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Novas marchas LGBTI+: "Para o ano cá estaremos!"

Este ano, as marchas LGBTI+ estenderam-se a mais cidades portuguesas. O Esquerda.net foi ouvir ativistas da Covilhã e Caldas da Rainha sobre a primeira edição. E também de Bragança, onde a marcha regressou após um interregno causado pela pandemia.
Marcha nas Caldas da Rainha. Foto Oliver Andrade.

Após dois anos marcados pelas restições da pandemia, as marchas LGBTI+ regressaram em força em 2022, com recordes de participação e algumas estreias, sobretudo em concelhos com fortes comunidades estudantis.

É o caso da Covilhã, onde a 4 de junho centenas de pessoas fizeram a festa nas ruas da cidade. Para muitas delas, foi a primeira manifestação em que participaram por esta causa. No caso de Mariana Reis, estudante de Medicina na Universidade da Beira Interior que participou na organização, "esta Marcha foi a primeira experiência que tive no mundo do ativismo".

 Mariana Reis na Marcha na Covilhã

Mariana integra o grupo Metamorfose, criado por iniciativa dos jovens do Bloco e que já "organizou algumas atividades na Covilhã com o intuito de mudar mentalidades". No caso desta primeira marcha na Covilhã, "a ideia começou junto da comunidade estudantil da Covilhã, onde vários estudantes de várias zonas do país acharam que estava na hora de sairmos à rua e lutarmos pelos nossos direitos", conta a ativista ao Esquerda.net. O grupo Metamorfose tomou a iniciativa de convocar reuniões abertas com o objetivo de formar uma comissão organizadora da Marcha e dessas reuniões nasceu o coletivo "Covilhã a Marchar".

 O arco-íris marchou a 4 de junho nas ruas da Covilhã

Gil Ubaldo estuda Filosofia Política em Lisboa e já tem alguns anos de ativismo na luta trans ou pela justiça climática. Participou na organização da primeira Marcha nas Caldas da Rainha e lembrou ao Esquerda.net a forma "muito espontãnea" como a ideia nasceu. "Em maio, no final da pintura de um mural por direitos trans nas Caldas da Rainha, as pessoas que estavam para pintar este mural expressaram a vontade de realizar mais ações na localidade. Nesse momento pensámos: há que organizar a 1ª Marcha do Orgulho das Caldas da Rainha. Ficámos com os contactos uns dos outros e organizámo-nos através de um grupo". Seguiram-se algumas discussões iniciais, "sobretudo acerca da nossa visão política para esta marcha e através delas chegámos a uma visão consensual que guiou o nosso trabalho". A 26 de junho, centenas de pessoas manifestaram-se pela primeira vez nesta cidade.

 Gil Ubaldo na Marcha das Caldas da Rainha

O trabalho de preparação destas duas marchas passou inevitavelmente pela divulgação nas redes sociais, mas apostou também em juntar pessoas fisicamente "através de atividades que permitissem toda a gente envolver-se no processo preparativo para a marcha", sublinha Gil. Por exemplo, lançaram o desafio para que as pessoas fizessem "a sua versão personalizada do cartaz para a marcha e tendo recebido estas obras de arte, acabámos por colá-las pela cidade". Além disso, houve três reuniões abertas, "espaços onde podíamos apresentar o projeto, e convidar toda a gente a apresentar críticas, propostas, e a participar na organização da Marcha nas Caldas", e ainda uma oficina de cartazes e faixas e um lanche na Mata das Caldas. "Todas estas ações contribuíram para envolver as pessoas no processo da marcha, e fizeram crescer a sua antecipação", conclui.


Marcha a 26 de junho nas Caldas da Rainha. Foto Oliver Andrade.

Também na Covilhã houve atividades presenciais para ajudar à divulgação da estreia da Marcha na cidade. Além das reuniões abertas, Mariana Reis lembra que houve duas palestras sobre educação sexual numa escola secundária da Covilhã, em parceria com a Associação Humanitária Beira Aproxima e "um piquenique no Jardim Público com ativista Fabíola Cardoso, com intuito de falar sobre a história" do movimento e da Marcha em Portugal.

O balanço só podia ser muito positivo nestas duas edições inaugurais da Marcha nas Caldas da Rainha e na Covilhã. "Foi um sucesso. Com mais de 300 participantes, a Marcha foi viva e alegre, a concentração final teve momentos de partilha muito importantes e que demonstram a vontade das pessoas nas Caldas em organizar mais", sublinha Gil Ubaldo. Para Mariana Reis, "foi uma grande e agradável surpresa" com a adesão de mais de 300 pessoas. "A marcha marcou um início muito importante na Covilhã. Mostrámos à sociedade que a comunidade existe e exigimos respeito e aceitação. Um primeiro passo daquilo que espero ser um início de uma mudança", afirma a ativista.

E quanto os próximos passos? "Com certeza lá estaremos para o ano", aposta Gil Ubaldo, mas antes de tudo é preciso "fazer uma reunião aberta exatamente para decidir esses próximos passos, de acordo com a vontade de toda a gente". Na Covilhã, o novo coletivo que fez nascer a Marcha quer "organizar as diversas marchas pelos diretos humanos" na cidade, a começar pela Marcha no dia 8 de março, pelos diretos das mulheres. "Iremos trabalhar nesse sentido, para que as lutas importantes possam ser na rua, um lugar de todos nós", conclui Mariana Reis.

A Marcha regressou a Bragança porque "o que importa é continuar a mostrar força, união e solidariedade"

Além destas duas cidades que se estrearam este ano nas marchas LGBTI+, há outras que começavam a ganhar dinâmica antes da pandemia e viram a sua realização interrompida nos últimos anos. Na capital de distrito mais afastada da capital, ainda se recorda a grande mobilização na estreia da Marcha em 2018, que juntou quase mil pessoas e terminou com um concerto dos Fado Bicha. Este ano, a preparação do regresso da marcha a Bragança começou com pouco mais de um mês de antecedência. Rodrigo Silva, operador de call center e ativista antifascista, contou ao Esquerda.net que a ausência de iniciativas participadas em datas importantes, mesmo no caso do 25 de Abril ou o 1º de Maio, fê-lo procurar por mais gente com vontade de trazer de volta a Marcha. A divulgação fez-se sobretudo nas redes sociais e com distribuição de folhetos e colagem de cartazes nos pontos de maior visibilidade da cidade. "Estávamos um pouco apreensivos com o que seria a marcha no próprio dia porque por um lado estávamos a receber agradecimentos vindos de membros da comunidade por estarmos a levar esta iniciativa para frente, por outro estávamos a receber a informação de que muitos coletivos não conseguiriam fazer a deslocação até à nossa cidade pela falta de transportes públicos e pelos custos dos mesmos".

 Foto de Tatiana Pinto / Interior do Avesso

A 19 de junho, cerca de centena e meia de pessoas acabaram por comparecer à chamada e colorir com o arco-íris o centro de Bragança. Por isso, "a avaliação só pode ser positiva", destaca Rodrigo, "porque o que importa é continuar a mostrar força, união e solidariedade para com todas as vítimas de discriminação".

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