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O legado islâmico na Europa: mais intercâmbio do que conflito religioso

A ideia de que a relação entre cristianismo e islamismo se reduziu a conquista e conflito religioso estrutura ainda hoje as reações políticas no debate sobre migrações na Europa. Mas a investigação histórica mostra-nos um quadro muito diferente. Por Antonio Urguízar Herrera e Borja Franco Llopis.
Estudiosos na biblioteca Abbasi, por Yahya ibn Mahmud al-Wasiti, Bagdade, 1237.
Estudiosos na biblioteca Abbasi, por Yahya ibn Mahmud al-Wasiti, Bagdade, 1237.

Existe nos nossos dias uma tendência a pensar na interação histórica entre o islamismo e o cristianismo em termos de conquista e conflito religioso. É uma ideia que até certo ponto estrutura algumas das reações sociais e políticas que habitualmente se produzem a respeito da imigração islâmica  – em particular o desafio dos refugiados–, e o debate sobre o seu impacto nos valores fundamentais da Europa.

No entanto, esta é uma visão que não partilham muitos dos investigadores que estudam as relações entre as diferentes religiões e culturas na Europa, cujas análises revelam, pelo contrário, que durante séculos a situação foi muito mais complexa e rica em matizes, e que não respondia únicamente a parámetros relacionados com a confrontação.

Um legado muito estudado, mas a que faltou uma interpretação global europeia

Nos últimos trinta anos, os estudos sobre as inter-relações históricas entre o cristianismo e o islamismo na Europa cresceram exponencialmente. Graças a eles, hoje em dia conhecem-se melhor as redes culturais e comerciais e as rotas terrestres e marítimas, através das quais chegou ao Velho Continente um conjunto significativo de pessoas, conhecimentos e objetos procedentes da costa islâmica do Mediterrâneo e dos Balcãs.

As investigações sobre estes assuntos proliferaram em diversas áreas geográficas – a Península Ibérica, Itália, Europa Central e os Balcãs, assim como nas diferentes ilhas do Mediterrâneo – mas. no entanto, fizeram-no de forma isolada, observando a história local e deixando de lado uma visão geográfica mais ampla. Neste sentido, o distanciamento académico entre Europa Central/Oriental e a Península Ibérica, por exemplo, é particularmente marcado.

Esta falta de uma interpretação global é particularmente relevante porque entorpeceu o reconhecimento da natureza verdadeiramente europeia da presença do islamismo no continente e isto contribuiu para a alimentar certas ideias preconcebidas na sociedade atual sobre a relação histórica entre o islamismo e o cristianismo.

Conscientes da importância de reverter esta situação e tendo em conta a encruzilhada cultural e política que vive a Europa neste momento, um grupo de mais de 150 investigadores procedentes de 38 países de Europa e do Mediterrâneo participam atualmente na Cost Action, que tem como título Islamic Legacy. Narratives East, West, South and North of the Mediterranean (1350-1750).

Os fundamentos deste projeto partiram de diversas perguntas de investigação que enlaçam o passado histórico das distintas regiões da Europa e procuram pensar com outros términos e desde novas perspectivas as sociedades pré modernas.

Repensando as relações com o islamismo

Face à generalização habitual dada à conceção das relações políticas e culturais entre o Oriente e o Ocidente em termos de alteridade, a realidade do estudo histórico mostra que a forma na qual a oposição se foi forjando através dos séculos nem sempre é nítida.

Certas tendências historiográficas quiseram mostrar as sociedades cristãs e islâmicas como antagónicas, como dois modelos de vida e pensamento oposto, que viveram continuamente em confronto. Os textos e as imagens foram analisadas, em muitas ocasiões, de modo descontextualizado e tendencioso, tendo em conta só uma face da moeda, aquela que partia da cultura supostamente dominante, isto é, a Ocidental.

Por exemplo, a sociedade atual assumiu, em parte, estereótipos que nasceram das canetas e dos pincéis de escritores e artistas do mundo medieval e moderno. Estes retratavam o muçulmano como um indivíduo que devia ter turbante, ser muito moreno de pele e atuar com perversidade, sempre frente ao cristão, que teria de ser, à força, branco e de retitude moral, roçando um pouco de pré-racismo. Estas ideias, assumidas durante anos, e questionadas de modo muito superficial em certos momentos históricos, devem ser repensadas à luz de um estudo crítico das fontes que incorpore recursos (imagens e textos) islâmicos.

O Mediterrâneo como fronteira porosa

Muitas destas aproximações que insistem num antagonismo entre o islamismo e o cristianismo, como duas sociedades separadas, partem da ideia de entender o Mare Nostrum mais como uma barreira entre a Europa e o Norte de África do que como um espaço de intercâmbio.

Por sorte, esta tendência está a mudar nos últimos anos. Através das biografias de presos, convertidos ou escravos, ou também mediante o estudo do comércio de tecidos, livros e outros objetos artísticos e de uso quotidiano, pode-se perceber a intensidade dos contactos que se produziram entre a costa do Mediterrâneo, com milhares de pessoas, de objetos e de ideias circulando em cada instante.

O próprio conceito de fronteira precisaria de uma revisão quando falamos do islamismo na Europa. Os mapas definem as linhas para separar territórios mediante diferenças políticas, culturais e religiosas que nem sempre corresponderam com a realidade e que foram mudando ao longo dos séculos. Por isso é necessário repensar o conceito de limite geográfico como uma representação criada para marcar distâncias, mas que na realidade funcionava de uma  maneira viva como um espaço permeável de contato.

O exemplo dos museus

Nos últimos anos, está-se a produzir uma renovação da forma em que os museus europeus organizam e apresentam ao público as suas coleções de arte islâmica, como as do British Museum, o Gulbenkian de Lisboa, o Arqueológico Nacional de Madrid, o Louvre, o Museum für Islamische Kunst de Berlim e o Benaki de Atenas entre outros tantos.

Em alguns casos, os espectadores  encontram-se, por exemplo, com novas narrativas que procuram transmitir melhor as inter relações entre culturas e religiões diversas.

A renovação alcançou as categorias artísticas tradicionais de “arte cristã” e “arte islâmica”, que já não são entendidas como duas opções diferentes, como dois estilos diferenciados que partem da sua própria tradição, mas sim como entes vivos, mutáveis e que bebem muito uns dos outros. Por isso o debate académico dirige-se agora também à análise da interação que se deu entre oriente e ocidente, a mostrar uma história de contatos e não só de enfrentamentos.

O desenvolvimento de projetos como a Cost Action antes mencionado pretende a formação de uma massa crítica académica que tenha alcance europeu e que permita estabelecer pontes entre a investigação básica e as instituições culturais com o fim de que a sociedade europeia reflita de forma mais consciente sobre um fenómeno, a presença do islamismo na Europa, que faz parte da história compartilhada do continente.

Artigo de Antonio Urguízar Herrera, Catedrático de História da Arte da Universidade Nacional de Educação à Distância e de Borja Franco Llopis, investigador na mesma instituição.

Artigo publicado no The Conversation a 17 de março de 2020 e traduzido por Diego Garcia para o esquerda.net.

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