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Morreu Maria Velho da Costa

A escritora tinha 81 anos e era uma das Três Marias, co-autoras da obra de referência do feminismo português “Novas Cartas Portuguesas”.
Maria Velho da Costa em 2013. Foto de Pedro Nunes/Lusa.
Maria Velho da Costa em 2013. Foto de Pedro Nunes/Lusa.

Maria de Fátima de Bivar Velho da Costa nasceu a 26 de Junho de 1938 em Lisboa. Formou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mais tarde, especializou-se ainda em Grupo-Análise pela Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria.

Autora de inúmeras obras, tinha há muito inscrito o seu nome na história da literatura do país por ser co-autora, em 1972, com Maria Teresa Horta e Mara Isabel Barreno, de 'Novas Cartas Portuguesas', obra de referência do feminismo português e que afrontava o machismo da ditadura. As autoras foram perseguidas pelo livro que foi censurado pelo regime.

Outras obras suas como 'Maina Mendes' (1969), 'Casas Pardas' (1977) e 'Myra' (2008) são também marcantes no panorama literário.

Cultivou também a escrita de argumentos de cinema, tendo colaborado com João César Monteiro, Margarida Gil e Alberto Seixas Santos.

Para além da literatura, foi professora, presidente da Associação Portuguesa de Escritores, entre 1973 e 1978, adjunta do secretário de Estado da Cultura em 1979, leitora no King’s College da Universidade de Londres entre 1980 e 1987, Adida Cultural em Cabo Verde de 1988 a 1990. Depois trabalhou no Instituto Camões.

Em 2002, recebeu uma das maiores distinções culturais da língua portuguesa, o Prémio Camões.

As três Marias

Vivia-se em plena ditadura salazarista quando, em 1972, Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta lançaram as “Novas Cartas Portuguesas”.

O livro, que desafiava o conservadorismo do regime, foi apreendido três dias depois de ser lançado por ser ter sido considerado um “atentado à moral pública e aos bons costumes” e as autoras, que passaram a ser conhecidas como as Três Marias, foram perseguidas judicialmente, gerando uma onda internacional de solidariedade.

O processo arrastou-se. Tanto que a revolução dos Cravos o tornou inútil. A 7 de maio de 1974 teve contudo direito a uma sentença onde o juiz sublinhava que “o livro Novas Cartas Portuguesas não é pornográfico nem imoral. Pelo contrário: é obra de arte, de elevado nível, na sequência de outras obras de arte que as autoras já produziram”.

As “novas cartas” constituem-se como uma referência ao romance publicado em 1669 por Claude Barbin intitulado “As Cartas Portuguesas”, escrito na forma de cartas de amor da freira Mariana Alcoforado a um oficial francês.

A referência à freira do século XVII permite, através de vários textos em prosa e verso, cuja autoria de cada um nunca foi conhecida, colocar em várias perspetivas a defesa da emancipação feminina e denunciar o lugar para o qual se procurava remeter, na família e na sociedade, as mulheres.

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