Nepotismo e intriga, o desgoverno de Trump

15 de April 2017 - 13:14

Entre a despromoção de Steve Bannon e o novo papel oficial de Ivanka Trump, analisamos neste artigo as últimas alterações no governo de Donald Trump e o seu significado político. Por Tiago Ivo Cruz

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Donald Trump com Eric Trump, Melania Trump, Ivanka Trump e Jared Kushner, por Shawn Thew, EPA/Lusa
Donald Trump com Eric Trump, Melania Trump, Ivanka Trump e Jared Kushner, por Shawn Thew, EPA/Lusa

A inconsistência política de Donald Trump reflete-se claramente nas políticas que adota e e anula sucessivamente, mas também na forma como a intriga palaciana domina o seu governo. 

Entre o nepotismo declarado e a afirmação da extrema-direita, o jogo de influências em torno de Donald Trump explica algumas das contradições. 
 
Nas últimas semanas, Steve Bannon, o ideólogo de extrema-direita apresentado pela revista Times a 13 de fevereiro como o “grande manipulador” e “presidente sombra" dos Estados Unidos da América, foi afastado do Conselho de Segurança Nacional, alegadamente como condição imposta pelo general McMaster, nomeado National Security Advisor em substituição de Michael Flynn (que se demitiu ao fim de 24 dias no cargo devido a suspeitas não rejeitadas de proximidade com interesses da Rússia). 
 
Simultaneamente, Jared Kushner, marido de Ivanka Trump nomeado conselheiro de estado por Trump, afastou Bannon do círculo de confiança do presidente, culminando em declarações ao New York Post onde Trump humilhou publicamente Bannon. As declarações corresponderam também a uma alteração de posições políticas sobre alguns assuntos, nomeadamente a postura agressiva face à política de câmbios chinesa. 

Jared Kushner e Steve Bannon, as duas faces da moeda Trump

 
Em confronto estão duas fações ideológicas do conservadorismo norte-americano que se alimentaram mutuamente durante a campanha de Trump. A primeira, mais fiel à linha “moderada” do Partido Republicano, a favor da globalização e do poder financeiro mas culturalmente conservadora, precisamente o que Steve Bannon trabalhou durante toda a sua vida à frente da Breitbart News para destruir, afirmando uma linha anti-globalização e anti-imigração que aliás definiu o slogan de Trump na campanha presidencial: “America first”. 
 
Para Kushner, as derrotas sucessivas em torno dos decretos anti-imigração (suspensos repetidamente pelos tribunais federais) e da substituição do Obamacare, são totalmente atribuíveis a Steve Bannon e Reince Priebus (Chefe de Gabinete de Donald Trump, historicamente a posição mais influente dentro do governo). 
 
Assim, o enteado de Trump acumula influência, além de um portfólio cada vez maior de competências de onde se destacam: responsável pelo processo de paz no médio-oriente; responsável pela preparação da visita do presidente chinês Xi Jinping; e responsável pela reforma do governo federal aproximando-o de um modelo empresarial. Qualquer uma destas tarefas seria um desafio para um político experiente (Tony Blair, por exemplo, foi nomeado com grande pompa e circunstância pelo Quarteto Diplomático como enviado especial para o médio oriente em 2007, com resultados que ninguém além do próprio se atreverá a dizer que foram positivos).   
 

 

Nepotismo e ambiguidade

 
Até ao final de março, Ivanka Trump era conselheira informal de Trump, com um papel preponderante na Casa Branca, agindo e tomando decisões em nome do pai apesar de não ter nenhum vincúlo com o Estado. O único critério que a colocou nesta posição - ser filha do Presidente dos EUA - levantou dúvidas sobre a legitimdade da nomeação, não só pelos conflitos de interesses que implica mas também pelo facto do vínculo informal não permitir a supervisão institucional e jurídica dos restantes órgãos de estado, nomeadamente o Congresso. 

Esta ambiguidade terminou a 29 de março, com Ivanka Trump a ser formalmente nomeada pelo pai como conselheira da Casa Branca. Num comunicado público, Ivanka afirmou que "ouvi as preocupações levantadas sobre a minha relação com o Presidente em nome voluntário apesar de cumprir com as regras de ética. Em alternativa, vou servir como funcionária sem vencimento com escritório na Casa Branca, sujeita a todas as regras de um funcionário federal.” 

O papel de Ivanka Trump na Casa Branca assemelha-se assim ao papel do marido, Jared Kuschner. Ivanka Trump não era, contudo, a única pessoa a desempenhar a função de conselheiro do Presidente dos EUA sem qualquer relação formal com a Casa Branca. 

Carl Icahn, o bilionário nomeado por Trump como conselheiro para regulamentação do estado, não tem igualmente qualquer relação formal com o governo federal, apesar de ser o obreiro por detrás da alteração drástica da missão da Agência de Proteção Ambiental. Foi ele que deu conteúdo ao discurso de Trump durante a campanha onde reclamava "o fim da regulação excessiva" da economia. O problema é que o trabalho de Icahn como conselheiro informal favorece diretamente as suas próprias empresas. 

Icahn é acionista maioritário da CVR Energy, uma refinaria de petróleo no Texas. As alterações propostas por Icahn permitiriam uma redução de 205,9 milhões de dólares nas taxas cobradas à sua empresa. As alterações ainda não foram implementadas mas, como consequência direta da influência de Icahn, as ações da CVR Energy subiram 50% relativamente ao valor pré-eleitoral, uma valorização de 455 milhões de dólares.

Acusado pela oposição do Partido Democrático por favorecimento em causa própria, Icahn responde que "eu não governo, apenas indico a minha opinião". É essa aliás a própria posição da Casa Branca que defende publicamente Icahn: "Ele é apenas um cidadão cuja opinião o Presidente respeita e com quem o Presidente fala habitualmente". 

Segundo o New York Times, apesar do governo de Trump ter congelado qualquer nova lei regulamentar sobre todas as áreas de negócio, permitiu no entanto a publicação de uma medida em particular (com o nome de Internal Revenue Service) que permite a empresas de petróleo acederem a enormes deduções fiscais. Esta é, aliás, a estratégia utilizada por Icahn para rentabilizar o investimento que fez em 2012 ao comprar a CVR Energy, um negócio sobre o qual nada sabia e que tentou vender imediatamente, sem resultados e, em alternativa, recorreu a uma obscura forma de planeamento fiscal para pagar menos impostos.