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"A mentira mais estapafúrdia é a de que existe a tentativa de propagar de propósito a pandemia"

Que tipo de fake news circulam neste momento em Portugal relacionadas com a pandemia da Covid-19, quem as lança e porquê? O esquerda.net assinala o dia das mentiras com uma entrevista a Gustavo Cardoso, que as investiga todos os dias.

Gustavo Cardoso é sociólogo, professor catedrático de Ciências da Comunicação no ISCTE e coordenador do MediaLab/CIES-ISCTE.

O MediaLab/CIES-ISCTE é um grupo que investiga e analisa as fake news nas redes sociais.

No Media Lab lançaram um relatório inicial, que concluía que a desinformação sobre a Covid-19 não estava a ter um papel muito relevante em Portugal. Isso foi no dia 10 de Março, desde então como é que a questão tem evoluído?

Sim. Aquilo que acabou por acontecer foi que nós tivemos dois momentos chave na leitura das questões da desinformação. O primeiro, que antecede o momento de mortes e o momento do crescimento do número de infetados, tem a ver com a parte de que nós não encontramos muita dinâmica desinformativa, uma ou outra parte sobre teoria da conspiração, laboratórios militares chineses envolvidos na disseminação.

Ao primeiro momento, sem grande dinâmica desinformativa, seguiu-se uma fase de explosão de desinformação, muito associada aos primeiros dias, daquilo que é a pandemia em Portugal

Depois, uma fase em que há uma explosão de desinformação que está muito associada aos primeiros dias, daquilo que é a pandemia em Portugal. Portanto, mudou completamente e essa mudança tem a ver precisamente, creio eu ou aquela que é a hipótese que nós colocamos, com uma conjugação de fatores. Por um lado, para haver desinformação, tem de haver interesse e preocupação por parte das pessoas. Quanto maior a preocupação, maior a probabilidade de haver transmissores dessa desinformação, porque aquilo que nós assistimos também foi a utilização muito grande do whatsapp, uma não tão grande utilização do facebook, ou de outras plataformas de redes sociais mais comuns a encontrar informação, nomeadamente aquelas de caráter mais político, que nós já tínhamos visto nas eleições, mas que para a questão do Covid estavam mais ou menos tranquilas. Portanto, foi um outro tipo de desinformação com, provavelmente, outro tipo de protagonistas a que acabamos por assistir. Obviamente que é desinformação. Embora, em registo diferente porque era uma desinformação essencialmente em grande quantidade de áudio, que era uma coisa que nós ainda não tínhamos visto, até aquele momento, em Portugal.

Quem é que grava essas mensagens áudio? E porque é que elas são tão eficazes?

Essa é aquela pergunta à qual não podemos responder, exceto colocando hipóteses, porque uma das caraterísticas da tecnologia que mais difunde estas mensagens é o whatsapp, em que é praticamente impossível descobrir a origem. Excepto se for possível identificar a voz e alguém conhecer a pessoa que está a fazê-lo - é um trabalho que é muito demorado e não compete, claramente, à parte científica da análise da desinformação.

Pode ser algo que tenha a ver com as forças de segurança, sejam elas quais forem, e policiais. Podem efetivamente perseguir, se entenderem que existe alguma intenção clara de promover o pânico de uma forma organizada ou desorganizada. Mas aquilo que são as hipóteses que nós colocamos são aquelas que estão normalmente associadas a uma parte da desinformação. Por um lado, nós assistimos a pessoas verdadeiramente em pânico, sejam elas profissionais de saúde ou não, e isto é importante dizer porque ninguém está preparado para lidar com uma situação de pandemia. As pessoas quando estudam, quando têm a sua parte profissional, após as universidades, sejam médicos, enfermeiros ou outros profissionais de saúde, não estão preparados para isto. Assim como não estão preparados para estarem num teatro de guerra, é algo que ao primeiro embate é obviamente de uma lógica humana, todos nós lidamos com as questões de pânico e acontece algo aí em que nos posicionamos, é a forma de lidar, primeiro perceber. E depois temos que, efetivamente, baixar esses níveis de ansiedade e perceber as coisas tal como elas são.

aquilo que tivemos foi um conjunto de pessoas que receberam coisas e nos estados de ansiedade em que se encontravam começaram a passar a outras, e a outras, ganhando uma proporção a que não estávamos habituados

Portanto, houve algumas mensagens que aparentemente foram gravadas por profissionais de saúde, no quadro de aflição em que se encontraram, a lidar com uma coisa que nunca tinham estado preparados antes. Mas, depois temos também aquelas pessoas que quiseram utilizar o disfarce de profissionais de saúde, e essas são a maioria, para poder passar uma determinada situação de pânico e dizendo “vai tudo fechar”, “vai acabar tudo”, “corram”, “façam já porque vamos todos ficar trancados em casa”, “o governo já diz que vai fazer isto”, “o Infarmed já diz que vai fazer aquilo”. Portanto, com uma clara lógica, efetivamente, aí de valorizar a sua posição individual e criar ansiedade nos outros. Não há aparentemente um nexo que se possa dizer que houve uma lógica organizada para criar o pânico e que há organizações, sejam elas quais fossem, que estivessem por detrás. Aparentemente, tudo parece muito mais artesanal e tudo parece normal, excepto que ocorre num quadro de uma pandemia.

