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O estranho caso da remodelação da “meia vida” dos comboios da Fertagus

O que está a acontecer no “Comboio da Ponte” é o mesmo que aconteceu na Linha de Cascais na década de 70. Com o aproximar do fim da concessão, o concessionário deixa de investir na manutenção corrente do material circulante e depois o Estado retoma tudo altamente degradado e arca com os custos da sua renovação total. Artigo de António Alves, publicado em aventar.eu
Fertagus, Estação de Corroios (origem: Wikipedia)
Fertagus, Estação de Corroios (origem: Wikipedia)

Ontem surgiu a notícia que os comboios da Fertagus iriam ser sujeitos à revisão da “meia vida”. Essa revisão será efectuada pela EMEF e custará 1,2 milhões de euros. Pagará o Estado, já que é este o proprietário do material circulante. A questão deste subsídio encapotado do estado a uma empresa privada já foi por mim abordada em texto anterior. Hoje a questão é outra.

Ora, 1,2 milhões de euros pareceu-me muito pouco dinheiro para fazer a revisão de “meia vida” a 18 comboios. Fiz as contas e deu-me 66 666 euros por comboio. Quem se move nesta indústria sabe que isso não chega nem para pintar um comboio quanto mais para uma revisão de “meia vida”. Procurei mais informação e o máximo de substancial que consegui foi um artigo do Carlos Cipriano para o Público1.

Nesse artigo o jornalista informa-nos que “o contrato, no valor de 1,2 milhões de euros, contempla a revisão de compressores, blocos e distribuidores de freio, bogies (rodados), baterias, num total de 880 componentes, ao longo de dois anos”. Ahhh!… assim já me parece mais compatível com os valores anunciados. Trata-se afinal de uma simples revisão ao sistema de frenagem e pouco mais. Chamar a isto uma “revisão de meia vida” é um exercício de grande imaginação jornalística ou marketing para enganar os papalvos (vulgo contribuintes).

Só para que os meus amigos possam fazer algumas analogias, posso informar-vos que o mesmo tipo de comboios (UQE 3500)2, propriedade da CP – Comboios de Portugal, exatamente iguais e comprados no mesmo lote que os da Fertagus, já passou pela revisão da “meia vida” e esta ficou por – imaginem! – 1 milhão de euros por unidade. Isto é, a renovação de um comboio da CP – repito, exatamente igual ao da Fertagus! – custou praticamente tanto quanto custará a renovação da “meia vida” dos dezoito (18) comboios da Fertagus. A título de curiosidade podem também ficar a saber que a renovação da “meia vida” das UQE 2300/24003 ficou por 750 mil euros por unidade e todos vós com certeza já leram notícias sobre a renovação da frota dos comboios pendulares que custará 18 milhões de euros, i.e., 1,8 milhões por comboio4.

Na verdade não vai acontecer qualquer remodelação de “meia vida” e muito menos vão “rever todos os seus equipamentos e “reconstrui-las” de forma a poderem durar mais 20 anos”. O fim da concessão será em 31 de dezembro de 2019 e, obviamente, na incerteza sobre quem ficará com a concessão no futuro (a Fertagus dá cada vez mais sinais que sem indemnizações compensatórias, e outros truques, não estará interessada), o estado, a quem esta aventura já custou mais de 100 milhões de euros, apenas está interessado em gastar o dinheiro estritamente necessário para que os comboios funcionem com a segurança exigida até essa data. Aliás, alguns destes comboios estão em mau estado de conservação, existindo mesmo unidades com sistemas canibalizados, com cabinas de condução inoperacionais, que só funcionam acopladas a outras obrigando à sua circulação permanente em unidades múltiplas.

O que está a acontecer no “Comboio da Ponte” é o mesmo que aconteceu na Linha de Cascais na década de 70. Com o aproximar do fim da concessão, o concessionário deixa de investir na manutenção corrente do material circulante e depois o Estado retoma tudo altamente degradado e arca com os custos da sua renovação total. Isto é, comerá os ossos depois do privado ter comido a carne.

Artigo de António Alves, publicado em aventar.eu


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