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“O 25 de Abril também se fez para que os portugueses não tivessem que se exilar”

Num tempo marcado por uma avalanche de refugiados que procuram abrigo não só da guerra como da pobreza ou da intolerância, foi recentemente editado o livro “Uma Terra Prometida” que interpela a nossa consciência coletiva arrancando-nos do torpor que é fruto da banalização da indiferença e dos discursos onde impera a diabolização daqueles que um dia se viram obrigados a sair da terra onde nasceram. Por Pedro Ferreira.
"Todos os refugiados fogem da morte mesmo que alguns não a consigam fintar nessas longas e tortuosas viagens", disse Filomena Marona Beja

São nove contos, nove histórias que retratam situações de vária natureza mas cujo fio condutor tem sempre alguém que por várias razões precisa da solidariedade dos outros que, no entanto, lhes é negada seja por preconceito, medo ou hipocrisia. Um sinal dos tempos.

A geografia onde se desenrolam as histórias não se confina a uma região porque há refugiados em todos os continentes e não apenas nos lugares onde muitos nos dizem que a violência e a miséria são uma fatalidade e é também por isso, para evitar o contágio, que vão crescendo os muros, os rolos de arame farpado, os perímetros de segurança.

Imaginemos então um piquenique num dia de Verão tal como o fez Afonso Cruz no seu conto a que deu o nome Déjeneur Sur L'Herbe com Alguém a Afogar-se. Este dia que vai ser passado em família  tem tudo para se tornar num momento inesquecível: bom tempo, um rio de águas mansas e refrescantes, duas crianças irrequietas e uma ementa variada e apetitosa servida numa toalha de quadrados cuidadosamente estendida no chão.

Este quadro tem no entanto um intruso ou intrusos e esta dúvida nunca é desfeita devido ao encadeamento provocado pelo brilho do sol.

De repente começa a  ouvir-se um barulho incomodativo que nada tem a ver com os sons tradicionais de uma floresta algo que também é importante para quem se dispõe a passar um dia no campo. Alguém no meio do rio começa a esbracejar e a pedir ajuda. No início reina a confusão entre a família. Será alguém a afogar-se? Ou serão dois? Em determinado momento admite-se a possibilidade de ser um adulto com uma criança.

Afinal de contas, o que é que se passa?, interroga-se aquela família.

Quase de imediato, conjeturam sobre as reais intenções de quem está na água. Uns brincalhões, dizem uns, enquanto outros especulam que podem ser pessoas mal intencionadas que querem pedir ajuda para depois roubarem ou fazer outra coisa pior. Neste ciclo de dúvidas instala-se a hesitação e como o seguro morreu de velho, decidem arrumar tudo e dar por terminado o piquenique. Viraram assim as costas ao perigo. Ou terá sido a um gesto capaz de salvar alguém em estado de aflição?

Os anos sessenta ficaram marcados por uma fuga massiva à miséria imposta pela ditadura

Noutro conto, com o intrigante nome de Melhor a Ementa do que o Cianeto, Ana Margarida de Carvalho dá um salto no tempo e situa-nos numa espécie de lar gerido pelo Comité de Remissão Social de Culpas Europeias no Caso dos Refugiados da Síria (CRSCECRS).

Estamos num lugar onde 50 anos depois da fuga em massa de pessoas de um país devastado pela guerra alguns alcançaram outro lugar mas não recuperam a vida que ficou presa algures entre os escombros de uma embarcação destruída pela força do mar ou pelo peso de quem nela vinha. Libertaram-nos do fundo dos oceanos mas mantiveram-nos presos aos coletes salva-vidas cuja cor de um amarelo berrante se entranhou na vida de todos eles. Aqui nada lhe falta porque a nada chegaram. Sobrou sempre uma interminável burocracia que adensou o pesadelo de quem morreu mesmo tendo sido salvo. Naquele lugar, naquelas vidas “impoéticas” que lhes ofereceram fica apenas a certeza de que do "Inferno nunca se regressa". O presente faz apenas ponte com o passado. Nomes trocados, alguns pertences que se salvaram num tempo em que se pensou que a vida podia ser feliz. Mas quem não quis abrir essa porta acabou por provocar uma ferida. Que nunca mais sarou e assim perpetuou a hipocrisia de quem nada fez. Saadi, a personagem principal deste conto não se chama Saadi. Essa era o nome do irmão que vinha também no barco mas morreu afogado. Para a burocracia a identidade conta muito pouco. Ou mesmo nada.

Os refugiados e o futuro da Europa

E podíamos continuar a resumir histórias de quem partiu ou chegou porque como lembra este livro "um refúgio é um espaço físico que oferece segurança ou estabilidade".

A guerra colonial foi responsável pelo exílio de muitos jovens

Na apresentação do livro, José Fanha, que organizou esta coletânea, confessou que escrever sobre refugiados foi um desafio porque a História sempre os teve como personagens e amanhã poderá ser esse o papel que nos está reservado.

Rejeitando a divisão entre refugiados de guerra e migrantes económicos, Filomena Marona Beja disse, por seu turno, que todos os refugiados fogem da morte mesmo que alguns não a consigam fintar nessas longas e tortuosas viagens.

“Sempre se fugiu”, afirmou, tendo lembrado que "até os animais fogem das porcarias que os homens fazem degradando por vezes até ao limite do suportável o ambiente".

Carlos Vale Ferraz fez questão de dizer que Portugal também foi um país de refugiados. E recordou aqueles que na década de sessenta fugiram da miséria e da opressão impostas pelo salazarismo e também dos jovens que deixaram clandestinamente o país porque recusaram fazer a guerra colonial.

Ser refugiado é sempre um drama porque por uma razão ou outra falamos de pessoas que foram escorraçadas da sua terra

“Ser refugiado é sempre um drama porque por uma razão ou outra falamos de pessoas que foram escorraçadas da sua terra”, disse o escritor sublinhando que “o 25 de Abril também se fez para que os portugueses não tivessem que se exilar”.

A intervenção de Miguel Real centrou-se essencialmente no futuro depois de ter dito que os primeiro relatos sobre refugiados estão inscritos na Bíblia.

“Não encaro a crise de refugiados como o fim da História mas antes como um bem porque estes carregam consigo a esperança de uma Europa diferente, rejuvenescida em todos os sentidos”.

“É neles que está também o futuro do continente e quem ainda dúvida é melhor que se vá habitando a uma nova realidade”, afirmou.

Uma palavra final de apreço para o responsável editora IN Edições Pedro Reisinho que apostou na edição de um livro cujo tema tem provocado muitas fraturas entre os povos da Europa e ameaça seriamente alguns pilares essenciais da democracia.

A problemática dos refugiados tem de ser encarada com ética e humanismo dispensando os falsos moralismos que preenchem alguns discursos vindos sobretudo de decisores políticos que persistindo em não encarar de frente a situação acabaram por abrir o caminho onde se instalou o fanatismo.

Por estas razões e também pela irrepreensível qualidade dos textos não é arriscado dizer que estamos perante um dos livros mais importantes editados em Portugal durante este ano e que tem ainda a virtude de recuperar a tradição do conto temático que, ao contrário do que muitos pensam ou dizem, está longe de ser um género literário menor.

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Uma Terra Prometida, In Edições, junho de 2016

Autores: Afonso Cruz, Ana Margarida Carvalho, Carlos Vale Ferraz, Cristina Carvalho, Filomena Marona Beja, José Fanha, Miguel Real, Nuno Camarneiro, Sérgio Luís de Carvalho.

Termos relacionados Crise dos refugiados, Cultura
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