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Morreu Robert Fisk, o “jornalista destemido”

Arriscou a vida em Beirute, no Irão, Iraque e Afeganistão, cobriu os conflitos em Belfast e a Revolução em Lisboa. Mais do que notícias, os leitores de Fisk procuravam a sua leitura crítica dos acontecimentos que testemunhava.
Robert Fisk.
Robert Fisk. Foto Mohamed Nanabhay/Flickr

Faleceu esta sexta-feira em Dublin, aos 74 anos, um dos jornalistas que marcaram o seu tempo. E o seu tempo durou meio século ao serviço do jornalismo, por entre reportagens, artigos e crónicas que o tornaram no correspondente mais famoso da imprensa britânica.

A carreira de Robert Fisk começou no londrino Sunday Express e continuou no Times, onde cobriu os conflitos na Irlanda do Norte no início da década de 1970 e a Revolução em Portugal em 1974. Mas o tema que tornou Fisk uma referência no jornalismo veio depois, com a sua ida para o Médio Oriente, onde esteve no centro da guerra civil libanesa, na revolução iraniana, na invasão russa do Afeganistão ou na guerra entre o Irão e o Iraque. Deixou o Times em conflito com o magnata Rupert Murdoch em 1989 e passou para o Independent, onde se manteve até agora, com planos de regressar ao Médio Oriente muito em breve, depois de ter vivido mais de 30 anos em Beirute.

Fisk esteve em Bagdade na primeira Guerra do Golfo e não poupava críticas aos jornalistas que cobriam o ataque norte-americano sem sairem do quarto do hotel. Foi um dos poucos jornalistas ocidentais a entrevistarem Osama Bin Laden e fê-lo por três vezes nos anos 1990. O seu conhecimento profundo da região e das dinâmicas políticas em seu torno tornaram-no uma das vozes mais críticas da invasão do Iraque no princípio do século.

Em 2011, Fisk faz a cobertura das Primaveras Árabes e foi na Praça Tahrir, no Cairo, que a repórter Joana Ramiro - que então partilhava com o esquerda.net o seu diário da revolução no Egito - o encontrou por acaso. Fisk tinha-se perdido do seu fotógrafo no meio da multidão e pediu-lhe para tirar uma foto no local que ficou conhecido como o símbolo dos protestos.

“Destemido, intransigente, determinado e totalmente empenhado em desvendar a verdade e a realidade custe o que custar, Robert Fisk foi o maior jornalista da sua geração”, afirmou o diretor interino do Independent, Christian Broughton.

Também o presidente irlandês prestou homenagem a este britânico que escolheu a Irlanda como segunda pátria. “Muitas gerações, não apenas do povo irlandês mas por todo o mundo, confiavam nele para dar uma análise crítica e informada do que passava nas zonas de conflito e, mais importante ainda, das influências que eram talvez a fonte desse conflito”, afirmou este fim de semana Michael Higgins.

Ao longo da sua carreira, Fisk recebeu inúmeros prémios, entre os quais o de Repórter Internacional do Ano por sete vezes e o de Repórter do Ano por duas. Foram-lhe atribuídos graus honorários em várias universidades britânicas e irlandesas. Para além dos seus artigos que marcaram a história do jornalismo, Fisk escreveu vários livros sobre o conflito na Irlanda e o Médio Oriente, dos quais se destaca “A Grande Guerra pela Civilização”, editado em Portugal em 2009 pelas Edições 70. Produziu também em 1993 um documentário em três partes, intitulado “De Beirute à Bósnia”, para procurar “encontrar a razão de cada vez mais muçulmanos começarem a odiar o Ocidente”. Em Portugal, o esquerda.net republicou muitos dos seus artigos entre 2010 e 2016.

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