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Mural Sonoro comemora dez anos

Celebramos este mês dez anos de existência da plataforma Mural Sonoro https://www.muralsonoro.com/, webmagazine de natureza cultural, informativa e científica que criei na passagem do ano 2010 para o ano 2011. Por Soraia Simões de Andrade.
Mural Sonoro faz dez anos
Mural Sonoro faz dez anos

Aqui foram sendo disponibilizados em acesso aberto primeiramente variadíssimos metadados: entrevistas que realizei em suporte áudio (história oral) a músicos, autores e compositores que marcaram a história da música e da cultura populares ao longo do século vinte, sendo quer a condução como os resultados dessas entrevistas fruto das investigações em que ambos decorreram — portanto, da leitura que foi feita sobre eles nesses contextos —, e do contributo inestimável destes protagonistas ao partilharem as suas memórias e ideias de acordo com as questões que lhes dirigi no decorrer de projectos culturais, propostas artísticas e investigações académicas.

 

Entre 2012 e 2015 a Mural Sonoro colaborou com o Museu Nacional da Música, muitos dos que hoje formam parte da história oral do projecto passaram por lá mensalmente (técnicos de som, directores musicais, compositores e intérpretes, construtores de instrumentos, pedagogos e outros investigadores da música e da cultura) em dois ciclos onde fiz curadoria ao longo de quase quatro anos: o ciclo de sessões sobre música e cultura populares e o ciclo Conversa ao Correr das Músicas.

 

O Museu Nacional da Música foi palco de uma aproximação única à sociedade e às comunidades científica e artística nesses anos, que é hoje em boa medida uma imagem cada vez mais forte do mesmo: lá promovemos sessões interessantes e de certo modo, pela abordagem, marcadas pelo ineditismo, pioneirismo, nestas práticas que procuram intersectar investigação, sociedade civil, comunidade musical.

 

Lá reflectimos com os sujeitos da história sobre as histórias e memórias contidas nos repertórios de que foram autores e intérpretes principais, sobre relação entre música e política, entre música e sociedade, sobre as transformações operadas nas tecnologias de produção musical e sonora, de organologia, de construção de instrumentos musicais, de economia e património imaterial.

Muitos destes encontros podem ser hoje consultados na Mural Sonoro, e têm servido de base de apoio a muitas teses e trabalhos de investigação.

 

Nos últimos três anos, resultado do leque crescente de solicitações, de parcerias estabelecidas quer com instituições de ensino como entidades culturais, de colaborações que se intensificaram, a Mural Sonoro foi-se abrindo e alargando os seus modelos de publicação e a forma: os dispositivos para essa reflexão no mundo digital (som, texto, vídeo), sem contudo deixar de ter a música e a cultura popular como vectores principais nem esquecer a sua principal missão e os seus objectivos iniciais.

 

Artigos de cariz cultural, artigos científicos, recensões críticas sobre práticas artísticas e/ou culturais, da literatura à música, da música ao cinema, que estabeleçam uma reflexão com temáticas da história contemporânea do século vinte e do século vinte e um passaram a ter aqui um lugar. Começámos a receber propostas de publicação e a convidar outros autores e investigadores para que aqui publicassem, nesta que continua a pretender ser uma webmagazine/plataforma não impregnada de calão científico, mas não light, acessível mas rigorosa, onde várias áreas disciplinares no universo das práticas artísticas, sociais e culturais têm espaço e tempo para se mostrarem.

 

Em Fevereiro de 2014 foi fundada a Associação Mural Sonoro, uma Organização Cultural sem fins lucrativos. Em 2015 RAPortugal, projecto artístico e de investigação da Associação Mural Sonoro, foi financiado pela DGArtes. Deste projecto resultou a publicação de um audiolivro com cerca de dezassete horas de inéditos testemunhos com aqueles que foram os primeiros agrupamentos de RAP a editar discograficamente em Portugal (RAPublicar a micro-história que fez história numa Lisboa adiada, Editora Caleidoscópio 2017), um ciclo de sete debates, projecções de filmes e realização de workshops em parceria com a Associação Cultural Moinho da Juventude sobre a temática do RAP que hoje também se pode consultar em acesso livre.

Em Agosto de 2014 o trabalho desenvolvido e divulgado na Mural Sonoro foi distinguido com o Prémio Megafone Sociedade Portuguesa de Autores expressando o júri "a imensa riqueza e o serviço público prestados pelos trabalhos apresentados nesta plataforma".

 

Durante o ano 2015 as entrevistas áudio (história oral 2012 - 2017) aqui disponíveis foram agregadas ao consórcio liderado pela The British Library Europeana Sounds.

Em Julho de 2018 estreámos o podcast Mural Sonoro, acerca de “mulheres na música, papéis, reportórios de luta e resistências”.

 

Esta webmagazine continua envolta de parcerias como as com os projectos desenvolvidos com o Instituto de História Contemporânea e a RTP como Memórias da Revolução ou Extrema Esquerda Porque Não Fizemos a Revolução?, a FCSH NOVA como Memória para Todos, ou a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Colóquio Variações sobre António), entre outros.

 

No ano 2020 não prometemos, acreditamos antes que continuaremos a ir por caminhos menos permeáveis à partilha fácil ou inconsiderada.

Enquanto cá estivermos a missão mantém-se, inoculada deste lado: retirar da penumbra outras objecções, os critérios, os processos e as argumentações, mesmo que isto da música e da cultura possa parecer ainda o parente pobre, acessório, ao pensamento político contemporâneo, cá estaremos para demonstrar o contrário, que ele pode ser ponto de partida e de chegada.

Artigo de Soraia Simões de Andrade

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