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Na sombra do genocídio de Deli-2020 por Narendra Modi

O governo Modi está a criar uma cultura de agressão aos muçulmanos, usando todos os instrumentos legais para lhes retirar a cidadania, lançando violência planeada como no caso do genocídio Deli-2020. São desenvolvimentos alarmantes para quem acredita que a Índia deve ser secular, religiosamente plural e tolerante. Por Amit Singh.
Mercado incendiado em Deli, India, Março de 2020. Foto de Banswalhemant/wikimedia commons.
Mercado incendiado em Deli, India, Março de 2020. Foto de Banswalhemant/wikimedia commons.

Era de esperar. A violência brutal desencadeada contra os indianos muçulmanos foi sancionado pelo Estado e é conhecida como o genocídio de Deli-2020. Mais de 50 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas na conflagração da violência nos bairros do nordeste de Deli no mês passado. Isto não aconteceu do dia para a noite. Foi o resultado de uma campanha sustentada de ódio contra os muçulmanos durante os seis anos do mandato do primeiro ministro Narendra Modi, um nacionalista hindu.

Um relatório da Comissão de Deli para as Minorias declara que a violência “foi unilateral e bem planeada”, e que os danos “máximos” foram infligidos contra as casas e lojas dos muçulmanos. A violência grassou na capital durante três dias, tendo começado a 24 de fevereiro como um confronto entre apoiantes e críticos da nova lei de cidadania. Os tumultos foram dirigidos pelo partido governante, que procura apresentar os seus opositores muçulmanos, em grande medida pacíficos, como sectários sediciosos que recusam a lei, que permitira que todas as religiões principais da Ásia meridional, excepto o Islão, de obterem asilo na Índia.

O genocídio de Deli foi instigado por políticos locais do partido Bharatiya Janata, o partido do primeiro ministro. Lançaram discursos incendiários que alimentaram a violência. Os seus milicianos atacaram os muçulmanos com impunidade. O presidente da Comissão de Deli para as minorias, Zafarul Islam Khan, alegou que cerca de 1500 a 2000 pessoas de fora foram levadas para os bairros do nordeste de Deli e alojadas durante um dia para esta conspiração para lançar a violência. A violência espalhou-se para as localidades próximas e Maujpur, Chand Bagh e Yamuna Vihar. Os manifestantes encheram as ruas, brandindo espadas e pistolas e incendiando casas e carros. Milhares de pessoas fugiram da área para as suas aldeias em Uttar Pradesh e Haryana. Centenas ainda não regressaram dos campos dirigidos por comunidades muçulmanas. Casas, lojas e oficinas foram destruídas. Multidões, por vezes com a bandeira com a cor do açafrão (representando o partido hindu), vandalizaram mesquitas e incendiaram propriedades de muçulmanos. Num incidente, uma mulher de 85 anos foi queimada viva enquanto a multidão cantava hinos a Jai Shri Ram (um deus hindu).

Foi a pior vaga de violência na Índia em anos. Se bem que alguns hindus também tivessem sido mortos nos conflitos, percebeu-se depressa que era o partido do primeiro ministro Modi, o Bharatiya Janata Party (BJP), e a polícia de Deli, que apoiavam as multidões cantando slogans nacionalistas hindus à medida que queimavam prédios e atacavam muçulmanos.

Para a Índia, esta violência representa um marco depois de seis anos de governo pelos nacionalistas hindus, agora mais dominantes do que nunca. Desde que ganhou as eleições, com uma vitória esmagadora em maio passado, Modi reforçou a sua base de extrema-direita, que vê os muçulmanos como invasores do país. Em agosto, Modi impôs o recolher obrigatório ao único estado com maioria muçulmana, retirando-lhe a sua autonomia legal. O seu governo planeia construir um templo hindu no local de uma mesquita demolida pelos nacionalistas hindus em 1992.

Desde a independência em 1947, a política indiana está caracterizada pela violência entre hindus e muçulmanos, a maior minoria do país. Mesmo sob o domínio do primeiro ministro Jawaharlal Nehru, que ambicionava um estado secular, surgiram episódios de violência. Mas, com Modi, a violência passou a ser sancionada pelo estado e a ser desenvolvida por funcionários públicos. Seria interessante notar que em fevereiro de 2002, enquanto a região de Gujarat ardia durante dias e um milhar de muçulmanos morreram, os líderes do Bharatiya Janata Party e os seu aliado, o Vishwa Hindu Parishad, apelavam a que os hindus dessem uma lição aos muçulmanos. Modi, que era o ministro-chefe de Gujarat, fez o discurso mais incendiário, troçando das vítimas e dizendo que os campos de proteção dos muçulmanos seriam fábricas de produção de bebés.

Qaundo, pela primeira vez, o BJP chegou ao poder em 1999, promoveu investigação académica e ensino para desenvolver a sua doutrina nacionalista hindu. A Rastriya Swayamsevak Sangh (RSS), a organização mãe do partido, BJP, controlou várias agências governamentais, concentrando findos públicos e privados, procurando validar e reforçar esta doutrina, que apresenta a violência de hindus contra muçulmanos como uma manifestação de raiva nacional e constrói a respeitabilidade oficial da ideologia nacionalista.

Vários estudos demonstraram que a violência local beneficiou a vitória eleitoral dos partidos nacionalistas hindus e encorajou o reforço dessa violência. Não seria surpresa se o genocídio de Deli-2020 fosse a preparação das próximas eleições em Bihar e Bengala Ocidental, em 2020 e 2021.

Os políticos hindus de extrema-direita, com as suas redes de apoio, institucionalizaram o sistema de confronto. São exemplos disso a violência em Godhra contra os muçulmanos, depois da demolição da mesquita de Babri Mosque, ou os confrontos em Mumbai, Ahmedabad, e Varanasi. Linchamentos, ataques por milícias, ou a expulsão dos muçulmanos Rohingya, são alguns exemplos.

O relatório norte-americano sobre a liberdade religiosa em 2019 sublinhou “a violência, intimidação e perseguição a muçulmanos” e a pessoas de castas inferiores na Índia. O relatório nota ainda que o governo falhou no dever de defesa das religiões minoritárias e de comunidades marginalizadas contra ataques de multidões. O comissário para os Direitos Humanos na ONU e o parlamento europeu também insistiram no mesmo ponto.

O governo Modi está a criar uma cultura de agressão aos muçulmanos, usando todos os instrumentos legais para lhes retirar a cidadania, lançando violência planeada como no caso do genocídio Deli-2020. Estes desenvolvimentos são alarmantes para quem acredita que a Índia deve ser secular, religiosamente plural e tolerante. A comunidade mundial precisa de iniciar uma ação concreta contra o governo da Índia antes que se repita a limpeza étnica dos muçulmanos.

Sobre o/a autor(a)

Investigador no Centro para o Estudo das Línguas e Sociedade Indianas e doutorando no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
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