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Na Bósnia, volta-se a temer a guerra

Os dirigentes servo-bósnios dizem que em seis meses vão instituir um exército separado e instituições judiciais e tributárias próprias. A secessão ameaça o futuro da Bósnia-Herzegovina, entidade resultante dos acordos que em dezembro de 1995 acabaram com a sangrenta guerra civil.
"Sou pela Paz", graffiti nas ruas de Sarajevo. Foto do Twitter.
"Sou pela Paz", graffiti nas ruas de Sarajevo. Foto do Twitter.

Nos muros voltam a desenhar-se apelos à paz. Nas ruas, há também quem empunhe cartazes contra a guerra. E, nos jornais, essa palavra anda à solta já sem pejo. 26 anos depois, o espetro de um conflito armado volta a assombrar a Bósnia-Herzegovina.

“Sou pela paz”. Desde outubro que graffitis com esta inscrição têm surgido nos muros de Sarajevo. Contudo, esta segunda-feira foram apenas cerca de duas dezenas os habitantes da capital da Bósnia-Herzegovina que desafiaram a chuva, marcando presença à porta da delegação da União Europeia para exigir o cumprimento dos compromissos resultantes dos acordos de paz de Dayton que fizeram nascer este país tal como hoje existe. O mês passado, a polícia sérvia bósnia fizera isoladamente exercícios de “contra-terrorismo” na montanha Jahorina, a partir de onde Sarajevo foi bombardeada no mais longo cerco de uma capital ocidental na era contemporânea.

Mas ainda que estes sinais possam parecer tímidos, os medos que encerram são mais significativos e as ameaças bem reais. É certo que Milorad Dodik, presidente da Republika Srpska, a entidade sérvia que é uma das duas partes do país, anda a ameaçar a secessão há uns bons quinze anos. E o intensificar da retórica nacionalista podia ser lido apenas como uma manobra para escapar à pressão de maus resultados eleitorais nas autárquicas do ano passado e ao escândalo do seu governo ter dispensado oxigénio industrial e não médico aos doentes de Covid. Contudo, os passos são bem concretos. Desde julho que passou a boicotar as instituições políticas partilhadas e avançou para a criação de um exército próprio, autoridade tributária e justiça separadas num prazo de seis meses. O membro croata da presidência coletiva bósnia, Zeljko Komsic, classificou na Radio Sarajevo esses passos como “um ato criminoso de rebelião”.

 

Publicação no Facebook de um dos promotores da manifestação pela paz.

Desde os acordos de Dayton que as partes em guerra tinham concordado em construir um país constituído por duas entidades separadas, uma sérvia e a outra croato-bósnia, mas com um governo central partilhado, uma presidência coletiva e rotativa e instituições comuns. Dodik crê que isso foi uma “experimentação” da comunidade internacional, que se trata de um “país impossível” que apenas teve instituições “provisórias”. A concretizarem-se as medidas que anunciou, isso significa uma secessão de facto do país.

O detonador imediato da crise política foi a decisão do anterior Alto Representante Internacional para a Bósnia-Herzegovina, Valentin Inzko, de proibir por lei a negação do massacre de Srebrenica. O novo titular do cargo, o alemão Christian Schmidt, enviou à ONU um relatório em que escreve que a possibilidade de um novo conflito é “muito real”, estando a Bósnia-Herzegovina “confrontada com a maior ameaça existencial desde o fim da guerra”. Numa entrevista à Reuters sobre a crise, no sábado, declarou que a desestabilização “também afeta a relação difícil entre a Sérvia e o Kosovo”.

A tutela internacional tinha permanecido no pais todo este tempo como se fora um árbitro permanente das tensões. Agora, o lado sérvio diz que não reconhecer mais o cargo de Alto Representante para o país. No terreno estão ainda as forças militares de manutenção de paz da ONU, a Eufor-Althea, que substituíram a Nato. Estas viram o seu mandato prolongado por mais um ano no início deste mês numa resolução em que a Rússia conseguiu vetar qualquer referência ao cargo de Alto Representante Internacional, minando assim a sua legitimidade.

Os cerca de 700 soldados das forças internacionais não tranquilizam ninguém. A memória do massacre de Srebrenica, cidade também ela supostamente protegida por forças da ONU, está demasiado viva.

Entre 1992 e 1995, a guerra que se seguiu ao desmembramento da Jugoslávia pelos nacionalistas croatas, bósnios e sérvios e pelos interesses internacionais que os instigaram terá causado mais de 100 mil mortes e 1,8 milhões de deslocados. Até se chegar ao mapa desenhado no acordo de Dayton sob supervisão norte-americana fizeram-se várias limpezas étnicas.

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