Há pessoas a criar desinformação, há pessoas a criar burlas, permanentemente, 24 sobre 24 horas no Mundo. Algumas delas utilizam as dimensões digitais, outras razões pelas quais as fazem pode ter a ver com o foro psiquiátrico, até questões de querer pressionar os outros, querer dizer que “eu sei mais do que toda a gente”, “eu estou bem informado”, portanto em busca de uma valorização do seu capital simbólico perante as suas relações. Portanto, tivemos de tudo.

O que não fez noutros momentos ganhar este ímpeto de desinformação era o facto de as pessoas não estarem em sintonia com uma mesma preocupação, ou seja, o estado de espírito da sociedade portuguesa era de preocupação e foi isso que foi agarrado por quem iniciou, pelas mais diferentes razões, estas partilhas de informação falsa, de informação exagerada, de informação não comprovada.

E com a tecnologia whatsapp, ou nas tecnologias associadas às redes sociais mais tradicionais, como o facebook, o twitter ou o instagram, somos nós que somos os veículos de transmissão. Tal como o vírus, ele passa de pessoa para pessoa, a desinformação passa de pessoas para pessoas. E aquilo que nós tivemos foi um conjunto de pessoas que receberam coisas e nos estados de ansiedade em que se encontravam começaram a passar a outras, e a outras, e a outras, e a outras ganhando uma proporção que nós não estávamos habituados, nem sequer no quadro da desinformação política no tempo de eleições.

 

No relatório de 17 de março destacam o crescimento de grupos do Facebook criados para partilhar informação sobre o Covid-19. Os 12 grupos monitorizados tinham mais de 650 mil membros e geraram mais de 789 mil interações por semana. O que pode vir a acontecer com esses grupos?

[a busca de informação levou a] uma explosão enorme de crescimento em grupos que foram criados e que passados poucos dias já tinham meio milhão de utilizadores

Da mesma maneira que houve desinformação, também existiu procura de entreajuda e partilha de informação credível. As pessoas num momento inicial foram em busca das tecnologias que fazem parte do seu quotidiano, como o facebook, espaços onde encontrassem informação válida dada por profissionais de saúde, ou onde fossem partilhadas informações verificadas, de algum tipo. E isso fez com que existisse uma explosão enorme de crescimento em grupos que foram criados e que passados poucos dias já tinham meio milhão de utilizadores.

Essa dinâmica é normal e é a demonstração que, efetivamente, as tecnologias não são nem boas nem más, mas também não são neutras. Depende de quem as apropria e ao serviços do que é que esses usos são colocados. É o outro lado das redes, as redes não têm apenas a parte desinformativa, e a parte de notícias falsas, e tentativas de criar o pânico , também servem para partilhar informação útil e para criar também, e penso eu que é importante, qual é a coisa correta a fazer.

Essa dinâmica é normal e é a demonstração que as tecnologias não são nem boas nem más, mas também não são neutras

E um dos grupos que nós estamos a falar tem muito haver com o ficar em casa, e portanto era uma forma de dizer aos outros - “eu estou a cumprir as regras necessárias para que isto corra pelo melhor e portanto quero que tu também saibas” - numa lógica de comunidade e criação de partilha com os outros. As redes sociais têm essas características, e é essa utilização que também podem ter.

quando a pandemia terminar estes grupos vão continuar a existir...

Há uma coisa para a qual devemos estar atentos, e isso vai um pouco ao encontro da pergunta que me estavas a colocar. Quando tudo isto passar, quando a pandemia terminar estes grupos vão continuar a existir e uma das coisas que o facebook tem, historicamente já vimos isso a acontecer noutros contextos, é que grupos com muita gente depois às vezes são de alguma forma apropriados por terceiros com outros fins. Podem ser na melhor das hipóteses comercial, mas podem ser na pior das hipóteses, efetivamente, desinformativos e com o objetivo de criar dinâmicas, aí sim, organizadas para criar algum tipo de perturbação social no quadro político, etc. É algo a que devemos estar atentos, para em geral olhar para tudo aquilo que foi criado e que fim vai ter, porque quando a pandemia terminar é natural que os grupos de apoio à situação de pandemia também esgotem aquilo que era o seu objetivo. Mas o grupo vai lá continuar com o mesmo número de participantes.

