Netanyahu acusado pela ONU de massacre, pelo procurador de corrupção

28 de February 2019 - 18:25

Depois da polémica por se ter aliado à extrema-direita, o primeiro-ministro israelita vê-se, no mesmo dia, acusado pelo procurador geral israelita em três processos de corrupção e por uma investigação da ONU pelo massacre de manifestantes palestinianos pelo exército israelita.

PARTILHAR
Foto de Carlos GC/Flickr

As denúncias policiais contra Netanyahu já eram conhecidas e estavam a ser investigadas há três anos. Esta quinta-feira o procurador geral israelita, Avichaï Mandelblit, lançou a acusação formal das três investigações quando falta pouco mais de um mês para as eleições antecipadas em que Netanyahu esperava alcançar o seu quarto mandato.

O primeiro-ministro israelita vai assim para a campanha eleitoral enfrentando uma nova coligação centrista que está a desafiar a sua hegemonia na política nacional, envolvido em polémica por se ter aliado a dois pequenos partidos da extrema-direita racista e, agora, a ter de responder em tribunal. Netanyahy é o primeiro responsável máximo do governo a ser acusado quando ainda em funções. Das acusações consta ter recebido dinheiro de um magnata norte-americano, Arnon Milchan, e de um empresário australiano, James Packer, em troca de favores; tentar limitar a circulação do jornal Yedioth Ahronoth favorecendo o jornal Israel Hayom que em troca lhe daria tratamento favorável e ter ajudado o empresário Shaul Elovitch, dono do gigante das telecomunicações Bezeq, promovendo alterações a regulamentos que valiam centenas de milhões de dólares em troca de tratamento favorável num dos seus sites, o Walla, relação classificada como suborno.

Crimes de guerra contra palestinianos

Quase ao mesmo tempo que era conhecida a acusação formal contra o primeiro-ministro, a comissão independente da ONU encarregue de investigar a atuação do exército israelita aquando dos protestos palestinianos de 2018, denominados Marchas do Retorno, concluiu que o estado israelita pode ter cometido “crimes de guerra”. Nos protestos morreram, pelo menos, 189 pessoas.

O presidente da comissão, Santiago Cantón, em conferência de imprensa afirmou que “há bases razoáveis para crer que durante a Grande Marcha do Retorno os soldados israelitas cometeram violações dos direitos humanos e das leis humanitárias, em alguns casos constitutivas de crimes de guerra ou contra a humanidade e devem ser imediatamente investigadas por Israel.”

Os soldados israelitas são acusados de disparar intencionalmente contra civis que não constituíam “uma ameaça iminente”. Isto apesar de reconhecer que houve violência associada às manifestações. Só que não foram, de todo, “atividades terroristas” como alegavam as autoridades sionistas. A comissão não deixou de culpar também o Hamas por não ter impedido o uso de dispositivos incendiários artesanais.

Mas as acusações mais graves são as dirigidas a Israel. Para além dos 189 mortos, mais de seis mil pessoas foram atingidas de acordo com a comissão de inquérito que analisou mais de 8 mil documentos e fez 325 entrevistas a pessoas de ambos os lados do conflito, isto apesar do Estado israelita se ter recusado a cooperar.

A advogada do Bangladesh Sara Hossain, outra das integrantes da comissão, clarificou as acusações: “estamos a dizer que eles alvejaram intencionalmente crianças, eles alvejaram intencionalmente pessoas com deficiências, eles alvejaram intencionalmente jornalistas”.

Netanyahu respondeu às acusações da comissão dizendo que “atingiram novos patamares de hipocrisia e mendicidade, devido a um ódio obsessivo por Israel.” A Autoridade Palestiniana, através do porta-voz Ahmad Shami considerou o relatório “um passo na direção correta, contudo não é bastante para estabelecer uma responsabilização abrangente.” Acrescentou que “a comunidade internacional deve assumir a sua responsabilidade e providenciar proteção internacional para os cidadãos palestinianos”.