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Nuit debout: como tudo começou

"Nuit debout" é uma história de encontros. Quase fortuitos, entre um filme e um projeto de lei. Entre as lutas que coexistiam sem se unir. Foi o que aconteceu há meses e que levou ao inimaginável. Por Marie Astier e Barnabé Binctin.
Assembleia da Praça de República, em Paris.

Muito antes da Nuit Debout, ela estava no ar, este desejo de se encontrar, para reconciliar os "vermelhos" e os "verdes". "Entre os militantes, estávamos cada um no nosso canto, um pouco triste, e precisávamos para se unir para encontrar redescobrir a pólvora", disse Fahima Laidoudi, militante do coletivo Redes Intervenção Reflexão Bairros Populares. De seu lado, Fred lembra-se de ter assistido a um longo debate depois de um filme, sobre a convergência das lutas, no Festival La Belle Rouge, organizado todos os verões no final de julho, pela companhia de teatro Jolie Môme [em português, Lindo Mimo, de mímica] "o mesmo desejo voltava insistentemente à sala: imaginar um movimento social capaz de unir amplamente". O filme? “Merci Patron!" [“Obrigado Patrão!”], exibido em estreia. Ele servirá de centelha nas projeções que se multiplicam a partir de novembro de 2015.

"Eu queria fazer um filme com emoção, diz o realizador, François Ruffin, que também dirige o jornal Fakir. Porque isso é o que move as pessoas. Há um tal grau de resignação no país que já não é a denúncia que mobiliza. Se os filmes “Merci Patron!” e “Demain” [Amanhã] funcionam, é porque dizem às pessoas que podem mudar as coisas", explica.

E ele funciona. Muito rapidamente, o pessoal do jornal Fakir foi surpreendido com as estreias de sucesso. "No final das projeções, todos nos perguntavam 'o que podemos fazer?" Havia uma energia que era preciso canalizar. Entre o público e os amigos que nos encorajaram, dissemos que não podíamos nada fazer", diz Johanna, trabalhadora na Fakir. Por "amigos", referimos-nos, por exemplo, ao economista Frédéric Lordon, convencido de que este filme é apenas o começo.

François Ruffin começa a mobilizar as redes militantes. "Ele chamou-me para participar da projeção em Paris, diz Leila Chaibi, que fez parte dos grupos Jeudi Noir [Quinta Feira Negra] e de Génération Précaire [Geração Precária]. Ele disse: ‘Arranjamos um pequeno grupo para tentar mobilizar à volta do filme, gostarias de participar, não sabemos realmente o que irá acontecer... "

Encontro a 8 de fevereiro na sala Olympe de Gouges em Paris, no bairro XII. A organização do evento é difícil, e surpresa: a sala está lotada, os amigos da Fakir - vestindo a camisa "Eu amo Bernard" (Bernard Arnault, o multi milionário proprietário da LVMH, alvejado no filme) - são obrigados a impedir quem chegou atrasado de entrar - o máximo de segurança é atingido. No final do filme, longo aplauso e entusiasmo. Alguns oradores sucedem-se em palco como Mickael, dos "Goodyear" (sindicalistas condenados por terem detido o seu chefe por algumas horas). François Ruffin fala, para dizer que é preciso ir mais longe, que quer que o seu filme sirva a mobilização geral.

Projeção em Paris, a 8 de fevereiro. À esquerda, Mickael, dos "Goodyear", à direita, François Ruffin.

No processo, o jornal convida, a 23 de fevereiro de 2016, a uma reunião na Bourse du Travail [Bolsa do Trabalho], em Paris, a poucos passos da Praça da República. Tema: "Fazer-lhe medo." Alvo: a oligarquia. Objetivo: a convergência das lutas. “Quase na mesma semana, tivemos uma manifestação contra Notre-Dame-des-Landes, uma segunda contra o estado de emergência, uma terceira contra a condenação dos “Goodyear”, uma quarta contra a reforma nas escolas, pode ler-se no texto de convite. (…). Enquanto o fizermos separadamente, vamos perder”.

A sala Ambroise Croizat está cheia, centenas de pessoas estão presentes, a energia e a expectativa são palpáveis. A Fanfarra invisível toca alegremente, Ruffin é o mestre de cerimónias e depois falarão os trabalhadores da Air France, da Sephora, da Goodyear, um agricultor da Confédération Paysanne, intermitentes, intelectuais, como Hervé Kempf, editor de Reporterre, que fala da convergência de ecologia e crise social, ou Gérard Mordillat, que diz que "não há tempo para ser comedido. Estamos em guerra, e é uma guerra travada contra os trabalhadores pelo atual governo”.

Na "Bourse du Travail", a 23 de fevereiro de 2016.

O que fazer para ir mais longe? Combinamos encontro, sem grande detalhe, a 31 de março, para a grande manifestação contra a reforma da lei laboral. A Fanfarra invisível volta a tocar, a audiência dispersa, pequenos grupos discutem aqui e ali.

Alguns voltam a encontrar-se para discutir no café ao lado. Entre as quinze pessoas presentes, Johanna e Leila estão lá, mas também Loïc, ator da Companhia Jolie Môme, ou Michel, reformado e ativista de longa data, e também Arthur, estudante de sociologia na Science-Po Paris. O coletivo Convergence des luttes [Convergência das lutas] é criado.

