados com base na nacionalidade, mas são, o que significa que assim que assim que as pessoas chegam à fronteira norte, elas são divididas entre aquelas que continuam a viagem por meios legais e as que precisam de ser contrabandeadas. 

Politicamente, a coisa mais importante a fazer é pressionar para uma passagem segura, mas uma passagem segura com atenção ao detalhe. Uma passagem segura pode parecer muito diferente em diferentes cenários. Uma passagem segura pode significar abrir fronteiras terrestres. Uma passagem segura pode também significar levar as pessoas directamente da Turquia. 

De qualquer das formas, uma passagem segura vai sempre encontrar um grande obstáculo que é a definição de refugiado e de migrante. Mesmo que haja uma passagem segura, esta vai ser concedida a refugiados e não a migrantes ilegalizados. A esquerda precisa de ter muito cuidado sobre isto e entender que, quando expressamos solidariedade com refugiados, estamos a deixar uma categoria de fora e entender que a condição de refugiado é algo que é concedido pelo poder, pelo poder ao qual tipicamente nos opomos. 

A esquerda precisa de ter muito cuidado sobre isto e entender que, quando expressamos solidariedade com refugiados, estamos a deixar os migrantes económicos ilegalizados de fora e devemos entender que a condição de refugiado como algo concedido pelo poder.

Por exemplo, se houver uma passagem segura desde a Turquia, as pessoas que não estão incluídas na categoria de refugiado terão que fazer a viagem à mesma de forma ilegal através de meios perigosos. Se a passagem segura significar abrir fronteiras terrestres, então isso significa que as pessoas ainda vão ter a oportunidade de ser contrabandeadas. Isto é uma coisa muito estranha, querer que as pessoas possam ter a oportunidade de ser contrabandeadas, mas como não há alternativa, existe pelo menos essa hipótese e por terra é menos perigoso. A minha sugestão é que por todos os meios pressionemos por uma passagem segura, mas que sejamos claros que queremos uma passagem segura para refugiados e para migrantes. 

Por outro lado temos de colocar pressão nos governos para que aceitem quotas maiores de migrantes. Acho que isso consegue ser o mais significativo do que vir aqui e tentar ajudar pessoas que chegam por mar. Não se esqueçam que as pessoas têm feito isto por elas próprias já há bastante tempo, antes de haver qualquer tentativa ocidental de as ajudar na travessia. 

Humanitarismo é um conceito relativamente conservador porque coloca o outro na posição da criança, alguém que está em sofrimento, alguém que não tem poder. As pessoas têm agenciamento e que são sujeitos políticos e o maior acto de solidariedade que podemos ter é reconhecê-los como tal.

Isto é uma escolha que as pessoas fazem. Elas têm agenciamento e conseguem sobreviver por elas próprias e isso é importante reconhecer sempre que se faz trabalho humanitário. Humanitarismo é um conceito relativamente conservador porque coloca o outro na posição da criança, alguém que está em sofrimento, alguém que não tem poder. Lembrem-se que as pessoas têm agenciamento e que são sujeitos políticos e que o maior acto de solidariedade que podemos ter é reconhecê-los como sujeitos políticos, que estão numa nova formação política que é a Europa. Temos de tentar encorajar governos, colocar pressão nos governos e encorajar as esferas sociais para os aceitar.”

“O maior acto de solidariedade é reconhecer os refugiados e migrantes como sujeitos políticos”

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