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No centenário da CGT e de “A Batalha”

No dia 21 de Setembro de 1919, em Lisboa, toma posse o primeiro Comité Confederal da CGT (Confederação Geral do Trabalho) eleito no Congresso de Coimbra. Por Álvaro Arranja
A 23 de Fevereiro de 1919 surge o primeiro número do jornal A Batalha, “porta-voz da organização operária” e, a partir de Setembro de 1919, data da fundação da CGT, órgão da central operária anarco-sindicalista
A 23 de Fevereiro de 1919 surge o primeiro número do jornal A Batalha, “porta-voz da organização operária” e, a partir de Setembro de 1919, data da fundação da CGT, órgão da central operária anarco-sindicalista

Os anos posteriores ao fim da I Guerra Mundial, são marcados por uma intensificação das lutas sociais e um reforço da organização sindicalista. O movimento operário enfrenta uma dupla hostilidade. De um lado o velho PRP que continua alheio à questão social, reprimindo os sindicalistas (à exceção do Governo da Esquerda Democrática). Do outro lado o poder económico, representado pela União dos Interesses Económicos que admira a solução fascista italiana e preconiza abertamente a ditadura, como via para esmagar os direitos dos trabalhadores.

No dia 21 de Setembro de 1919, em Lisboa, toma posse o primeiro Comité Confederal da CGT (Confederação Geral do Trabalho) eleito no Congresso de Coimbra, constituído por um elemento do Calçado, Couros e Peles, dois dos Metalúrgicos, um da Construção Civil, um dos Marítimos e um dos Gráficos; à frente do órgão executivo da Confederação, o operário sapateiro Manuel Joaquim de Sousa, que havia sido, indiscutivelmente, a figura principal do congresso fundador da Confederação. O II Congresso Operário Nacional, depois de várias alterações de data, tinha decorrido nos dias 13 a 15 de Setembro de 1919, em Coimbra. Marcou o fim da UON (União Operária Nacional), criada em 1914.

Mas o ano de 1919 tinha sido assinalado por outro acontecimento marcante na história do movimento operário em Portugal.

A 23 de Fevereiro de 1919 surge o primeiro número do jornal A Batalha, “porta-voz da organização operária” e, a partir de Setembro de 1919, data da fundação da CGT, órgão da central operária anarco-sindicalista. Alexandre Vieira, operário tipógrafo, foi o seu primeiro diretor.

Cartaz de "A Batalha" para o 1º de Maio de 1926
Cartaz de "A Batalha" para o 1º de Maio de 1926

A publicação de A Batalha foi antecedida por uma subscrição pública de mil cotas de um escudo cada uma. As ações eram propriedade da organização sindical, uniões locais, sindicatos mistos ou profissionais e da UON (depois CGT). O jornal vende-se pelo reduzido preço de 2 centavos.

No primeiro número afirma ser “um jornal onde os espezinhados, a cujo número pertencemos, encontrem um defensor apaixonado e a classe poderosa um adversário contumaz das prerrogativas de que goza ilegitimamente”.

Durante 8 anos – até 26 de Maio de 1927, data em que sairá o último número na legalidade – será um jornal diário, firme na defesa dos direitos dos trabalhadores e porta-voz da necessidade da revolução social, que instaurará uma nova sociedade sem exploração nem opressão. Estima-se a sua circulação na ordem dos 20/25 mil exemplares diários, sendo o terceiro (e às vezes o segundo) diário mais vendido, depois do Século e do Diário de Notícias.

Entre Dezembro de 1923 e Janeiro de 1927 A Batalha publicou também um suplemento literário e ilustrado onde colaboraram muitos dos intelectuais, escritores e jornalistas mais conceituados. Entre eles encontramos personalidades sonantes da nossa literatura do início do século XX como Ferreira de Castro, Rocha Martins, Emílio Costa, Julião Quintinha, Ladislau Batalha, Mário Domingues, Augusto Pinto, Nogueira de Brito, Jaime Brasil, Bento Faria, David de Carvalho, Eduardo Frias, Vitorino Nemésio, José Régio, Cristiano Lima e contando com ilustrações de Stuart Carvalhaes e Roberto Nobre.

