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No cinema, o sonho de uma Palestina livre é possível

Durante a quarentena, várias plataformas virtuais estão a disponibilizar filmes e documentários palestinianos, na sua maioria gratuitos. Estes filmes mostram que a resiliência do povo palestiniano acontece igualmente no ver e fazer cinema. Por Shahd Wadi.
Documentário Epicly Palestine'd (2015), realizado por Phil & Theo.

A ocupação da Palestina, o exílio forçado da sua população e a política colonial de Israel faz com que o seu povo esteja fragmentado e disperso sem nenhum cantinho de terra que possa chamar seu. Apesar desta fragmentação, a nação palestiniana consegue existir como tal, precisamente por causa da constante ânsia do lugar e das tentativas de manter a existência do território palestiniano, pelo menos através da imaginação. As artes palestinianas salvaram a extinção da identidade palestiniana, entre elas o cinema, que teceu e continua a tecer esta existência palestiniana. O cinema palestiniano conseguiu ultrapassar os checkpoints, o muro da separação, o bloqueio e as fronteiras e chegar a um lugar onde tudo pode acontecer, onde uma Palestina possa ser.

Durante a quarentena, várias plataformas virtuais estão a disponibilizar filmes e documentários palestinianos, na sua maioria gratuitos. É uma oportunidade para conhecer este cinema de resistência a partir de casa. A maior parte dos filmes têm legendas em inglês ou francês, poucos têm também em italiano, castelhano ou catalão.

É o caso do documentário de Raed Andoni, Ghost Hunting, que já foi exibido no IndieLisboa 2017. Nesta mistura entre documentário e ficção, o realizador, que foi preso pela ocupação israelita, tenta reconstruir com outros ex-prisioneiros réplicas de celas, encenando a humilhação durante os interrogatórios.  O filme está disponível na página de Palestine Film Institute que exibe um filme por semana. Os filmes continuam disponíveis na página do Facebook da Palestinian Films Platform, onde de momento se encontram dois filmes interessantes de uma perspetiva feminista. O Amreeka (2009) da realizadora Cherien Dabis, revela detalhes diários simples mas profundos de uma mãe solteira que imigra para aquilo que imagina ser o sonho americano, arrastando o seu corpo gordo, que parece sempre fora do lugar, indesejado pela ocupação e pelas diferentes sociedades que recusam acolhê-lo. O outro filme é Degradé (2015), metáfora cinematográfica muito interessante, realizado por Arab & Tarazan Nasser, que contam a história de 13 mulheres que ficam retidas num salão de beleza em Gaza. Estes dois últimos filmes estão também disponíveis no site de Reel Palestine Film Festival, um festival de cinema nos EAU.

Para além destes, o  Reel Palestine Film Festival  propõe ainda Trip Along Exodus (2015), da realizadora Hind Shofani, exibido recentemente no Festival Enara, em Portugal. Existem também várias curtas-metragens, como por exemplo A Few Crumbs for the Birds (2005), um documentário com imagens bonitas de Nassim Amaouche e de uma das realizadoras palestinianas mais talentosas, Annemarie Jacir. Outras curtas mostram como a luta palestiniana contra ocupação não visa apenas o bloqueio, os colonatos, os checkpoints, as prisões e o muro, mas também reclama o direito a saborear os pequenos prazeres de vida: o direito à música, ao desporto e à vida noturna. É disto que falam, por exemplo, os documentários Epicly Palestine'd (2015), realizado por Phil & Theo, e Palestine Underground (2018), de Boiler Room Ramallah. Este último também disponível com legendas em italiano no site do festival dos documentários da Associação de Amizade Sardenha-Palestina Al Ard, que também coloca filmes semanalmente.

Aflamuna é outra iniciativa, de um grupo de cineastas e associações cinematográficas árabes, que apresenta um conjunto de exemplares do cinema árabe contemporâneo em cada 15 dias, entre os quais alguns filmes da Palestina ou sobre os campos de refugiados palestinianos no Líbano. Existe também neste site uma lista de outras iniciativas semelhantes.

Num artigo do site de notícias MONDOWEISS encontra-se também informação sobre sites de streaming de filmes palestinianos, onde incluem o imprescindível documentário 5 Broken Cameras (2012), de Emad Burnat and Guy Davidi, e o filme The Time That Remains (2009), de um dos realizadores palestinianos de maior relevo, Elia Suleiman. Também o The Arab British Centre tem sugestões de vários filmes árabes.

Estas iniciativas não só revelam que existe um cinema palestiniano sólido e conceituado com notável equilíbrio entre realizadores e realizadoras, mas também que estes filmes mostram que a resiliência do povo palestiniano acontece igualmente no ver e fazer cinema. A ocupação israelita enfrenta uma nação que ama a vida e o cinema quando pode. Como muita elegância, este povo aponta a câmara à cara do ocupante, resistindo com esta arma mágica e dizendo com sorriso: no cinema tudo pode acontecer, no cinema o sonho de uma Palestina livre é possível.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora em Assuntos Palestinianos e Feministas
Termos relacionados #FicaemCasa, Covid-19, Cultura
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