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O Convento de Chelas não tem vocação para arquivo

Andar com quilómetros de documentação às costas não é tarefa fácil. A documentação não gosta, os papéis fragilizados ressentem-se, o pessoal desanima. Porquê, então, insistir, ademais numa solução desadequada? Por Maria Luísa Cabral
“Ao Convento de Chelas sobra em charme o que lhe falta em adequação” – Foto de patrimoniocultural.gov.pt
“Ao Convento de Chelas sobra em charme o que lhe falta em adequação” – Foto de patrimoniocultural.gov.pt

Uma das tarefas mais assustadoras para quem trabalha em arquivos e bibliotecas é a da transferência de documentação, seja dentro da mesma instituição seja de um edifício para outro. Os trabalhadores fogem desta tarefa, procuram adiá-la sempre na esperança que a coisa não se concretize. Porquê? Porque é pesado, ora essa. Como profissional, nunca enfrentei grandes mudanças mas as poucas e pequenas que tive de fazer constituíram um bom aviso. Quando os acervos são muito vastos e ricos e se vai de um edifício para outro, mobilizam-se até as forças de segurança. O material é transportado por empresas da especialidade, devidamente enquadrados e dirigidos pelos técnicos da instituição mas estes nunca se livram da responsabilidade e da respectiva organização. Os livros e documentos estão arrumados por uma determinada ordem e essa ordem tem de ser mantida a todo o custo quando tudo é metido em caixotes. Se a ordem é boa ou má, não interessa nesse momento. Qualquer que seja a ordem, ela transparece na cota, isto é, no código que referencia a obra e que lhe dá acesso. Imagine-se alterar essa ordem! Pode significar perder a obra por um período de tempo muito alargado, quiçá, perdê-la para sempre. Por isso, mudanças provisórias tornam-se definitivas, é melhor antes de emalar a trouxa ponderar muito bem se a mudança que não satisfaz inteiramente documentação, leitores e funcionários deve acontecer.

A documentação em causa merece, a cidade merece, os investigadores também. Avançar para um edifício de raiz, com depósitos modernos, espaços suficientes e amplos para instalar o pessoal e também os laboratórios de conservação e restauro e de digitalização, as salas de leitura

Apesar dos custos de uma mudança, não é por esse motivo que o Arquivo Municipal de Lisboa (Bairro da Liberdade) não deve ir para Chelas. O Convento de Chelas agora referido como possível próxima futura morada do Arquivo não é um edifício feito de raiz para acomodar um arquivo, não pode dispor das condições essenciais para esse fim. É neste desencontro de objectivos que reside a razão pela qual a mudança do AML para Chelas deve ser discutida. Que condições são essas? Começo pela documentação que é a vertente mais importante. O Convento espraia-se por uma superfície considerável, “Planta irregular, de forma aproximada a um T, composta por vários corpos adossados e justapostos” conforme descrito no site oficial, um espaço entrecortado por paredes sucessivas impedindo uma arrumação sequencial tanto quanto possível lógica no respeito pelos núcleos mais antigos e cronológicos no tocante aos núcleos mais modernos e contemporâneos. A superfície redunda num puzzle. Um labirinto completamente contrário ao espírito rectilíneo e coerente que deveria orientar a armazenagem. Começa-se a arrumar numa ponta e, a determinado momento, para-se, uma parede, uma inflexão, uma escada que se sobe, um esconço que é preciso ultrapassar. Não se trata de uma arrumação mas sim do seu contrário. Depois, muito dificilmente se acreditará que as condições ambiente possam ser as melhores. Sobretudo a humidade deve habitar cada parede, cada esquina. Mas não há soluções tecnológicas? Ah, claro que sim à custa de orçamentos elevadíssimos, ano após ano, sem falhas, para sempre. Uma alternativa que hoje se recusa exactamente por não ser sustentável do ponto de vista ambiental e financeiro. Escolher um edifício a precisar de cuidados constantes para salvaguardar a documentação equivale a meter-se na boca do lobo. O papel não gosta de humidade, a larga oferta desta é a maneira mais rápida e eficaz de destruir o património que, no caso presente, não é só municipal. Mas o património desaparece, assim, a olho nu? Não, não desaparecerá mas ao fim de meia dúzia de anos é garantido que se identificarão as mazelas cujo restauro constante não é a solução. Há limites físicos para as intervenções de restauro para não mencionar os custos. Mas os profissionais e os utentes também devem pesar nesta balança. Aos técnicos exige-se uma ginástica constante na arrumação, na conservação, na busca. A determinada altura, o cansaço vence, o desinteresse instala-se e reverter a situação pode ser quase impossível. Pedir constantemente aos técnicos que aguentem, nem os responsáveis acreditam já nisso. E os leitores sofrem com este estado de coisas: não têm o que pretendem com a rapidez indispensável, podem começar a ter dificuldade em aceder a certos documentos que por se apresentarem fragilizados não vêm à consulta, não beneficiam de serviços de investigação porque os técnicos andam ocupados em manter alguma coerência nos depósitos e não têm tempo, nem ânimo, para outras tarefas de exploração documental e histórica.

A Câmara de Lisboa, definitivamente, tem de abrir os cordões à bolsa. A documentação em causa merece, a cidade merece, os investigadores também. Avançar para um edifício de raiz, com depósitos modernos, espaços suficientes e amplos para instalar o pessoal e também os laboratórios de conservação e restauro e de digitalização, as salas de leitura. Ao Convento de Chelas sobra em charme o que lhe falta em adequação.

Artigo de Maria Luísa Cabral

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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