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Míkis Theodorákis (1925-2021)

Tornou-se famoso mundialmente com a banda sonora do filme “Zorba, o Grego”. Antifascista e opositor à austeridade que assolou a Grécia, Theodorakis foi também uma figura marcante e contraditória em vários momentos da vida política grega.
Mikis Theodorakis em 1973 em Hamburgo. Foto de Heinrich Klaffs/Flickr.
Mikis Theodorakis em 1973 em Hamburgo. Foto de Heinrich Klaffs/Flickr.

A sua música era conhecida mundialmente, o seu nome talvez não. A banda sonora de “Zorba, o Grego” tornou-se um ícone cultural. Míkis Theodorákis, o homem que a compôs, foi também uma figura política marcante na Grécia: resistente antifascista e militante comunista na juventude, foi deputado e até ministro. Mais tarde foi uma das vozes que se opôs à austeridade da Troika. Morreu esta quinta-feira aos 96 anos numa clínica onde estava internado desde 2019.

Michail Theodorákis nasceu em 29 de julho de 1925 em Chios mas a sua infância é passada entre várias cidades e, por influência da sua mãe, já então manifestava o desejo de fazer música.

Dá o seu primeiro concerto aos 17, mas as circunstâncias não vão deixar que a sua carreira musical seja percurso linear. Aos 18 anos junta-se à Frente de Libertação Nacional para lutar contra a ocupação nazi. Toma depois o lado dos comunistas na guerra civil que se segue ao final da II Guerra Mundial. Por isso, é deportado para o campo de prisioneiros de Macronissos durante três anos e torturado, tendo sido duas vezes enterrado vivo.

Apesar disso, entre 1943 e 1950, e por entre clandestinidade, exílio e prisão, consegue terminar o Conservatório de Atenas. Em 1954, estuda no Conservatório de Paris, cidade onde permanece até 1959. Em 1957 venceu o prémio do Festival de Música de Moscovo, com Dmitri Shostakovich a presidir ao júri. A sua música começa então a ganhar destaque. Datam desta época as suas primeiras bandas sonoras para filmes de realizadores britânicos. A abertura que compõe para Lua de Mel de Michael Powell torna-se parte do reportório dos Beatles.

Em 1960 regressa à Grécia. Cria uma orquestra, musica poetas gregos, dá inúmeros concertos. O assassinato de Gregoris Lambrakis pela extrema-direita traz-lhe protagonismo político. Funda e dirige, na sequência do crime, a Juventude Democrática Lambrakis que se torna uma organização de massas. Em 1964 é eleito deputado pela EDA, Esquerda Democrática Unida, o único partido de esquerda admitido depois da guerra civil e de que Lambrakis tinha sido deputado.

O golpe de Estado dos coronéis instaura a ditadura em 21 de abril de 1967, gerando uma nova reviravolta na sua vida. O “decreto do exército número 13” proíbe a sua música e criminaliza até ouvi-la. Theodorakis passa à clandestinidade mas é preso a 21 de agosto, depois exilado para Zatouna, a seguir preso no campo de concentração de Oropos. Aí volta a ser torturado e, em 1970, contrai tuberculose.

O seu estado gera uma campanha de solidariedade internacional que obriga a ditadura a libertá-lo e enviá-lo para o exílio. Fica hospitalizado em Paris e, passados três meses, está no palco à frente da London Symphony Orchestra num concerto em que é aclamado. Percorre o mundo durante quatro anos com espetáculos que têm como objetivo juntar fundos para a luta pela democracia. Encontra-se com Salvador Allende e Pablo Neruda, de quem depois musica o Canto General, Arafat, Nasser, Tito e vários outros líderes mundiais.

Quando a ditadura cai, em 1974, regressa ao país triunfantemente. Torna-se deputado pelos comunistas gregos e é seu candidato à Câmara de Atenas em 1978. Mas abandona o partido em 1988. No ano seguinte, é candidato independente pelos conservadores da Nova Democracia sob o pretexto de acabar com a crise política gerada pelo final do governo socialista de Andreas Papandreou. Chega a ser ministro sem pasta no governo de Konstantínos Mitsotákis mas, em 1992, demite-se.

Em 1993 torna-se diretor da orquestra sinfónica da Rádio e Televisão Helénica. Politicamente é essencialmente à esquerda que continua o resto do seu percurso político. Opositor à guerra do Kosovo em 1999 e à invasão norte-americana do Iraque em 2003, é um dos que dá a cara também quando a austeridade da Troika afunda a Grécia. Em 2011, num comício perante 10.000 pessoas em Atenas, critica as políticas do Fundo Monetário Internacional e das instituições europeias.

Em 2015, lança um repto ao Syriza antes das eleições que este partido ganhará: apoia-lo-ia se este apresentasse o compromisso pré-eleitoral de tomar como primeira medida a recusa do Memorando da Troika.

O seu percurso é também alvo de críticas por declarar em 2011 numa entrevista que é “anti-semita e antisionista” considerando que “os judeus americanos” estavam por trás da crise económica mundial. Perante o escândalo causado pelas suas palavras, retrai-se num carta ao Conselho Geral Judaico na Grécia: dizer-se “anti-semita” teria sido um erro cometido no final de uma entrevista muito cansativa, garantiu, acrescentando que amava o povo judaico, continuando a criticar as políticas do Estado de Israel em favor da Palestina.

Para além da famosa banda sonora de “Zorba, o Grego”, de 1964, Theodárikis compôs outras marcantes: a de “Z” de Costas-Gavras” em 1969 ou a de “Serpico” de Sidney Lumett em 1973 são apenas as mais famosas. Com o filme de Costa-Gavras, ganha um Bafta para melhor música de filme. O tema principal é Antonis, da 'Trilogia de Mauthausen', um conjunto de árias feitas a partir dos poemas de Iakovos Kambanellis, sobrevivente do campo de concentração nazi com aquele nome. A música ressoa noutras paragens. Lembra o New York Times que era cantada em Cabul em 2001 contra os talibãs.

E nem só de bandas sonoras se faz a sua música que atravessa estilos e gerações. Também cria, por exemplo, músicas para várias tragédias clássicas, Medeia, Electra e Antígona, dedica-se à música clássica e tradicional. Em 1999, tinha deixado de dar concertos mas continuou a compor.

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