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Mundo cultural e teatral português solidariza-se com dramaturgo galego Carlos Santiago

Figuras portuguesas ligadas ao teatro e à cultura denunciam “cruzada político-religiosa” na Galiza e em Espanha que “quer crucificar” Carlos Santiago, acusado de “injúrias e ofensas" contra a Virgem do Pilar no tradicional pregão do entrudo da capital galega.

O dramaturgo e encenador galego Carlos Santiago foi escolhido para interpretar humoristicamente o tradicional “pregão do entrudo” em Santiago de Compostela, no dia 10 de fevereiro de 2018.

Desde então, Carlos Santiago tem vindo a ser alvo de uma feroz perseguição por parte, nomeadamente, quer da Arquidiocese de Saragoça, quer do Partido Popular espanhol, que o acusam de difamar e injuriar a Virgem do Pilar no pregão da capital galega.

Através de uma mensagem na sua conta pessoal do Twitter, Rajoy frisou que "os pregões deveriam servir para convidar todos à celebração, não para indignar a maioria".

Já o porta-voz adjunto do Partido Popular no município de Saragoça, Pedro Navarro, pediu ao autarca do município, Pedro Santisteve, que se pusesse em contacto com o seu homólogo de Santiago de Compostela, Martiño Noriega, para lhe exigir “respeito”.

Por sua vez, as paróquias e templos da Arquidiocese de Saragoça celebraram vigílias e diversos atos "de desagravo e reparo pelas injúrias e ofensas" contra a Virgem do Pilar no pregão da capital galega.

O Arquidiocese de Saragoça difundiu um comunicado, citado pelo El Mundo, no qual manifestou a "sua profunda repulsa e condenação ante as ofensivas palavras pronunciadas pelo pregoeiro do Carnaval da cidade irmã de Santiago de Compostela”. “Ditas manifestações não têm lugar numa sociedade democrática e de direito; não podem escudar-se numa pretensa cultura popular nem sequer na criatividade ou na sátira”, lê-se na missiva.

Também a Associação Caballeros de Nossa Senhora do Pilar, que tem como finalidade "a veneração à Virgem Maria e a vocação de estender o culto e a devoção", criticou o pregão, defendendo que o mesmo "ofende os sentimentos de milhares de pessoas em sua fé e carinho pela Virgen do Pilar".

A Associação exige "que o prefeito de Santiago de Compostela condene publicamente” o pregão e que o autor do mesmo, “cheio de desprezo pela comunidade cristã e por extensão por um ícone da identidade religiosa e cultural de Aragão e do resto de Espanha, se retracte das palavras pronunciadas".

A Associação de Advogados Cristãos anunciou que irá apresentar uma ação contra o humorista.

Autarca de Santiago de Compostela alvo de ameaças

O autarca de Santiago de Compostela, Martiño Noriega (Compostela Aberta), saiu em defesa do de Carlos Santiago, ao enquadrar o seu pregão no âmbito “da sátira e da crítica”.

“Muitas pessoas estão a pronunciar-se, mas poucas tiveram oportunidade de ouvir o pregão de Carnaval. Está contextualizado dentro da sátira e crítica de um espaço de Carnaval e dentro dos limites do humor”, afirmou Noriega.

Em conferência de imprensa, o autarca informou que recebeu ameaças contra si e contra a sua família, algumas delas de morte.

Sobre as críticas e as exigências do PP e do Arcebispado, Martiño Noriega afirmou que não está “disposto a promover uma caça de bruxas, a fazer de inquisição", assinalando que o pregoeiro é um dramaturgo prestigioso que fez uma intervenção humorística que "pode não agradar a todos”.

"Os limites do politicamente correto restringem a expressão artística, claramente. Não vou ser eu a crucificar Carlos Santiago", vincou.

Artistas e intelectuais da Galiza e de Portugal defendem a liberdade de expressão

Ao longo dos últimos dias, têm surgido várias manifestações de solidariedade com o dramaturgo e encenador galego.

Na Galiza, o manifesto 'A prol do Apóstolo Santiago' foi subscrito, entre outros, pelo escritor e ex presidente da Real Academia Galega Xosé Luís Méndez Ferrín, o histórico político Xosé Manuel Beiras e por figuras reconhecidas entre o panorama cultural galego, como a cantora Uxía Senlle, o ator e diretor artístico Xesús Ron, o cómico Miguel de Lira ou a escritora Inma López Silva.

Cerca de uma centena de entidades e figuras portuguesas ligadas ao teatro e à cultura também se solidarizaram com Carlos Santiago.

Em comunicado, denunciam a “cruzada político-religiosa na Galiza e na Espanha quer crucificar o dramaturgo e encenador galego Carlos Santiago, como seu herege infiel”.

“É intolerável a cruzada da nova inquisição que, depois desse momento, se tem abarricado contra o pensamento livre de um cidadão fraternal e socialmente interventivo, dramaturgo e homem do teatro”, escrevem, avançando que “Carlos Santiago é vítima de uma campanha medieval de perseguição perpetrada por novos tribunais do Santo Ofício cobardemente disfarçados de um carnaval vingativo que deseja vingar-se politicamente do dramaturgo com argumentos moralistas e com falsidades ignóbeis”.

“Por cada acólito que adere à campanha de mentiras e a calúnias contra Carlos Santiago, mil vozes respeitarão o dramaturgo pela sua coragem de prestar um inegável serviço contra a “caça às bruxas” que, a qualquer momento, pode fazer de cada um de nós um inimigo público quando expressamos opiniões distintas às hienas duma moralidade hipócrita”, acrescentam.

Para os subscritores do comunicado, “mais do que estar solidário com Carlos Santiago, importa afirmar o direito à liberdade de expressão e desmascarar uma estratégia política-religiosa ditatorial que quer crucificar quem não segue o seu ku klux klanismo”.

“Perante estas novas cruzes gamadas, qualquer um de nós é Carlos Santiago, pela ameaça que representam para a liberdade de expressão e direito a exprimirmos a nossa opinião”, rematam.

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