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O Joker, a Mimo e a revolta global

Daniela Carrasco era uma artista de rua chilena que apareceu morta depois de, alegadamente, ter sido levada pela polícia. Aparentemente não podia ser mais diferente de Joker, personagem ficcional reinventado por Todd Philipps. Partilham o facto de se terem tornado em símbolos improváveis na nova onda de revolta mundial.
Foto que circulou nas redes sociais como sendo de Daniela Carrasco. Na verdade é de uma estudante que a quis homenagear. Chile, outubro de 2019.Fonte: twitter.
Foto que circulou nas redes sociais como sendo de Daniela Carrasco. Na verdade é de uma estudante que a quis homenagear. Chile, outubro de 2019.Fonte: twitter.

O Joker de Todd Philipps apresenta-se como o contraponto da saga Batman. Vai além do conto maniqueísta do herói bom contra o vilão mau. E também não cai na consagração do vilão com estilo, o sedutor com tiradas sagazes de humor negro a piscar o olho à desculpabilização dos nossos maus fígados, ainda que se pressinta que possa retratar apenas as dores de parto da criação de uma personagem que dessa forma se pretenderá impor.

Faça-se-lhe por isso, e por ter conseguido gerar vários debates, justiça. Se é que é virtude resistir à simplificação alimentando a ambiguidade. Já outro dos seus méritos, ter transformado este Joker num símbolo que começou a surgir espontaneamente em várias das manifestações da onda de contestação que tem varrido o mundo, não lhe pode ser diretamente creditado.

Quanto à sua mensagem circularam imediatamente, pelo menos, duas interpretações contrastantes. Na leitura conservadora, o filme seria uma justificação, no melhor caso, ou até uma celebração, no pior, do terrorismo individual alt-right. De qualquer forma, era visto como perigoso pela identificação que poderia criar em indivíduos vulneráveis e já predispostos à violência. Na leitura progressista, tratar-se-ia, pelo contrário, de uma denúncia das políticas de austeridade e do falhanço do Estado social, da cupidez das elites.

Cada uma destas leituras dependerá dos pré-conceitos e da escolha do espectador de se focar mais no individual ou no social mas também das lições que se tirem sobre a posição do filme quanto à questão da origem da maldade e da criminalidade e do papel da doença mental. Mas a obra parece permitir bem mais a segunda interpretação, sendo inclusive em alguns momentos demasiado panfletária nesse sentido.

Joker-loucura-morte?

A questão da doença cruza, aliás, o filme de duas formas. Em primeiro lugar, Joker é uma obra acerca de uma doença real, a epilepsia gelástica, que causa um riso considerado socialmente estranho e que irrompe inesperadamente. Ou seja, é sobre a violência do estigma social associado à diferença face à norma.

Em segundo lugar, é um filme em que a doença mental ocupa lugar de destaque. Arthur Fleck, que virá a ser o Joker, é um doente mental, diagnosticado e medicado. Por isso, até há quem se queixe de que, por detrás dos seus mecanismos sofisticados, a película é afinal apenas uma continuação da tradição de estigmatização da doença mental, associando-a naturalmente à criminalidade violenta e derivando-a dos abusos sofridos na infância.

Só que este Joker não parece de todo ser construído para suportar a ideia de que haja uma sequência causal “abuso na infância-doença mental-crime”. E também não o será para avançar com qualquer outra versão em que a componente genética ganhe um maior peso (que se apoiaria no facto da sua mãe também sofrer de doença mental): “genética-loucura-crime”. Não se trata pois nem de preferir uma alternativa no datado debate extremado nurture versus nature, nem de combinar as duas de alguma maneira.

Não deixando de ser problemático, o papel da doença mental será outro. Não é (sobretudo) por ser doente mental que Fleck se transforma em Joker. A doença mental entra na história, em primeiro instância, pelo lado do sofrimento, um dos muitos da sua vida. Assim, Fleck não é violento por natureza, luta por se inserir socialmente, resiste aos vários golpes da sorte.

Pode dizer-se que o lugar de nascimento do vilão é duplo. O que despoleta a explosão-Joker é o corte do apoio estatal e da medicação que o faz descompensar (e, ao pretender-se aparentemente acusar os autores de tais políticas, acaba por se tornar pertinente a crítica de que o efeito colateral será o reforço da caricatura da doença mental como intrinsecamente violenta, lançando todo uma outra série de discussões de que aqui não me vou ocupar).

