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O FMI contra os maus rapazes da troika?

Alguns pensam que a teleconferência divulgada pela wikileaks, entre responsáveis do FMI, revela brechas cada vez mais profundas nas posições da troika. É uma questão de gradação: o FMI não mudou a essência do seu diagnóstico sobre as causas da crise. Por Alejandro Nadal
Christine Lagarde – International Monetary Fund/flickr

O portal da Wikileaks deu a conhecer a versão estenográfica (oficial) de uma importante teleconferência sobre as negociações entre Atenas e a troika. O tema da conferência relaciona-se com o incumprimento das metas de política fiscal impostas ao governo grego e sobre a possível saída da Grécia da união monetária. Alguns pensam que a conferência revela brechas cada vez mais profundas nas posições da troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e o próprio FMI).

A conferência ocorreu há duas semanas entre altos funcionários do FMI: diretor de assuntos para a Europa do FMI, a chefe da missão da instituição na Grécia e outra funcionária do Fundo em Washington. A discussão foi dominada pela preocupação do FMI em relação ao que considera metas irrealistas em matéria de superavit fiscal que a Comissão Europeia e Berlim fazem questão de impor à Grécia.

Desde há algum tempo o FMI está a tentar enviar uma mensagem clara ao resto da troika. Ao que parece o organismo considera que a situação na Grécia só pode ser resolvida mediante um corte significativo na sua dívida. Ao mesmo tempo, acabou por considerar que é necessário relaxar as metas de superavit fiscal. Mas tanto a Alemanha como a Comissão em Bruxelas têm recusado veementemente cortes adicionais à dívida grega, defendendo que já se fizeram todos os cortes possíveis. E, no que diz respeito às metas de superavit fiscal, a Comissão em Bruxelas insiste que falta muito terreno Atenas percorrer, em especial no espinhoso tema do regime de pensões de reforma. Além disso, Bruxelas e Berlim consideram que há várias reformas estruturais que o governo de Tsipras ainda não fez. Muitas dessas reformas traduzir-se-ão em maiores cortes na prestação de serviços básicos para a população, além de aumentos em vários impostos.

As negociações para resolver de maneira duradoura o problema da crise na Grécia continuam bloqueadas. É evidente que os altos funcionários do FMI perceberam que o impacto dos cortes fiscais (a austeridade) tem sido maior do que alguém nesse venerável organismo esperava há apenas um par de anos. Os efeitos da austeridade sobre o crescimento fazem com que a relação dívida/PIB aumente de maneira explosiva e por isso o FMI reclama uma atuação simultânea sobre o castigo fiscal e sobre o montante da dívida. É uma questão de gradação: o FMI não mudou a essência do seu diagnóstico sobre as causas da crise e o remédio amargo que o povo grego deve tomar para a superar. Só está a tentar cuidar que aos médicos que administram a receita não vão longe de mais.

O ministro das finanças alemão, o senhor Schäuble, fez saber em repetidas ocasiões que a melhor solução passa pela saída da Grécia da união monetária (chegou mesmo a insinuar que estaria preparado para pedir o apoio do Bundestag para subsidiar essa eventualidade). Certamente que seria preciso um plano bem desenhado para a transição ordenada para uma nova moeda grega. Está por ver se as instituições europeias (incluindo o Banco Central Europeu) estão dispostas a tentar um projeto deste tipo.

Se a divulgação deste documento procurava acalmar os ânimos em Atenas, levando os negociadores gregos a pensar que o FMI poderia ajudar a mitigar o fanatismo do resto da troika, o objetivo não foi alcançado. Ontem mesmo o governo grego pediu explicações ao Fundo perguntando se a posição oficial do organismo consistia em criar as condições de uma bancarrota nacional ainda antes do referendo em Inglaterra. A senhora Lagarde não tardou a responder que a estratégia do FMI não assenta em ameaças, mas a história das intervenções do organismo na América Latina e várias passagens do documento divulgado indicam o contrário. A tentativa de jogar o “bom membro da troika” contra os maus (Bruxelas e o BCE) fracassou.

Na verdade, o documento divulgado revela que as negociações entre a Grécia e a troika complicar-se-ão por dois fatores adicionais. O primeiro é o referendo sobre a permanência da Inglaterra na União Europeia. Essa votação, prevista para 23 de junho, poderá levar ao que se denominou Brexit. A troika não quererá forçar a mão obrigando Atenas a dobrar-se a novas condições humilhantes por medo de influir no voto na Inglaterra.

As negociações sobre a Grécia também serão afetadas pela grave crise dos refugiados e migrantes na Europa. A possível saída da Grécia da união monetária tornaria muito difícil o cumprimento por Atenas das ideias que alguns políticos têm sobre o controle do fluxo de migrantes. Talvez seja esta a última carta em poder dos gregos nas negociações com a troika.

Sete anos depois de a crise ter rebentado na Grécia, o remédio neoliberal não só não funcionou, como continua a aprofundar a recessão.

Artigo de Alejandre Nadal, publicada em “La Jornada” a 6 de abril de 2016. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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Sobre o/a autor(a)

Economista, professor em El Colegio do México.
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