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O crescimento do Sinn Féin deve-se a três grandes razões económicas

A Irlanda costuma ser apresentada como o modelo bem sucedido do liberalismo. Como se explica então a vitória eleitoral da esquerda neste país? Artigo de Aidan Regan.
Manifestação pelo direito à habitação na Irlanda. Agosto de 2018.
Manifestação pelo direito à habitação na Irlanda. Agosto de 2018. Foto de Sinn Féin/Flickr.

O crescimento do Sinn Féin (e do resto da esquerda na política irlandesa) é o resultado de fatores económicos claros e interligados. Estes são: um modelo de crescimento que não beneficiou toda a gente, uma crise de habitação que está a piorar e que criou um conflito inter-geracional e de classe social e uma década de austeridade que levou ao declínio de serviços públicos e de infraestruturas públicas.

Esta é a terceira eleição desde o grande colapso financeiro de 2008. É a primeira vez na história irlandesa que os partidos governantes do centro direita, Fianna Fail e Fine Gael, recebem menos de 50% na primeira escolha dos boletins eleitorais.

Na década antes da crise, a Irlanda foi governada pelo Fianna Fail e experienciou uma bolha especulativa massiva no setor da habitação que rebentou espetaculamente durante a crise financeira. Esta bolha imobiliária foi baseada em empréstimos bancários fáceis e imprudentes e anos de cortes nos impostos do Fianna Fail.

Quando a bolha imobiliária rebentou, os preços das casas desceram significativamente e o Estado irlandês ficou numa recessão de grandes dimensões. Isto significou limpar os balancetes dos bancos, aumentar os impostos sobre o rendimento e cortar os gastos públicos.

Seguiu-se quase uma década de austeridade. A construção civil – particularmente para habitação social – praticamente estagnou.

Em 2011, naquela que foi a primeira eleição depois da crise, o eleitorado puniu massivamente o Fianna Fail. Premiou a oposição, o Fine Gael e o Partido Trabalhista. Entre os dois, Fine Gael e Labour tiveram uma das mais amplas maiorias de governo da história do país. Mas apesar da cor do governo ter mudado, as políticas de austeridade mantiveram-se as mesmas. A partir de 2011, o governo desenvolveu uma série de políticas destinadas a vender imóveis residenciais e terrenos comerciais em dificuldades. Várias políticas fiscais foram concebidas para encorajar investidores internacionais a comprar estes ativos em dificuldades a preços de saldo. Grandes investidores imobiliários inundaram o mercado e compraram estes ativos a seu bel-prazer.

Mas acumularam estes ativos até que os preços começaram a subir outra vez. Os preços das habitações aumentaram rapidamente a partir de 2014, excluindo rapidamente por isso a nova geração do direito à habitação. Aqueles que conseguiam comprar novas casas eram empurrados cada vez para mais longe da cidade, com ligações de transportes públicas pobres, criando a dependência do automóvel e longas filas de trânsito.

Crescimento desigual

Durante o mesmo período, a Irlanda recebeu quantias massivas de investimento das grandes multinacionais tecnológicas. O setor tecnológico começou a florescer. Isto permitiu que o governo Fine Gael/Labour continuasse com medidas de austeridade. As receitas de impostos dos contribuintes com maiores salários aumentaram e o setor empresarial cresceu.

Este crescimento de investimentos estrangeiro e das exportações das multinacionais providenciou as condições de uma recuperação económica, que começou a descolar verdadeiramente a partir de 2014. Mas esta recuperação de cabeçalho era apenas realmente sentida nos setores das multinacionais da alta tecnologia. A maior parte da força de trabalho não a experienciou.

Nas eleições de 2016, o eleitorado puniu massivamente o governo Fine Gael/Labour. Os Trabalhistas passaram de 33 para sete lugares. O Fine Gael de 76 para 50. O Fianna Fail ganhou 44 lugares, enquanto o Sinn Féin ganhou 23. Foi uma eleição que ninguém verdadeiramente venceu. O resultado foi um governo liderado pelo Fine Gael com alguns independentes e um acordo de apoio parlamentar ao governo ao Fianna Fail. Para a maioria do eleitorado, foi percebido como um governo do Fine Gael com uma quase-coligação com o Fianna Fail.

A partir de 2016, sob a administração do governo de centro-direita do Fine Gael dirigido por Leo Varadkar, a economia continuou a crescer. Mas também se estava a tornar óbvio que uma grande parte do crescimento irlandês era resultado de ser um paraíso fiscal. O PIB irlandês é de 324 mil milhões de euros. Mas o rendimento nacional bruto modificado é de 197 mil milhões. Isto representa o tamanho real do rendimento nacional e é 124 mil milhões mais pequeno que o PIB.

Da mesma forma, o stock de investimento estrangeiro direto na Irlanda é à volta de 850 mil milhões mas a investigação do FMI mostra que quase três quartos dele é fantasma. É devido à circulação de ativos de capital das multinacionais entre as suas várias subsidiárias para reduzir as suas obrigações fiscais.

Tudo isto fez com que a economia parecesse melhor do que está na verdade.

Habitação e custo de vida

Houve um significativo crescimento de emprego na Irlanda, pressionando a habitação e os serviços públicos. Os empregos de maiores rendimentos e nas altas tecnologias estão cada vez mais localizados nas cidades de Dublin, Cork, Limerick e Galway. Está estimado que existem à volta de 50 mil empregos associados ao setor das tecnologias, dos quais 75% estão localizados em Dublin.

Este crescimento dos empregos com salários mais elevados num contexto de oferta restringida de habitação levou ao disparar das rendas e a casas inacessíveis. O custo de vida aumentou significativamente, particularmente com a habitação, os cuidados infantis, os seguros, a saúde e a educação, fazendo de Dublin uma das cidades mais caras para viver e criar uma família na Europa. A maioria não consegue suportar estes aumentos crescentes. Cerca de 80% da população irlandes tem rendimentos brutos de menos de 50 mil euros por ano. As rendas altas, junto com a limitada habitação social e pública conduziu a um aumento significativo de pessoas sem abrigo. A habitação e a saúde foram consistentemente citadas pelos eleitores irlandeses como os tema-chave nas eleições de 2020.

Voto para a mudança

A eleição de 2020 foi um voto para a mudança. Foi um voto contra o Fianna Fail/Fine Gael e o consenso político de centro-direita que governo a política irlandesa durante décadas.

Os eleitores com segurança económica preocupados com temas de qualidade de vida viraram-se para os Verdes. Mas o Sinn Féin gerou uma narrativa poderosa de que é o partido que representa os trabalhadores contra os privilegiados. O seu manifesto compromete-se em taxar as grandes empresas de tecnologia, os bancos e os ricos. Promete ainda investir fortemente nos serviços públicos e desenvolver um programa massivo de construção de habitações públicas.

A viabilidade económica destas promessas é importante mas essa não é a questão. Foi a narrativa que ecoou numa camada ampla da população. Dado o legado da austeridade e o efeito de desigualdade criado pelo modelo de crescimento da Irlanda, o crescimento do Sinn Féin pode ser interpretado como o cão que finalmente ladrou.

Aidan Regan é professor de Economia Política no Colégio Universitário de Dublin. Artigo publicado no The Conversation a 12 de fevereiro de 2020.

Tradução de Carlos Carujo.

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