Enquanto isso, a mobilização contra a reforma da lei laboral cresce. A petição "Lei de Trabalho, não, obrigado" ultrapassou o milhão de assinaturas na internet em tempo recorde e os apelos à manifestação a 9 de março espalham-se nas redes sociais com o slogan “#OnVautMieuxQueÇa" [#ValemosTãoMaisQueIsso].

Em paralelo, o grupo reúne-se intensamente para preparar o dia 31 de março. "Alguns disseram que tínhamos de fazer uma plataforma de reivindicações comuns. Mas dissemos que não. Caso contrário, vamos cair de novo nas guerras das capelinhas habituais", lembra Leila. O grupo hesita e decide fazer uma ocupação e fala com a associação Droit au Logement [Direito à Habitação] (DAL).

"Decidimos instalar-nos na República para o final da pausa de Inverno [das escolas], de 31 de março a 2 de abril, explica Jean-Baptiste Eyraud, porta-voz da associação. Loïc, da Jolie Môme, contactou-me para me pedir conselhos sobre a ocupação de uma praça. Eu disse-lhe que a melhor de Paris é a Praça da República".

No centro da Praça da República.

Baseando-se na experiência jurídica da associação, o grupo entrega na Câmara Municipal uma aviso de manifestaçãos de três dias a partir de 31 de março "mas foi apenas uma prevenção!” Dizem. O nome originalmente proposto é "Nuit Rouge” [Noite Vermelha]. "Mas Lordon sugeriu-nos que tinha muitas conotações”, diz Johanna. “Finalmente, a comissão de comunicação optou por Nuit Debout".

Falta precisar a forma desse encontro: “Dissémo-nos que precisavamos apenas de organizar uma noite com comida, concertos para atrair o máximo de pessoas, e especialmente debates", explica Arthur. "Uma coisa eficaz", comenta Johanna. Um evento facebook é criado, no qual se inscrevem milhares de participantes.

Mas no dia D, chove. “De manhã, acordei, eu vi o mau tempo, pensei que já não ia acontecer nada", conta Leila. No entanto, surpreendentemente, após a manifestação, 4.000 pessoas investem na República. "Alucinámos" "Pegámos num megafone e começámos os discursos, as pessoas inscreveram-se em comissões, propuseram ações, aconteceu", continua Arthur.

O camião-palco de “Sortir du silence” [Sair do silência] oferece um palco, Lordon faz um discurso, o DAL monta um acampamento, as trocas de ideias continuam até tarde na noite, apesar da chuva. "No Go Sport, disseram-me que bateram um recorde nas vendas de meias", brinca Leila. "Ficámos menos de duzentos a dormir na praça", lembra Fahima. No entanto, no dia seguinte o milagre acontece novamente: as pessoas voltam, as tendas são novamente montadas, as comissões reúnem-se, a Assembleia Geral (AG) acontece. "Não tínhamos pensado sobre o que aconteceria depois de dia 31”, garante Arthur. “Dissemos apenas que, se o nosso projeto era pertinente, iria ser retomada. E funcionou. Todos os dias, ficava maravilhado ao ver que as pessoas voltavam!”

Praça da República, a 5 de abril.

O que não tinham antecipado, são as novas tecnologias que parecem ter um papel decisivo no crescimento do movimento. Na manhã de 31 de março a conta no twitter @nuitdebout tem 400 seguidores. 24 horas mais tarde, excede os 6000.

"Quisemos contar a nossa própria história, para mostrar o que realmente está a acontecer, a dimensão alegre”, diz Joseph Boussion, da comissão de comunicação e participante de “La vague citoyenne” [A onda cidadã]. Sabíamos que os média mainstream não iriam contar a realidade do que aqui acontece”. O movimento cria o seu próprio média: fotógrafos alimentam um stock de imagens, os livestream são organizados, o vídeo, usando a aplicação Periscope é um sucesso, uma rádio, Radio Debout, é criada e transmite ao vivo da Praça.

Hoje, o evento tem fugiu das mãos dos seus criadores. "Em toda a minha vida de ativista não vi nada semelhante”, disse Michel. “Este é um movimento sem líderes, sem decisões centralizadas. Basta que alguém proponha alguma coisa, e aqueles que querem fazê-lo, vão. Não se espera que todos concordem”.

Praça da República.

Claro, ainda lá estão os fundadores do coletivo “Convergence des luttes place de la République” [Convergência das lutas Praça da República]. "Mas o nosso papel consiste principalmente em obter declarações na Câmara Municipal", diz Johanna. No último domingo, houve uma "reunião de passagem”: cada comissão tem novos responsáveis, que mudam regularmente.

E agora? Nenhum de seus iniciadores ousa fazer previsões. Arthur espera uma greve geral, Leila não quer que percamos de vista da lei El Khomri [que quer fazer uma alteração ao Código do Trabalho]. E depois, “é preciso não deixar que fique uma coisa só de Paris", avisa. Da mesma forma, François Rufin acredita que “é preciso que a Praça da República não se tome pelo umbigo de França, deve transbordar e mobilizar outros movimentos sociais."

Toulouse, Lyon, Montpellier, Rennes, Nantes, Nice, Estrasburgo, etc, a Nuit Debout multiplica-se. "É uma agregação de várias iniciativas que foram todas ultrapassaram por elas próprias, uma após a outra”, afirma Joseph Boussion. “Estamos a cavar uma vala profunda em relação ao velho mundo". Para ir onde? "Sabemos que o ponto de partida, não o de chegada.”

Plaça da República, a 5 de abril.

Publicado originalmente em Reporterre, a 8 de abril de 2016. Tradução de Joana Louçã para o esquerda.net.

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