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Morrer devagarinho não é para mim

A eutanásia não invalida os cuidados paliativos e vice-versa. O que está provado é que em países em que a eutanásia se encontra já despenalizada como Bélgica, Suíça e Holanda se verificou um aumento dos doentes com acesso aos cuidados paliativos. Artigo de João Barreto.
 A eutanásia será um direito!! Não uma obrigação, não será imposta a ninguém. Será apenas para aqueles que a solicitarem e que como eu acham não ser capazes de suportar todo o sofrimento que uma doença crónica e terminal lhes trará
A eutanásia será um direito!! Não uma obrigação, não será imposta a ninguém. Será apenas para aqueles que a solicitarem e que como eu acham não ser capazes de suportar todo o sofrimento que uma doença crónica e terminal lhes trará

Não é meu hábito fazer grande dissertações nesta plataforma [facebook], mas dado a ter já visto tantos argumentos, uns a favor outros contra, outros a roçar o ridículo, outros cómicos e alguns até criminosos, venho aqui dizer porque considero que no dia 20 de Fevereiro a eutanásia deve ser despenalizada e regulamentada. Lamento que algumas das coisa que possa dizer choquem... mas contra a desinformação e desconhecimento fica a verdade.

1 - A minha vida é antes de tudo minha. Defendo o direito à autodeterminação na vida e, consequentemente na morte, pois esta faz parte da vida;

2 - A eutanásia é, etimologicamente falando, " a boa morte", no entanto acho que todos nós preferimos a vida à morte. Mas é bom que lembremos, o que Kant disse "a morte é a indelével certeza da condição humana";

3 - Os cuidados paliativos, são cuidados que tentam minimizar/diminuir o sofrimento numa situação de doença crónica e/ou terminal; contudo não garantem o sofrimento ZERO, apenas são um tipo de cuidados que permitem melhor suportar os sofrimentos trazidos pela doença crónica e pela agonia de fim de vida;

4 - Era bom que todos soubessem quais são os "sofrimentos" que advém do fim de vida; Na verdade são um conjunto de sintomas transversais a todas as doenças crónicas e irreversíveis, entre eles: a dor; a falta de ar; o cansaço extremo; vómitos incoercíveis; soluços; incontinência urinária e intestinal; degradação de todas as funções do corpo (definhamento em vida se quiserem), dependência de outros, roubo da identidade e do eu...etc etc. Os cuidados paliativos assumem-se como a saída para minimizar todos estes sintomas e não se pode negar o seu valor, mas não é verdade que assegurem o sofrimento ZERO e promovam a dignidade na morte;

5 - A sedação profunda é uma das "ofertas" dos cuidados paliativos. No entanto, é bom que se saiba que não acelera o processo de morte, e este (chamado de agonia) pode prolongar se por dias, semanas e até meses em casos extremos.

6 - A eutanásia não invalida os cuidados paliativos e vice-versa. Trata-se pois de uma opção. O que está provado é que em países em que a eutanásia se encontra já despenalizada como Bélgica, Suíça e Holanda se verificou um aumento dos doentes com acesso aos cuidados paliativos, um reforço de recursos na área uma melhor procura e informação sobre o tema;

7 - Desenganem-se e saibam que a obstinação terapêutica e distanásia são uma realidade. Para quem não saiba a que me refiro é a manutenção da vida a qualquer custo;

8 - No que me diz respeito eu não sou santo e não nasci para expiar os pecados do mundo. Não quero sofrer, não quero ser vítima da obstinação terapêutica e distanásia. Também para mim não serve, que face a uma doença terminal, a única opção que tenha seja sofrer/agonizar estoicamente até ao fim. Não! Quero partir de forma rápida, indolor e digna. Quero partir enquanto ainda sou eu, e consciente do que estou a fazer ou a solicitar.

9 - A lei de que se fala é até bastante restritiva, em comparação à de outros países. Para que alguém possa pedir a antecipação da morte terá que cumprir com vários critérios, entre eles: estar consciente, estar face a uma condição de doença crónica e irreversível, a sua vontade terá de ser comprovada/ atestada por pelo menos 5 avaliações médicas (incluindo psiquiatria); é pois evidente que não é uma lei para "matar velhinhos" como alguns energúmenos tentam fazer crer;

10 - A eutanásia será um direito!! Não uma obrigação, não será imposta a ninguém. Será apenas para aqueles que a solicitarem e que como eu acham não ser capazes de suportar todo o sofrimento que uma doença crónica e terminal lhes trará. Por isso não sejam hipócritas.

Termino esperando que dia 20 de Fevereiro me seja concedido esse direito. O direito de não morrer devagarinho, o direito ao sofrimento ZERO, o direito a uma morte rápida, indolor e digna. Que vença o direito à auto-determinação.

Artigo de João Barreto, enfermeiro

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