Carta ao povo trabalhador sobre a comemoração do 1º de Maio
Carta ao povo trabalhador sobre a comemoração do 1º de Maio

Nos últimos anos da I República a opção do poder económico pela ditadura é cada vez mais clara. Entre novembro de 1924 e Fevereiro de 1925, a I República tem o seu único governo nitidamente de esquerda, o governo da Esquerda Democrática de José Domingues dos Santos. Será o único a contar com o apoio popular, incluindo a CGT, o Partido Socialista e o jovem Partido Comunista. Apesar de esclarecer não querer apoiar o Governo, A Batalha de 23.1.1925, refere estarem "a banca e os reacionários em estreita e fraternal união", dando "um espetáculo repugnante de rebeldia contra o atual Ministério". No dia 6 de Fevereiro de 1925, várias organizações republicanas, com o apoio da CGT anarco-sindicalista, do PS e do PCP, promovem uma grande manifestação de apoio ao Governo. Era a primeira vez que um ministério republicano tinha este apoio do movimento operário e seria a última. Segundo A Batalha do dia seguinte, a manifestação "foi uma imponente parada contra os manejos da União dos Interesses Económicos." O jornal sublinha a convivência entre os republicanos de esquerda e o movimento operário, referindo que "enquanto uma parte dos manifestantes cantava A Portuguesa a outra parte, a maior, composta na sua maioria por operários, entoava a plenos pulmões A Internacional."

O patronato via o jornal como o inimigo a abater. Leitores de A Batalha foram perseguidos pelos patrões apenas por lerem o jornal. O descarregador da CUF Bernardino de Carvalho, foi despedido porque o industrial Alfredo da Silva o viu a ler A Batalha (notícia de 3.3.1926).

A Batalha viu muitas vezes a sua redação invadida pela polícia, edições apreendidas e os seus jornalistas presos, mas continuará a publicar-se até ao dia 27 de Maio de 1927, quando a polícia da ditadura militar invade a sua sede (na Calçada do Combro, em Lisboa), destrói e saqueia todo o equipamento e o jornal é proibido.

A derrota da revolta de fevereiro de 1927 contra a ditadura, instaurada em 28 de maio de 1926, é aproveitada para justificar a guerra total contra a CGT e A Batalha. A ditadura dos interesses económicos, como A Batalha já a tinha qualificado, tem as mãos livres para a repressão.

Estatutos aprovados no II Congresso Nacional Operário 1919
Estatutos aprovados no II Congresso Nacional Operário 1919

Derrotado o movimento no Porto e em Lisboa pelas forças militares do governo da ditadura militar, contam-se nas duas cidades mais de 100 mortos e para cima de quatrocentos feridos. Vários dirigentes da CGT são então presos, vindo alguns deles a ser posteriormente deportados. O seu último redator-principal é Mário Castelhano que, anos depois, morrerá no Tarrafal. A Batalha não se publica entre 7 de Fevereiro de 1927 e 31 de Março seguinte; muitos organismos sindicais vêem as suas instalações encerradas pela polícia e arrestados os respetivos haveres. Na madrugada de 2 de novembro de 1927, todo o recheio foi retirado numa fúria destruidora! Não escaparam a Editorial de A Batalha, a sua tipografia, a Escola e o Teatro da Construção Civil. Desapareceram até a canalização da água e as instalações elétricas e até os inofensivos vidros das janelas foram estilhaçados!

O jornalista David de Carvalho, da redação de A Batalha, descreveu esses esses atos no livro Os Sindicatos Operários e a República Burguesa : «[...] pudemos presenciar pessoalmente a morte trágica desse jornal; com um desespero íntimo e impotente seguimos a sua destruição a golpes de picareta pelo bando de malfeitores do construtor civil Martins Júnior, protegido por compactos cordões de polícia armada, pessoalmente comandada pelo tenente-coronel Ferreira do Amaral».

Durante o fascismo, A Batalha publicou-se durante largos períodos nas décadas de 1930 e 1940 em tipografias clandestinas (nomeadamente numa gruta em Alcântara) apelando à reorganização dos militantes sindicalistas revolucionários e anarquistas e à luta contra o regime de Salazar. Na Biblioteca Nacional há registo dos seguintes números clandestinos: nº 1, Abr. 1934- a nº 10, Jul. 1937; nº esp. Dez. 1944; nº 1, Jan. 1946 a nº 21, Dez. 1949. A Batalha volta a publicar-se legalmente depois de 25 de Abril de 1974 por iniciativa de um grupo de militantes anarquistas e anarco-sindicalistas encabeçados por Emídio Santana e outros antigos militantes da CGT.

Os textos das duas principais figuras da CGT, Alexandre Vieira no Almanaque de A Batalha para 1926 e Manuel Joaquim de Sousa no livro O Sindicalismo em Portugal, são fundamentais para compreender este momento histórico. A obra de Jacinto Baptista, Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora: para a história do diário sindicalista A Batalha (1919-1927), é o principal e indispensável estudo sobre o jornal.

Artigo de Álvaro Arranja, para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Professor e historiador.
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