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Morreu Diego Armando Maradona

Um dos melhores futebolistas de sempre, homem que trazia a esquerda tatuada no corpo e figura polémica, Maradona foi, nas palavras de Eduardo Galeano, “uma síntese ambulante das fraquezas humanas”.
Grafitti em homenagem a Maradona nas paredes de La Boca, Buenos Aires. Foto de Wagner Fontoura/Flickr.
Grafitti em homenagem a Maradona nas paredes de La Boca, Buenos Aires. Foto de Wagner Fontoura/Flickr.

“Um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses”, assim o descreveu o escritor Eduardo Galeano. Diego Armando Maradona morreu esta quarta-feira aos 60 anos em Buenos Aires de paragem cardo-respiratória, depois de ter estado internado no início do mês devido a problemas com um bypass gástrico que fizera em 2005. A Argentina decretou três dias de luto nacional.

A magia do futebol chama-se Maradona

O futebolista nasceu a 30 de outubro de 1960 numa família pobre de Buenos Aires. Mais tarde contou sobre essa pobreza que apenas aos 13 anos percebeu que a mãe não tinha problemas no estômago, apenas dizia frequentemente que não queria comer e lhe doía a barriga porque não havia comida para todos.

Com nove anos entra na equipa juvenil dos Argentinos Juniors, os Cebollitas, e desde logo se faz notar. É pelo mesmo clube que se estreia na primeira divisão argentina poucos dias antes de completar 16 anos. Com essa idade passou a vestir a camisola da seleção nacional, mas apesar de ser já admirado, a jovem estrela fica de fora das escolhas para o campeonato do mundo de 1978. No ano seguinte é a figura de destaque no mundial de sub-20 no Japão, que a sua equipa ganha.

Ao Argentinos Juniors segue-se o Boca Juniors. A este o Barcelona entre 1982 e 1984. A seguir o Nápoles, onde a sua chegada à cidade é apoteótica. Nele toda uma região apostava o orgulho do sul contra o norte mais rico e industrializado. Deixou marca até hoje, com a cidade a sair hoje às ruas em sua homenagem. Em 1992 passa pelo Sevilha e depois pelo Newell's Old Boys por uma época.

1986 é o ano em que se consagra definitivamente como um dos melhores jogadores de futebol da história do desporto. No Mundial do México marca dois golos históricos contra a Inglaterra nos quartos de final. Um teve “a mão de Deus”, nas suas palavras, outro teve a assinatura de Maradona driblando vários adversários desde o meio-campo até à baliza contrária. Sendo a primeira vez que as duas equipas se encontraram depois da guerra das Malvinas, foram sentidos no seu país como mais do que golos.

Na parte final da sua carreira passou a ser treinador de vários clubes: Deportivo Mandiyú (1994), Racing Club (1995), Al Wasl (2011-2012), Al Fujairah (2017-2018), Dorados de Sinaloa (2018-2019) e Gimnasia y Esgrima La Plata, a equipa que atualmente treinava. Foi ainda brevemente, em 2008, selecionador nacional da Argentina.

Se como treinador não alcançou grande reconhecimento e sucesso, continuava a ser uma figura tão adorada pelo seu talento como futebolista quanto odiada pelas polémicas em que se envolvia. Não poupava críticas às estruturas dirigentes do futebol, envolveu-se em várias disputas judiciais, foi acusado de agredir fotógrafos.

A isto soma-se um caso de violência doméstica, quando foi filmado pela sua ex-namorada Rocío Oliva a bater-lhe, e outro de abuso sexual denunciado por uma jornalista russa.

Também o abuso de álcool e a toxicodependência contribuem para que possa ser descrito como “uma síntese ambulante das fraquezas humanas”, como dizia Galeano. Em 17 de março de 1991 é suspenso por 15 meses. Em 1994 é apanhado num controlo antidoping e expulso da seleção argentina. “Era, sou e serei um viciado em drogas”, afirmou, chegando a sofrer de uma overdose em 2000. Também esteve internado na ala psiquiátrica de um hospital.

A esquerda tatuada no corpo

El Pibe, como era conhecido, não foi apenas uma figura do mundo do futebol. Fez questão de se envolver politicamente, apoiando sempre a esquerda latino-americana e denunciando o imperialismo norte-americano.

Tinha uma tatuagem de Che Guevara e outra de Fidel Castro, com o qual conviveu em várias ocasiões, que não se cansou de apoiar e a quem chamou “segundo pai”. Em Cuba esteve internado por causa das suas dependências. Também apoiou Hugo Chávez. E, ao seu estilo, declarou-se face às tentativas de golpe de Estado na Venezuela “chavista até à morte”, “para lutar contra o imperialismo”. Aquando do processo de destituição da presidente Dilma Rousseff e da prisão de Lula da Silva, declarou-se “soldado de Lula e Dilma”.

Abraçou ainda muitas outras causas. Como por exemplo, a candidatura ao prémio Nobel da Paz das Avós da Praça de Maio, o grupo de mulheres que procuram crianças que a ditadura argentina fez “desaparecer”.

Em 2005, o craque entrevistou-se para o seu programa, “La noche del Diez”. Perguntou-se então o que diria quando chegasse a sua morte. Respondeu: “Obrigado por ter jogado futebol, porque foi o desporto que me deu mais alegria, mais liberdade, é como tocar o céu com as mãos. Obrigado à bola. Sim, meteria uma lápide a dizer: obrigado à bola.”

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