Só que Fleck apenas se transforma em Joker através de uma sucessão de frustrações em que tudo corre mal e todos são indiferentes. A explosão precisa da acumulação. E, deste ponto de vista, para fabricar um vilão parece ser precisa uma tempestade perfeita. O cómico falhado ridicularizado, o trabalhador pobre despedido e humilhado, a família disfuncionalmente singular e o abuso no seu seio, o amor impossível, o desprezo social repetido a cada ocasião. Na sua queda, Fleck não tem nada a que se agarrar.

A revolução maquilhada?

O vilão perfeito necessita que tudo falhe. Talvez assim se torne um pouco mais interessante o que seria um dispositivo desinteressante e estafado, descobrir qual o trauma que despoletou a maldade absoluta. E talvez também se ganhe, como vimos, com a ambiguidade criada por esta proliferação que induz a que cada um saia da exibição da película com a dúvida sobre o que seja mais determinante ou com a versão que mais lhe convenha, potenciando a proliferação de discursos divergentes.

Com o exagero narrativo a introduzir-se como fundamental para que surja Joker onde ele não estava inscrito à partida, resulta que a tragédia absoluta da sua vida o torna inverosímil. E o preço a pagar por isso é que desta forma a torrente das desgraças acaba por fazer ricochete e causar interferência com a sua vertente panfletário-social.

Na ânsia de entretenimento, apesar de tudo, Hollywood repete-se simultaneamente como tragédia e como farsa. E de entre os vários motivos insistentes não pode deixar-se de sublinhar o edipianismo hollywoodesco, aqui também retorcido reconheça-se, que também se combina problematicamente com o panfleto nesta genealogia do mal. Tudo corre mal porque há, para além do colapso das instituições públicas numa sociedade em crise, uma riqueza que é obscena e escandalosamente agressiva e que vê os pobres como palhaços, com a entrada em cena de um pouco disfarçado Trump, e uma política também ela pouco disfarçadamente ao serviço das fortunas. Tudo corre mal também porque esse é afinal o pai odioso que renega o próprio filho.

Joker, filho do desprezo paterno e do abuso materno, confessa-se repetidamente apolítico e despolitiza ativamente a denúncia social que o filme carrega. E, para além dele, a revolta que “inspira” também é filha da indiferença. Protesto inorgânico, do qual está ausente qualquer sujeito político, o motim é, sobretudo, espetáculo e homicídio. O povo que o fomenta não se constitui sequer como povo mas ostenta-se como sociedade egoísta insatisfeita, indiferente ao outro tanto no conformismo como na revolta, como sublinha uma réstia de Fleck ao justificar o advento do assassino Joker.

Assim, mesmo durante a revolta, é a atomização social que se impõe. E se a elite é insuportavelmente arrogante e distante, o povo não fica melhor na fotografia. Para olhar politicamente para Joker é preciso pois não se deslumbrar com o retrato crítico de uma elite insuportavelmente arrogante e exploradora. É preciso ver que a crítica social é transversal e atinge também os de baixo. Por essa via, esta película torna-se também sobre uma revolta que não pode chegar nunca a ser revolução. Redundando assim em mais uma versão de um velho tropo dos filmes sobre injustiça social e rebelião: a impossibilidade da revolução.

Noutros casos a impossibilidade/indesejabilidade da revolução entra-nos pelos olhos dentro mascarada de progressismo através da mini-revolta que é limitada à recuperação da velha ordem justa posta em causa por um tirano ou à reparação de uma injustiça cometida para com o legítimo líder, bom por natureza, que providenciará o melhor. Aqui são o cinismo, o desespero, a negatividade que estão no seu caminho.

A este propósito, convém não esquecer, que a prequela bastarda da saga Batman está condenada à partida a ser lida pelo que está para além dela. O fantasma do Joker-resultado persegue cada momento da vida de Fleck. Assim como o fantasma de Batman-herói vingador surge sempre por detrás dele.

