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Moradores do Jacarezinho protestam contra chacina: “Parem de nos matar!”

Esta sexta-feira, um dia após a operação policial na favela do Rio de Janeiro, que deixou pelo menos 28 mortos, moradores e grupos de defesa dos direitos humanos exigiram “Justiça para o Jacarezinho”.
Foto do Movimento Pare de Nos Matar.

Ativistas e familiares das vítimas da chacina concentraram-se em frente à esquadra da polícia para deixar dois apelos: “Justiça para Jacarezinho”; “Parem de nos matar”.

"A pena de morte só é permitida no Brasil em situação de guerra. E, salvo engano, o Brasil não está em guerra. A não ser que haja uma guerra do Brasil contra o seu próprio povo. E aí é um povo muito bem delimitado. É um povo preto, pobre, favelado e periférico", disse, ao El País, Joel Luiz Costa, advogado do Instituto de Defesa da População Negra (IDPN) e morador do Jacarezinho.

Os moradores queixam-se que a favela do Jacarezinho, onde o governo só entra em períodos eleitorais ou para promover operações como esta, tem sido abandonada à sua sorte. No próprio dia do protesto, representantes das favelas do Rio de Janeiro reuniram-se para elaborar propostas que reivindicam políticas públicas de educação e desenvolvimento destinadas aos jovens que vivem em áreas dominadas por fações criminosas.

Cenas de terror, execuções policiais e um banho de sangue indiscriminado

Os moradores do Jacarezinho descrevem cenas de verdadeiro terror, com a invasão de casas, execuções policiais e um banho de sangue indiscriminado.

Um cruzamento de informações promovido pelo El País revela que a maioria das vítimas não tinha qualquer relação com a investigação que motivou a operação da Polícia Civil, a mais letal da história do Rio de Janeiro.

Uma das vítimas mortais é um homem que foi encontrado sentado numa cadeira de plástico num beco da favela, baleado com dois tiros. Não existia qualquer arma na sua posse ou sequer nas imediações.

Ainda que as vozes que exigem o apuramento de responsabilidades continuem a crescer, o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, afirmou esta sexta-feira que não há dúvidas sobre os que morreram: “Tudo bandido”.

Também a polícia nega as evidências, desmentindo que tenha cometido abusos na operação: “As investigações continuam, outras operações virão”, afirmou o delegado Rodrigo Oliveira.

É precisa uma “rigorosa investigação sobre a ação policial”

Na quinta-feira, a organização não-governamental Human Rights Watch (HRW) solicitou ao Ministério Público brasileiro para iniciar "imediatamente uma investigação minuciosa e independente" à operação policial no Jacarezinho.

Também o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos deu conta de alegadas tentativas por parte das forças de segurança no sentido de impedirem uma investigação independente, que, segundo o porta-voz da agência, Rupert Colville, "confirma uma longa tendência do uso desnecessário e desproporcional da força nas favelas".

O próprio ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, frisou que os factos na favela do Jacarezinho “parecem graves” e que “há indícios de atos que, em tese, poderiam configurar execução arbitrária”. A declaração, citada pelo El País, consta nos ofícios enviados para a Procuradoria Geral de Justiça do Rio de Janeiro (PGJ) e Procuradoria Geral da República (PGR), tendo sido já solicitados esclarecimentos ao governador Castro e ao Ministério Público do Rio.

O PSOL, por sua vez, quer ver criado um comité na Câmara para apurar os factos. A líder do PSOL na Câmara dos Deputados, Talíria Petrone (RJ), repudiou a ação policial. "Não é possível que pessoas negras e faveladas continuem a ser alvo dessa política genocida", afirmou.

"Mais de 25 pessoas foram mortas pelo braço armado do Estado, que continua o seu plano genocida. O governador do Rio e o Procurador Geral de Justiça do Estado precisam de iniciar uma rigorosa investigação sobre a ação policial e dar-nos uma reposta sobre essa barbárie. Não só a nós, mas às famílias, aos moradores, cidadãos e cidadãs do Rio", continuou Petrone.

O documento também é assinado pela bancada do PSOL na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, pelo líder do partido na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, Tarcísio Motta, e pela deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ).

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