México: O início do movimento estudantil de 1968

31 de July 2018 - 23:15

Os protestos estudantis começaram 72 dias antes do massacre de 2 de outubro, em que a polícia e o exército mataram centenas de estudantes a tiro. Antes de outubro, as forças armadas ocuparam e tomaram estabelecimentos do Ensino Superior.

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Os protestos estudantis começaram 72 dias antes do massacre de 2 de outubro
Os protestos estudantis começaram 72 dias antes do massacre de 2 de outubro

A 22 de julho de 1968 os polícias granadeiros (corpo especial de polícia) reprimiram um confronto entre alunos da Vocacional 5 do Instituto Politécnico Nacional (IPN) e da Preparatória particular Isaac Ochoterena. Os agentes irromperam nas Vocacionais 2 e 5, ferindo professores e alunos. Três dias depois, a Universidade Nacional Autónoma de México (UNAM) declarou-se em greve por tempo ilimitado.

Depois da repressão do corpo especial da polícia sobre jovens do IPN e da Preparatória 2 da UNAM, bem como sobre membros do Partido Comunista a 26 de julho de 1968, os estudantes do IPN em solidariedade declararam uma paralisação da atividade. Num abaixo-assinado pediram a libertação dos estudantes detidos, assim como a indemnização dos feridos.

México 1968: Manifestação dos estudantes a 25 de julho
México 1968: Manifestação dos estudantes a 25 de julho

A 29 de julho, o conflito estendeu-se por toda a Cidade de México, apesar de as autoridades pretenderem acalmar a situação antes dos Jogos Olímpicos que se iniciaram a 12 de outubro desse ano. Houve autocarros queimados, paralisação do transporte público, além disso, as autoridades de segurança reportaram a existência de artefactos explosivos e combustível em escolas.

Neste contexto de repressão e descontentamento em toda a comunidade universitária do país, o Exército irrompeu na Escola Nacional Preparatória 1 (o atual Colégio de San Ildefonso): com um tiro de bazuca destruiu a porta, para assim iniciar a presença militar no conflito, autorizada pelo então presidente Gustavo Díaz Ordaz. Não obstante, o secretário de Defesa Nacional, Marcelino García Barragán afirmou que o atentado foi da responsabilidade dos estudantes: uma explosão interna.

A relevância do movimento foi realçada quando, a 1 de agosto o reitor da UNAM, Javier Barros Sierra, encabeçou uma manifestação de cerca de 80 mil estudantes universitários e politécnicos, em protesto pela repressão e reivindicando a libertação dos estudantes presos. Na avenida dos Insurgentes, a maior autoridade universitária proclamou a frase “une-te, povo”. Então formou-se o Conselho Nacional de Greve (CNH) para estabelecer que as escolas estarão em greve; terá três representantes por escola, e para recusar a presença de organizações alheias à comunidade escolar.

Nesse momento, foram assentes os seis pontos do abaixo-assinado:

  1. Liberdade de todos os presos políticos.
  2. Revogação do artigo 145 do Código Penal Federal.
  3. Dissolução do corpo de granadeiros.
  4. Destituição dos chefes da polícia Luis Cueto, Raúl Mendiolea e A. Frias.
  5. Indemnização aos familiares de todos os mortos e feridos desde o início do conflito.
  6. 6. Esclarecimento das responsabilidades dos funcionários públicos culpados dos factos sangrentos.

No entanto, o Exército continuou as ocupações de escolas, praças públicas e ruas do centro da capital do país. Isto acontece num ambiente de detenções arbitrárias, assassinatos e ataques a estudantes e à sociedade civil.

Manifestação de 1 de agosto de 1968 na Cidade do México, encabeçada pelo reitor da UNAM, Javier Barros Sierra
Manifestação de 1 de agosto de 1968 na Cidade do México, encabeçada pelo reitor da UNAM, Javier Barros Sierra

Barros Sierra manteve as suas reivindicações e denunciou que não recebeu notificação da ocupação militar por parte das autoridades, além disso denunciou também que foi vítima de injúrias e de difamação. Até que anunciou a sua renúncia a 23 de setembro de 1968.

“Ao decidir-se a defender a autonomia, Barros Sierra legitimou o movimento estudantil e lançou-o por uma direção desconhecida: tirou-o do ‘ghetto’ dos radicais e incorporou-o no terreno dos princípios da defesa da autonomia e da Constituição… Já não era um pequeno grupo de estudantes radicais, mas a massa plural de cidadãos que defendem princípios face à brutalidade policial”, diz o analista Sergio Aguayo no livro “1968. Os Arquivos da violência”.

A 1 de outubro desse ano, o Exército desocupou todas as instalações da UNAM e o IPN que manteve tomados, como um movimento estratégico prévio ao massacre do dia seguinte na Praça das Três Culturas.

Artigo publicado em aristeguinoticias.com, em 2013. (Com informação de Proceso e de La noche de Tlatelolco, 1968. Los Archivos de la violencia)

 

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