A revolta que fica a meio como pano de fundo da história de Fleck não é assim um lugar vazio a preencher como o espectador quiser mas acaba por ser inevitavelmente assombrada pelo destino de uma Gotham habitada por um justiceiro desejado e, apesar de milionário, de certa forma outsider, por criminosos grotescos e por um povo indiferenciado que não tem protagonismo na história da cidade. Uma ordem sombria mas estável. A denúncia social é assim um lugar acolhedor mas está desenhada como um beco sem saída. A revolta dos indiferentes não rompe este fechamento. Apenas agrava a possível emergência de uma ânsia de normalização face ao excesso e do desejo do herói por vir.

Exageram assim o realizador Michael Moore e o pensador Zizek. Um ao falar no sonho de transformação que o filme alimentaria, o outro ao supor que esse pesadelo é um momento negativo da violência a caminho da positividade revolucionária. O problema principal é precisamente que para aderir a qualquer uma destas ideias é preciso negligenciar a forma como a sociedade é retratada e como a própria revolta é mostrada.

Por um lado, Zizek pensa que é uma questão de “elegância” deixar em aberto a passagem da “pulsão auto-destrutiva” para o “novo desejo de um sujeito político emancipatório” que caberia ao espectador preencher. Deixando de lado, a sua habitual veia desveladora de desconstrução a contra-corrente mas esforçando-se por permanecer provocador, envereda num caminho demasiado rebuscado no qual Joker serve para se colocar como “hipótese”, “como ameaça”, imagem da atitude “supérflua e não produtiva”, que afinal, qual momento dialético indispensável, lá estaria porque “não há nenhum caminho direto da miséria existente até à sua superação construtiva”. Teria portanto de se passar pelo “nível zero auto-destrutivo” que Joker representa de forma a “libertar-se das coordenadas do sistema existente e encarar algo realmente novo”. Só que para além de Joker não há o socialismo, só há o imaginário de Gotham.

Michael Moore, por outro lado é menos sofisticado, menos joker, mas pretende ser igualmente agitador. Num rasgado elogio, apresenta o filme como a imagem no espelho de um “palhaço perturbado” junto à qual nos podemos ver a nós próprios e “a América que nos deu Trump” com o benefício adicional de ajudar a compreender porque é que “pessoas inocentes se tornam em jokers”.

E onde Zizek “celebra” descomplexadamente a violência como momento necessário da imaginária dialética do realizador e do espectador, Moore tem de a conjurar, vendo-a sobretudo como perpetrada contra o próprio Joker, cujo crime é afinal “não conseguir obter ajuda”, e referindo que a questão não está no “(mínimo) sangue nos ecrãs” mas em que “no fundo estávamos a torcer por ele”. E é aí que “devemos agradecer a este filme por nos ligar a um “novo desejo” de “lutar e focar a nossa atenção no poder não-violento que temos nas nossas mãos a cada dia”. Vê-se a cada momento o que se quer, no cinema como na vida. Mas até sentados no escuro, procurando ser entretidos e obrigados a ouvir as pipocas a estalarem por todos os lados precisamos de nos acautelar com os enviesamentos do nosso wishful thinking.

Nas manifestações, o Joker é a cartada certa?

Mas a vida mais interessante de Joker é a que encontrou fora das interpretações que se têm esgrimido. A história, que era sobre alguém que despoleta uma revolta apesar de si, acabou por se tornar numa das imagens-símbolo da revolta, igualmente apesar de si, apesar do que acreditemos procuraria transmitir, se é que vinha com intenção alguma, apesar das emoções que pretendia fazer sentir ou dos bilhetes que se esforçou por vender. Assim, não é tanto que interpretações e intenções não contem por si só como sinal dos tempos, contam e muito, é mais que a imagem que ganha um poder próprio para além delas.

A cara pintada de Joker que tem surgido amiúde em vários pontos da onda de manifestações que varre o mundo atualmente, multiplicada como nenhum outro filme dos tempos recentes, com a exceção da máscara de “V de Vendetta” (com a qual partilha um esgar de desafio), ganhou portanto um espaço próprio, independentemente das mensagens pretendidas ou transmitidas inadvertidamente pela obra.

