Na Bolívia, pelos caminhos do Che

09 de October 2017 - 16:20

Viajámos de Santa Cruz para Vallegrande de automóvel. É desta cidade do “Oriente” que se faz o acesso mais fácil à trilha do Che, no sentido inverso ao que ele verdadeiramente percorreu. Por Alda Sousa. Fotografias de Jorge Sequeiros.

porAlda Sousa

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"A icónica lavandaria, para onde o cadáver do Che foi transportado e exposto a 10 de Outubro de 1967 (depois de assassinado em La Higuera), fica cá fora, num pátio nas traseiras." Foto de Alda Sousa.
"A icónica lavandaria, para onde o cadáver do Che foi transportado e exposto a 10 de Outubro de 1967 (depois de assassinado em La Higuera), fica cá fora, num pátio nas traseiras." Foto de Alda Sousa.

Nota prévia: este texto é apenas um relato de viagem, não tendo a pretensão nem de analisar o pensamento e ação do Che, nem de entrar nas várias polémicas em curso ainda hoje, 50 anos depois da sua morte, quer na Bolívia, quer em Cuba ou noutras partes do mundo, sobre os meses do Che na Bolívia e as razões do seu fracasso.

22 Agosto 2016

É o nosso último dia na Bolívia, depois de dez dias de viagem: Lago Titicaca, Copacabana, Ilha del Sol, La Paz, Salar de Uyuni, Potosí, Sucre, Santa Cruz e San José de Chiquitos.

É desta cidade do “Oriente” que se faz o acesso mais fácil a Vallegrande (cerca de 250km) e à trilha do Che, no sentido inverso ao que ele verdadeiramente percorreu. Em Novembro de 1966, Ernesto (Che) Guevara chegou ao aeroporto de Palo Alto (La Paz), com um passaporte sob o nome de Adolfo Mena González (economista uruguaio). Poucos dias depois, Che e companheiros assentavam um acampamento na região de Ñancahuazu, bem ao sul de Vallegrande.


Mapa da Bolívia. Zona percorrida por Che Guevara, em 1967. Por Pepe Robles.

"La ruta del Che", Bolívia. A linha pontilhada marca o percurso feito pelo Che e os guerrilheiros que acompanhavam. Por Pepe Robles.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Viajámos de Santa Cruz para Vallegrande de automóvel, por estradas más, com muitas curvas, e que vão subindo de 416 até 2100m, por vezes uma paisagem deslumbrante. Deixámos Santa Cruz às 5h00 da manhã, para chegar a Vallegrande por volta do meio-dia. No caminho, apenas uma paragem para um café, em Samaipata (“Descanso nas montanhas” em queschua). Em vez de automóvel poderíamos ter ido de “coletivo”, mas precisaríamos de pelo menos mais um dia, tempo de que já não dispúnhamos. Samaipata é mais conhecida pela ruínas incas (que não visitámos) e também por ser porta de entrada no Parque Nacional de Amboró. Mas está também ligada à “ruta del Che”, dado que em agosto de 1967 fora tomada por uma coluna da guerrilha, durante umas horas, para que os combatentes pudessem abastecer-se de alimentos e medicamentos.


Museu Che Guevara.

Na praça principal de Vallegrande há um pequeno posto de turismo e um museu Che Guevara, com fotos (de má qualidade) sobretudo dos últimos anos de vida na Bolívia. Há também alguns objetos que pertenceram aos guerrilheiros e alguns adereços do filme boliviano “Di Buen Dia a Papá” (Fernando Vargas, 2005).

 

 


Hospital Senhor de Malta.

 

Em seguida dirigimo-nos ao Hospital Señor de Malta. Com um guia combinado no turismo local, atravessamos os corredores das consultas externas e das enfermarias. A icónica lavandaria, para onde o cadáver do Che foi transportado e exposto a 10 de Outubro de 1967 (depois de assassinado em La Higuera), fica cá fora, num pátio nas traseiras. As fotos tiradas nesse desse dia (de Freddy Alborta e Mark Hutten) percorreram o mundo e imortalizaram o Che.

 


Lavandaria.

Este é um dos pontos principais de visita da “Ruta del Che”, testemunha da passagem, ao longo dos anos, de muita gente que ali foi deixando os seus nomes ou mensagens gravadas nas paredes. É impossível não sentir uma emoção imensa ao imaginar o cadáver do Che ali deitado e reviver as imagens que então vimos, há 50 anos e a milhares de kms de distância, na televisão e nos jornais.

Da lavandaria do Hospital seguimos para o Memorial, um pouco afastado do centro da cidade (junto ao muro do pequeno aeroporto local), e que à data se encontrava ainda inacabado, só se visitando com guias autorizados. Inaugurado em outubro 2016, já depois da nossa visita, tem uma área grande: o memorial/museu e uma biblioteca/arquivo. O local onde foi construído é mais do que simbólico. De 1967 a 1997, reinou um silêncio de chumbo sobre o local onde teriam sido sepultados o Che e companheiros.


Entrada para o Memorial, agora Centro Cultural Che Guevara.

