México e Espanha desentendem-se sobre a conquista

27 de March 2019 - 10:25

López Obrador, presidente do México, enviou uma carta ao rei de Espanha em que pede que as violências cometidas no processo de invasão colonial do seu país sejam reconhecidas. Do lado do espanhol, a iniciativa não foi bem vista.

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Quadro de Miguel Gonzales (pintor do século XVII/XVIII) representando a conquista do México. Wikicommons.

O presidente do México diz que quer abrir portas a “uma reconciliação plena” entre os dois países. Para isso, Andrés Manuel López Obrador, conhecido como AMLO, escreveu uma carta no início deste mês que tinha como destinatário Filipe de Borbon. A resposta não veio do monarca mas do governo espanhol e não foi enviada por carta mas divulgada em comunicado. O governo espanhol diz que “lamenta profundamente” a publicação da carta e que “refuta com firmeza” os seus argumentos. Por isso, fez saber que não tenciona pedir desculpas pelo que sucedeu na conquista das Américas.

O pretexto da polémica é o 500º aniversário da chegada ao México de Hernán Cortés, conquistador espanhol. O evento visto a partir do México é uma atrocidade. E AMLO divulgou na sua conta de twitter um vídeo feito a partir de Centla, local das comemorações da batalha contra os espanhóis, ao lado da sua mulher, Beatriz Gutiérrez Müller, que faz parte do Conselho de Assessoria da iniciativa de Memória Histórica e Cultural do México. A mensagem central é mesma da missiva a Filipe de Borbon: pede-se que “se peça perdão aos povos originários pelas violações ao que agora se conhece como direitos humanos: houve matanças, imposições... a chamada conquista fez-se com a espada e com a cruz”. A dimensão religiosa desta invasão fez com que uma outra carta tivesse sido endereçada ao Papa Jorge Bergoglio, que adotou o nome de Francisco, cujo conteúdo é desconhecido.

Na sua carta ao rei, AMLO esclarece que o pedido de desculpas não é acompanhado por nenhum pedido de “ressarcir pecuniário do dano pelos agravos que foram causados por Espanha, nem tem o propósito de proceder de forma legal ante os mesmos”. Trata-se assim apenas de admitir “a responsabilidade histórica” “sem ignorar nem omitir as ilegalidades e os crimes que provocaram” e pedir desculpas.

López Obrador pretende que seja criado um roteiro de reconciliação até ao ano de 2021, data dos 500 anos da queda de Tenochtitlán. E não se limita a pedir desculpas externas. Fá-lo também internamente, alegando que “depois da colónia houve muita repressão contra os povos originários, foi lamentável o que se passou com o extermínio dos yaquis ou com os maias.”

Para além de lamentar o conteúdo da carta, o governo socialista de Sánchez parece ter optado por desviar as atenções da efeméride sangrenta comemorando uma outra: os 80 anos da chegada dos refugiados republicanos ao México, na sequência da derrota na Guerra Civil. Não deixou contudo de responder à letra: “a chegada, há 500 anos, dos espanhóis às atuais terras mexicanas não pode julgar-se à luz de considerações contemporâneas. Os nossos povos irmãos souberam sempre ler o nosso passado.”

A esta posição o ministro dos Assuntos Exteriores espanhol, Josep Borrell, somou a comparação com as invasões napoleónicas alegando que Espanha também não pede desculpas a França “pelo que fizeram os soldados de Napoleão quando invadiram Espanha.” Por isso, considerou extemporâneo o pedido de desculpas mexicano.