A sua presença não pretende evocar ou replicar a revolta de Gotham, não é um sinal de apoio ao vilão contra o herói, nada quer saber sobre o egoísmo que grassa no seu enquadramento. Escolhe de entre o imaginário do filme apenas que quer. Identifica-se em primeira instância com o underdog, apesar dos exageros da personagem. Grita revolta para com os ricos, muito para além da caricatura simplista do panfleto.

Apropriação e transfiguração, a cara pintada de Joker é tão pouco devedora de Todd Philipps quanto das leituras de Zizek ou de Moore sobre o filme. Está longe de ser a ameaça de um Joker-assassino e nem sequer é a cara de um sofrido Fleck.

De que é então Joker nome? Mais, valerá sequer a pena perguntar por uma presença tão capilar e desorganizada, em lugares distantes, encarnada por pessoas que, muito provavelmente, não irão nunca encontrar-se, que não estarão a dar vida ao mesmo tipo de personagem?

A cara pintada muda quem a pinta, junta quem se pinta, tem um poder evocativo para quem vê. E o riso que traz subjacente, quando não sintoma de doença ou marca de nihilismo, tem um potencial subversivo inegável. Pode-se dizer que quando a cara pintada de Joker desfila nas manifestações joga-se algo entre a cartada do desafio ao poder e a identificação subversiva dos “de baixo”. E, contudo, o “somos todos palhaços”, sendo já tanto, é demasiado pouco. Joker é uma máscara individual que desfila onde os símbolos coletivos tradicionais de luta faltam. Assim, o seu riso recorda-nos, ainda e antes de mais, a distância a percorrer para que a revolta se faça revolução.

A Mimo, tragédia pessoal e redes sociais

É nos antípodas da fição e dos seus esquemas narrativos, numa vida real feita de vilões, absurdamente violentos e tantas vezes sancionados socialmente, que uma outra ideia de sociedade, outras formas de protesto, outros artistas desfavorecidos e nas margens da sociedade, outras formas de lidar com a dor e a indiferença nos chegam através da história de Daniela Carrasco.

Diz-se que, com a arte e a sua cara pintada, a artista de rua chilena de 36 anos, conhecida como A Mimo, não ficou à margem, participava nos protestos contra o governo de Piñera. Neste primeiro sentido, seria uma anti-Joker. Mas a verdadeira e singular história da sua vida é outra que não a que podemos aqui contar.

Daniela Carrasco apareceu enforcada no gradeamento de um parque na zona de Santiago do Chile a 20 de outubro. No Twitter, o Sindicato Nacional Interempresas de Actores e Actrizes do Chile exigiu esclarecimentos sobre a participação da força policial na sua morte. O coletivo feminista #NiUnaMenos do Chile denunciou um femicídio em que ela foi “ultrajada, torturada e assassinada.”

Uma imagem chocante de uma mulher morta fez imediatamente um contraste horroroso com a imagem bela de uma jovem pintada de mimo numa das manifestações que o país vive. E de um momento para o outro, e sem ter surgido praticamente nos grandes meios de comunicação social, esta história tornou-se um fenómeno viral. Num contexto em que a repressão policial do governo neoliberal chileno causava um número indeterminado de mortes, a história de Daniela destacou-se, circulando que tinha sido detida pelos carabineiros, que tinha sinais de tortura e violações. A justificação oficial de suicídio, claro, poucos terá convencido.

À sua maneira, A Mimo tornou-se assim também uma imagem de protesto. Caras pintadas como a sua surgiram em manifestações e homenagens numa geografia muito própria: Chile, Itália, Turquia e vários países da América do Sul, particularmente. Sem se poder considerar propriamente um fenómeno global, e destinada à partida ser bem mais efémero do que Joker, a cara da Mimo impunha-se como a da necessidade de solidariedade feminista, como a de uma sociedade que não é indiferente, de um mundo em que são precisas mais Mimos e menos Jokers, em que apesar da violência há organizações sociais que não esquecem, em que uma revolta engajada, participada, desafia os monstros que o desespero e o medo fabricam. Porque se na ficção são os vilões que assustam, na vida real o que assusta os mais poderosos é a mobilização popular. Mulher, criadora de outro tipo de riso e de uma revolta consciente, nesse outro sentido, A Mimo apresentava-se ainda como uma anti-Joker.