Quando preparava a sua monumental biografia do Che, John Lee Anderson entrevistou em 1995, em Santa Cruz, o ex-militar Mario Vargas Salinas, que rompeu o segredo, revelando que o local onde o Che estava enterrado ficava mesmo junto à pista do aeroporto. Na sequência desta confissão, equipas forenses argentinas e cubanas procederam à identificação das ossadas do Che e seus companheiros. Nesse mesmo ano, os restos mortais do Che foram entregues a Cuba e estão agora em Santa Clara.


Painel à entrada da "Fossa" do Che, no recinto do Memorial.

Dentro do recinto do memorial, são muitas as fotos e os painéis com explicações, desde as fotos de Che e Fidel, Che na ONU, Che com a família, Che a discursar na ONU, etc.  E também as fotos do passaporte com que Che entrou na Bolívia, tão irreconhecível que, ao que consta, para testar o disfarce do Che, Fidel apresentou-o a alguns dos seus ministros como se de um visitante se tratasse, e nenhum deles reconheceu Guevara.

Num fosso largo, poucos metros abaixo do chão, estão as placas com o nome dos que caíram com o Che nesse 9 de Outubro e que estavam enterrados com ele. Cá fora, há várias placas de homenagem e árvores plantadas, incluindo pela sua filha Aleida, a 9 de outubro de 2006.


"Fossa" do Che e companheiros.

Fora do recinto, mas não muito longe, encontra-se a “fossa comum”, onde foram enterrados vários outros companheiro, alguns mortos nos confrontos de agosto, como Tania (Haide Tamara Bunke), a única mulher do grupo (cujos restos também foram para Cuba). Para lá chegar é preciso atravessar um estreito caminho que passa por terrenos particulares.


Entrada para a "fossa" dos guerrilheiros.

Campa/memorial de Tania, a única mulher do grupo que acompanhava Che, na Bolívia.


 

 

 

 

 

 

Não foi possível ir a La Higuera, precisaríamos de um dia mais, pelo menos. Mas é em Vallegrande, sem dúvida, que estão alguns dos pontos mais altos deste percurso.


Restaurante com fotos de Che Guevara.

Procurámos perceber o que representa hoje em dia o Che para a população de Vallegrande. A pequena vila, de menos de 20 mil habitantes, é sobretudo visitada em sua memória. Mas, apesar do museu bem no centro da vila e do posto de turismo municipal que ostenta a sua foto, curiosamente (ou talvez não) não se encontram aqui à venda em local algum os artigos e memorabilia que se podem encontrar qualquer mercado de rua, um pouco por todo o mundo. Parece que este local escapou à mercantilização da imagem do Che. O restaurante onde almoçámos e um ou outro café exibem com orgulho fotos do Che. O guia diz-nos, porém, que não é assim tão simples. Nesse “oriente” conservador, há quem se regozije porque afinal a figura do Che é uma fonte de turismo para esta povoação. Mas há também quem ache que o Che deu “má fama” à pacata povoação e que se indigne com a presença de tantos visitantes, e nem sempre os mais desejados por qualquer turismo local. Vallegrande é afinal esta enorme ambivalência.


Mural com a última carta de Che Guevara dirigidas aos seus filhos.

Postscriptum

A 9 e 10 de Outubro têm lugar em Vallegrande as comemorações oficiais, com a presença de Evo Morales e vários membros do seu governo, bem como do irmão mais novo e dos quatro filhos do Che ainda vivos e ainda os ex-guerrilheiros cubanos Harry Villegas (Pombo) y Leonardo Tamayo (Urbano), que combateram com o Che e que sobreviveram. São esperadas cerca de 20 mil pessoas, tantas como os habitantes da povoação. O governo do MAS pretende que a mensagem seja “El Che vive, Evo sigue”: http://www.eldeber.com.bo/bolivia/En-Vallegrande-haran-enfasis-en--que-….

O presidente boliviano vai mesmo passar uma noite acampando com jovens na região: http://www.eldeber.com.bo/bolivia/Buscan-homenajear-al-Che-pasando-una-….

Mas o objetivo de Evo de ter as forças armadas a participar nesta homenagem não parece ter tido grande sucesso, bem pelo contrário. A 6 de Outubro, foram ali homenageados, 50 ex-militares que em 1966-67 combateram a guerrilha do Che. As cerimónias tiveram a presença do próprio presidente da Câmara de Vallegrande: http://www.eldeber.com.bo/bolivia/Distinguen-a-benemeritos-de-la-guerri….

Este domingo, dia 8 de Outubro, em Santa Cruz, cerca de meia centena de militares, entre os quais Gary Prado, o capitão que capturou o Che há 50 anos, desfilaram e descerraram uma lápide comemorando a sua vitória sobre os guerrilheiros: http://www.la-razon.com/nacional/reportajes/Captor-Che-Guevara-exsoldad….


Por Alda Sousa. Fotografias de Jorge Sequeiros.

Alda Sousa
Sobre o/a autor(a)

Alda Sousa

Professora universitária. Ativista do Bloco de Esquerda.