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"Na Síria, temos revolucionários capazes de governar o país, só precisamos de apoio"

Shaza Alsalmoni, investigadora síria especialista em legislação internacional sobre Direitos Humanos, foi entrevistada quando participou na conferência organizada pelo Bloco “Celebração do 8 de março – Feminismo contra a guerra”. O vídeo pode ser visto em baixo.
Shaza Alsalmoni

Qual a situação atual na Síria?

Em primeiro lugar gostaria de recordar que o que está a acontecer na Síria começou com uma revolução. Há cinco anos atrás, quando as pessoas se revoltaram contra a ditadura, o regime de Assad reagiu com violência e acionou uma guerra com apoios internacionais.

A guerra resultou em mais de 370 mil mortos e na deslocalização de mais de metade da população da Síria, 12 milhões de pessoas. Agora o que temos é um cessar de fogo, que penso ser algo positivo. E há dois dias atrás os cidadãos voltaram às ruas, exigindo o mesmo que exigiam na revolução que é liberdade, dignidade, uma vida melhor, direitos humanos.

Há cinco anos, quando as pessoas se revoltaram contra a ditadura, o regime de Assad reagiu com violência e acionou uma guerra com apoios internacionais. A guerra resultou em mais de 370 mil mortos e na deslocalização de mais de metade da população da Síria

É claro que durante o cessar fogo a situação não está melhor, mas temos esperança que poderá ser o começo para uma solução para a Síria. Isto é o que está a acontecer agora e esperamos que no final desta semana, as negociações de paz comecem e possam ser o princípio da solução do conflito.

Qual será o desfecho das negociações de paz?

Eu tenho as minhas preocupações acerca destas negociações de paz, porque existem muitas limitações na participação de ativistas da sociedade civil, e em particular da voz das ativistas dos direitos da mulheres. Sim, existem mulheres nas negociações mas não são ativistas dos direitos das mulheres e é precisamente destas vozes que nós precisamos nas negociações de paz.

A esperança do resultado destas negociações será o do fim do conflito armado e o começo de um período de transição na Síria. E a partir daí, aquilo que eu gostaria que acontecesse na Síria é o início da construção de uma constituição democrática que previna futuros conflitos e dê melhor proteção aos cidadãos, de forma a que possam regressar à Síria.

O número de refugiados sírios registados nas Nações Unidas são quase 5 milhões em diversos países vizinhos e outros locais. Assim, só depois de termos uma constituição democrática e um período pacífico de transição é que os cidadãos poderão regressar e começar a reconstruir o país.

O número de refugiados sírios registados são quase 5 milhões. Só depois de termos uma constituição democrática e um período pacífico de transição é que os cidadãos poderão regressar e começar a reconstruir o país.

Qual deveria ser o papel da Europa para contribuir para a solução da situação na Síria?

Acho que em primeiro lugar será parar de vender armas e de armar os diferentes grupos, qualquer grupo, qualquer partido.

Outra coisa é pararem de comprar petróleo no mercado negro, porque é a principal fonte financeira do Estado Islâmico (EI), do Daesh. Ao fazer isto, podemos realmente cortar o financiamento deste grupo terrorista. E cortá-lo pela raiz, em vez de continuar a bombardear e destruir o território e os locais na Síria.

Outra medida seria colocar o máximo de pressão possível nos diferentes países, sejam eles a Rússia, a União Europeia ou os EUA, de forma a que seja possível existir um genuíno processo de transição e negociações, que possa levar à reconstrução, a começar um futuro melhor.

A última ideia seria proporcionar proteção humanitária temporária para os refugiados que estão a vir, a fazer a sua viagem para a Europa, que estão a chegar, proporcionar melhor proteção humanitária. Proporcionar mais proteção humanitária e garantir uma passagem segura para os refugiados. Porque as mulheres em particular são severamente afectadas por esta viagem. Poderíamos pensar que as mulheres não seriam sujeitas a assédio e abusos sexuais na Europa, mas são. É por isso que precisamos de garantir a passagem segura para uma proteção humanitária temporária.

Acho que se fizer pressão sobre estes pontos, isso ajudará a acabar o conflito na Síria e trará uma solução.

Qual era a situação na Síria antes da Primavera Árabe e de que forma é que a reação do regime de Assad contribuiu para a crise atual?

O regime de Bashar al Assad é uma ditadura, e a sua resposta à revolta foi muito violenta e isso levou ao terrível número de mortos e de deslocados dentro e fora da Síria. Assad criou um ambiente muito fácil para grupos terroristas e radicais como o EI, Jabhat al-Nousra.

Porque o regime de Bashar al Assad é uma ditadura, a sua resposta, a resposta do regime à revolta foi muito violenta e isso, tal como disse antes, levou ao terrível número de mortos e de deslocados dentro e fora da Síria. Acredito que devido à sua resposta, Assad criou um ambiente muito fácil para grupos terroristas e radicais como o EI, Jabhat al-Nousra ou qualquer tipo de grupo extremista, devido a esta reação.

Outra coisa que Assad fez, que levou à existência destes grupos extremistas, foi soltar estas pessoas da prisão quando a revolução começou. Ele soltou-as, elas estavam na prisão e tinham sido torturadas durante cerca de 20 anos. Obviamente que estas pessoas quando saíram, se tornaram terroristas.

Isso levou-nos à situação que vivemos agora. Apenas devido ao apoio que teve da Rússia, do Irão e do Hezbollah isso é o que fez durar até agora. Porque se não tivesse tido estes apoios, o povo da Síria, nós, teríamos alcançado o que queríamos.

Qual a relação de forças entre o regime de Assad e o ISIS? Se Assad for derrubado, o ISIS terá força para conquistar o resto do país?

Não é uma questão de governar o EI ou Assad. Temos muitas pessoas moderadas, seculares, feministas, ativistas, ativistas dos direitos da mulheres, temos todo o tipo de pessoas genuinamente revolucionárias que são capazes de governar o país, mas só precisamos de apoio. 

Na minha opinião, uma coisa muito positiva sobre a Síria é que as pessoas, em geral, são seculares e mesmo os mulçumanos são moderados, não são extremistas de todo. O EI é composto por estrangeiros, não sei exatamente a percentagem de cidadãos sírios que fazem parte do EI, mas são uma minoria. As pessoas que tomam as decisões na organização têm diferentes nacionalidades.

Se Assad fosse derrubado, não só o EI seria combatido por campanhas lideradas internacionalmente contra si, como também não seria aceite pelas pessoas na Síria. O factor mais importante e fundamental contra o EI é o povo da Síria, porque ninguém na Síria aprova e aceita este tipo de radicalismo, quer seja o EI ou qualquer outro grupo extremista, isto não é o que queríamos, e não foi por isto que nos sacrificámos.

Eu estou agora deslocada na Europa, e não aceitaria ver o EI ou algum grupo extremista governar na Síria, ou o Bashar al Assad governar na Síria. Não é uma coisa ou a outra. Temos muitas pessoas moderadas, seculares, feministas, ativistas, ativistas dos direitos da mulheres, temos todo o tipo de pessoas genuinamente revolucionárias que são capazes de governar o país, mas só precisamos de apoio. Sim é isso, só precisamos de apoio.

Entrevista - Shaza Alsalmoni | ESQUERDA.NET

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