Só que esta é uma história do tempo das redes sociais. E, afinal, a imagem que mais circulou, a “mais bela”, não era a verdadeira cara da artista. Era a de uma jovem que a homenageou imediatamente após a notícia da sua morte. Da verdadeira Daniela Carrasco não havia uma foto com semelhante poder de difusão, apenas uma mais desfocada, de uma mulher claramente mais velha. Lembrete cruel que, até quando se é vítima, a imagem conta.

Pior, a história presumida não se confirmava. Uma fonte credível e não afeta ao regime, uma organização de advogadas feministas do Chile, confirmou junto da família a existência de uma carta de suicídio com a letra de Daniela, a inexistência de provas de maus tratos e de violações e sua vontade de que o luto fosse vivido de forma reservada.

Depois disso, curiosamente, alguns meios de comunicação social internacionais prestaram mais atenção ao desmentido do que tinham prestado à história. As chamadas fake news são notícia, Daniela Carrasco, como tantas outras mulheres desfavorecidas, nem por isso. É mais habitual serem números de estatísticas macabras. Estado da arte de um certo tipo de “fact checking” enquanto indústria ociosa que se pretende desveladora onde pouca investigação faz, que se coloca justiceiramente do lado Batman jornalístico da verdade contra o lado Joker da viralidade enganadora mas a quem, na voracidade das audiências, falta muitas vezes profundidade e capacidade de auto-crítica.

Mas aqui pouco podemos dizer sobre Daniela Carrasco e o seu drama pessoal. Restará o respeito e a exigência do esclarecimento cabal do sucedido, reiterada aliás recentemente pelo Sindicato dos Artistas chilenos, e a certeza que há demasiadas vítimas esquecidas, menos mediatizadas e recordadas ainda que ela.

E aqui pouco queremos dizer sobre o jornalismo e as suas escolhas ou sequer sobre as redes sociais e os seus impulsos. O que se pretendia não era uma análise cinematográfica que procurasse ser perspicaz, não era a crítica mastigada dos enviesamentos do jornalismo dominante, não era a queixa fácil sobre as redes sociais e os boatos, ou sequer a necessária dissecação do que faz a velocidade do fluxo informativo e a sua abundância ao nosso sentido crítico ou a constatação do quão somos desarmados pelo lado emocional.

Tratava-se tão só ir ao encontro desta revolta estranhamente transversal e não coordenada através de duas imagens que improvavelmente se tornaram estranhamente transversais. Ainda que, como no contraste entre a imagem-Mimo e a imagem-Joker, venham de dois regimes de imagens tão diferentes (de um lado a imagem meticulosamente depurada do cinema, do outro a aparente espontaneidade da fotografia de protesto), remetam para universos completamente divergentes e envolvam mensagens tão apartadas. Aliás, se no contexto de uma revolta global contra as elites o sentido da imagem de Joker é difuso e ganha pelo equívoco, o sentido da breve aparição da Mimo foi bem mais translúcido. Sinal de uma revolta feminista contra a violência, do protagonismo das mulheres nas manifestações que acontecem agora, como se pode ainda ver pela influência mundial da performance, também ela chilena, “um violador no teu caminho”.

A revolta global com fome de símbolos

Apesar da distância que definitivamente as separa, pode até ter acontecido que as imagens do Joker e da Mimo se tenham encontrado nas ruas. De qualquer forma, não será aqui que serão juntas numa síntese forçada.

Delas resulta mais a coexistência e o encontro no desencontro. Pinturas de guerra contra injustiças, incorporação de resistências, ambas ficam aquém, não resumem nem potenciam toda a subversão que acompanham, são imagens imperfeitas e fragmentárias. Ícones desgarrados que não chegarão a ser símbolos históricos. Lavadas da cara, não marcarão muito provavelmente os imaginários definitivos deste momento. Efeitos marginais de vontades, poderes e hegemonias, não são sequer reflexos fiáveis onde se escrutine com eficácia o que significam os contra-poderes atuais.

Fazem de menos: indicam o que falta nessa revolta com fome de símbolos, sugerem a identificação dos de baixo sem a concretizar, desenham de qualquer forma uma possibilidade da reivindicação ser mais do que está a ser. Mais do que fecho, abertura, são faces que lembram o desassossego da pergunta: com que outras cores se irá pintar a cara da rebelião?

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