No dia 15 de fevereiro, Daniel Ortega e Rosario Murillo ordenaram privar para sempre 94 cidadãos da sua nacionalidade. Entre eles estão o Bispo Silvio Báez, os escritores Sergio Ramírez e Gioconda Belli, a defensora dos direitos humanos Vilma Núñez, o empresário Gerardo Baltodano, a líder camponesa Francisca Ramírez e muitos mais. É uma amostra da pluralidade de ativistas políticos, líderes cívicos, académicos, líderes religiosos, jornalistas, intelectuais, e antigos funcionários públicos que se opõem à ditadura orteguista. Alguns deles ainda se encontram na Nicarágua. O casal de ditadores pretende privá-los dos seus direitos de cidadãos e levar a cabo uma confiscação maciça dos seus bens como um ato de vingança contra os seus críticos.
Já no dia 9 de fevereiro, 222 prisoneiros políticos tinham sido privados de maneira perpétua da sua nacionalidade e dos seus direitos de cidadania e desterrados para os Estados Unidos. Um dia mais tarde, o bispo de Matagalpa, Rolando Álvarez, foi condenado a 26 anos e quatro meses de prisão pelo alegado crime de “conspiração contra a soberania nacional”, porque se recusou a aceitar o desterro e foi logo encarcerado numa cela de segurança máxima na prisão “La Modelo”.
Todos estes atos – a privação da nacionalidade, a imposição de penas perpétuas e a confiscação de bens – são estritamente proibidos pela Constituição da Nicarágua. Mas os ditadores Ortega e Murillo apenas reafirmam, através destas práticas completamente arbitrárias, que durante muitos anos a Nicarágua já deixou de ser uma sociedade regida pela lei e pela Constituição.
As vítimas destes atos punitivos são todos os sectores económicos e sociais do país, incluindo os funcionários públicos, que exigem uma mudança com justiça e liberdade.
Com estas três medidas punitivas, Ortega e Murillo levaram ao extremo a degradação do Supremo Tribunal de Justiça, do Ministério Público, da Polícia, dos Ministérios do Interior e dos Negócios Estrangeiros, e praticamente de todo o Estado nicaraguense, pondo de joelhos os funcionários públicos, civis e militares, que não são responsáveis pela repressão e corrupção, e que são também reféns da ditadura.
Ao impor a lei da selva, Ortega e Murillo estão a cavar a sua própria campa, expondo a fraqueza política do seu regime. As penas perpétuas, bem como a pena de 26 anos de Monsenhor Rolando Álvarez, são apenas uma ilusão da família dominante, enquanto que a realidade é que o tempo e a viabilidade do regime ditatorial está a esgotar-se. A Nicarágua precisa urgentemente de uma mudança. Uma mudança com democracia e justiça sem impunidade, envolvendo todas as forças vivas do país para enterrar o ódio, a sede de vingança e a corrupção pública simbolizada pelo Estado familiar Ortega e Murillo.
Todos os 94 cidadãos condenados, bem como os 222 prisioneiros libertados, que representam a esperança de mudança democrática, junto ao Monsenhor Rolando Álvarez, rejeitam vigorosamente a tentativa de lhes privarem da sua nacionalidade e dos seus direitos de cidadãos. Apelam a todos os cidadãos, e especialmente aos funcionários públicos, a quebrar o seu silêncio, a denunciar a corrupção e a não obedecer às ordens de uma ditadura corrupta e imoral. O fim da ditadura é o momento para os funcionários públicos, civis e militares, começarem a fazer parte de uma solução nacional.