Que tipo de notícias falsas têm sido mais partilhadas ultimamente?

vimos surgir abordagens que olham para a China e para os cidadãos chineses como os causadores, criando um discurso de ódio

Eu acho que podemos dar um salto para a fase em que nos encontramos agora e para os últimos dias. É certo que o número e a frequência de notícias falsas, desinformação, e propaganda tem diminuído, mas vimos surgir uma outra abordagem. Nomeadamente, as abordagens que olham para a China e para os cidadãos chineses como os causadores, criando um discurso de ódio face à China e face aos chineses em geral. Ou se quisermos, porque a questão é um bocadinho mais vasta, à China e a todos aqueles que pareçam ser de origem asiática. E isso está a passar em vídeos, está a passar em imagens, em que a narrativa é a de que a primeira fase foi a difusão por parte do Governo chinês desta pandemia e depois que há chineses no mundo inteiro a tentar contaminar os outros.

Esta é uma fase muito mais perigosa porque coloca agora a busca da culpa

Esta é uma fase muito mais perigosa porque coloca agora a busca da culpa. Ou seja, tentar encontrar qualquer outro que seja o culpado, não há ainda um discurso muito centrado na ideia de os infetados portugueses vs os infetados não portugueses, que também pode ser algo que a dada altura vá acontecer, mas estamos a ver aquilo que já vimos noutras situações que é a busca de culpados, e a busca de identificar alguém que seja minoritário ou que esteja longe, um outro país, um outro grupo qualquer que ele seja dentro da sociedade, para o culpar do acontecido.

E é óbvio que esta é a parte que depois tem apropriações políticas, já as vimos no princípio disto tudo, por exemplo, quando houve a partilha de posts do PNR sobre o que é que o Governo português está a fazer relativamente aos chineses que estão a entrar em Portugal. E não sabemos até que ponto não vamos ver outras coisas mais escondidas, ou mais abertas, em termos de as quem está a propagar, precisamente em torno desta questão.

se há coisa que não é bom para ninguém são as pandemias

Estas são as mentiras mais estapafúrdias, a de que existe uma tentativa de propagar de propósito a pandemia, o que é totalmente absurdo porque se há coisa que não é bom para ninguém são as pandemias, porque tocam a todos indistintamente, de classe, de idade, qual seja a sua orientação sobre os mais diferentes aspectos da vida, seja a sua nacionalidade, a sua cultura, etc.

Até circulam imagens que atribuem a culpa à China pelos últimos grandes surtos de doenças, SARS, H1N1, gripe A.

Há uma coisa que nós historicamente temos, muitas das pandemias, ao longo da história, têm seguido o mesmo caminho e vêm do Oriente para o Ocidente, ou talvez seja assim porque o mundo sempre foi feito de rotas comerciais e de ligação de pessoas, produtos e bens à escala do planeta.

Aquilo que nós temos de estar atentos é à ideia da busca de culpar alguém

Aquilo que nós temos de estar atentos é à ideia da busca de culpar alguém, e isto não é que os chineses estejam isentos, porque também nos últimos dias, na China têm sido partilhadas informações dizendo que houve um atleta norte americano que participou nuns jogos internacionais na China e que foi daí que veio, por isso o vírus foi fabricado nos Estados Unidos. Portanto, uma vez desencadeado este processo ele não tem fim, todos são culpados, toda a gente busca em alguém a culpa.

E esse é o jogo que nós não podemos jogar. Isto se nós quisermos ter um planeta, que a seguir à pandemia não tenha uma guerra, porque vamos sempre olhando para estas coisas dos cavaleiros do apocalipse entre a fome, a doença, a guerra, etc. e há alguma sabedoria popular nestas matérias porque a fragilidade institucional leva a decisões estúpidas para as nações, e ao longo da história sempre tem sido assim.

Cabe-nos a nós que os governantes, independentemente de serem chineses, americanos, portugueses, alemães, italianos, sírios, sejam quais forem, brasileiros, seja qual for o local onde se exerce o poder, que não se resvale para a ideia de que é necessário resolver os problemas em casa, encontrando o culpado dentro de casa para o perseguir, ou o culpado fora da nossa casa para o atacar. E isso é o que a história nos mostra e cabe-nos a nós ter aprendido alguma coisa com a história, e não cairmos no mesmo erro proximamente.

 

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