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Memória: Aniversário da morte de um ícone

Dez razões pelas quais Lennon continua a ser importante. O beatle "mártir" mantém uma longa sombra sobre o mundo, não só no campo musical, mas também como referência político-social. Por Jordi Bianciotto.
Foto de Eric Koch / Anefo, Wikimedia.

1. Virou a música pop de cima para baixo

Com os Beatles promoveu a evolução do rock'n'roll até ao beat e daí para um pop sem limitações (psicadélico, experimentação sónica, orientalismo, orquestrações) cuja influência chega até hoje. ‘A day in the life’, que leva uma notícia de um jornal a um estádio alucinatório através de uma dinâmica "in crescendo" com traços de vanguarda, é em si uma revolução pop. A carreira a solo de Lennon, sem a gasolina da rivalidade com Paul McCartney, foi menos esmagadora, mas com "Fab Four" mudou o atlas da música e mais além. "A consciência universal da humanidade mudou-se para Liverpool", avisou o poeta Allen Ginsberg, em 1964.

2. Mais famoso que Jesus Cristo

A frase que comparava os Beatles com o enviado de Deus à Terra colocou as dimensões do monstro pop, varrendo referências coletivas seculares e indignando paroquianos. Na realidade, Lennon não estava a falar de grandeza ou transcendência, mas de popularidade, o outro ouro negro do século XX. A 'beatlemania' foi a mãe de todos os fenómenos juvenis e Lennon moveu-se confortavelmente, tornando a sua projeção pública parte do trabalho, que fez até à sua retirada, em 1975.

3. Uma voz pelo pacifismo

‘Give peace a chance’ (1969), tema associado a dois fins de semana na cama com Yoko Ono (um em Amesterdão e outro em Montreal), é o derradeiro acontecimento pacifista. Seguiu-se a devolução da medalha da Ordem do Império Britânico, em protesto contra a intervenção do Reino Unido em Biafra e o apoio aos EUA, no Vietname. O cidadão pacifista Lennon ganhou forma em 'Happy Xmas" (A guerra acabou)', '"Não quero ser uma mãe soldado' ou em 'Imagine'. Os seus ataques contra Nixon diminuíram na década de 1970, quando foi ameaçado de deportação com base numa antiga detenção por posse de canábis.

4. Contra a segregação racial

Numa das suas primeiras incursões nos Estados Unidos, em 1964, os Beatles depararam-se com um recinto, em Jacksonville (Florida), que dividia o público pela sua raça. O grupo ficou atónito. "Não tocamos para audiências segregadas e não vamos começar agora", disse Lennon, alertando para futuras digressões. A canção 'Angela' (1972) é dedicada a Angela Davis, ativista dos Panteras Negras, que na altura estava presa. E o álbum 'Rock'n'roll' (1975) afirma a negritude do género com peças de Chuck Berry, Fats Domino ou Bobby Freeman.

5. Feminista superveniente

Em "Getting better", dos Beatles, uma linha atribuída a Lennon fala de ter sido "cruel" com a esposa (Cynthia), um ponto confirmado por ele próprio, vinculando o maltrato aos valores tradicionais em que cresceu e a sua vida como membro de um gangue. A mudança que Yoko Ono deu à sua vida incluiu uma reeducação, procurando o seu "lado feminino, mais Oscar Wilde do que Marlon Brando", e escrevendo canções como "Woman is the nigger of the world" (1969). Após a sua união com a japonesa, o seu nome de nascimento, John Winston, tornou-se John Winston Ono, enquanto ela nunca adotou o seu apelido, ao contrário de Linda McCartney ou de Bianca Jagger.

6. A revolução do amor

Enquanto tantas canções dos anos 60 abriram questões e formulavam problemas, "All you need is love" deu uma resposta simples a tudo. Depois, a ligação obstinada e duradoura com Yoko Ono contra ventos e marés, incluindo a raiva de alguns fãs, levou à prática a sua revolução do amor (mesmo com licenças como o "fim-de-semana perdido" de 1973-74 em que Lennon brincou com a assistente pessoal do casal, May Pang). O amor rege uma boa parte do cancioneiro de Lennon, desde a explícita 'Oh Yoko' até à outonal 'Woman', passando pelo 'Jealous guy', uma confissão de coração aberto que humaniza o ciúme.

7. Poder para as pessoas

Antes de 'People have the power', de Patti Smith, e um pouco depois daquele verso de Joan Brossa ('La gent no s'adona del poder que té'), houve 'Power to the people' (1971), uma canção que Lennon escreveu após uma entrevista com os editores da New Left Review. Embora não tenha crescido numa família da classe trabalhadora, apontou-a em "Working class hero’, onde alertou para a alienação do entretenimento e do canibalismo social: "dizem que podes chegar ao topo/mas primeiro tens de aprender a matar sorrindo. A política nem sempre levou o seu melhor: o seu álbum mais empenhado, 'Some time in New York City' (1972), foi o pior da sua discografia.

8. Colocou a fama à distância

Com o nascimento de Sean Lennon, em 1975, desapareceu a perspetiva pública da vida doméstica, tão negligenciada, quando Julian veio ao mundo (1963). Retira-se a favor da estabilização da sua paisagem emocional, depois do barulho. O testemunho dessa época é a simpática (ou inofensiva) 'Cookin' (in the kitchen of love)", que não lançou em seu nome, mas deu-a a Ringo Starr para o álbum 'Rotogravure'. Mesmo afastado da fama, foi esta que acabou com ele. Os disparos de Mark David Chapman cobririam para sempre o seu álbum de regresso: 'Double fantasy' (1980),

9. Enfrentou o "renascimento"’

Uma grande parte do mito "beatle" baseia-se na recusa dos seus membros em aceitar as ofertas de encontros que receberam ao longo dos anos 70 (seguidos de outros, após a morte de Lennon). Houve tentativas que, variando de acordo com a fonte, foram abortadas por um ou outro (ou por Yoko Ono), o que evitou os episódios de degradação proporcionados por tantos tombos recauchutados.

10. (Quase) ninguém escapa à sua influência

Pop como um todo, deriva em grande proporção das descobertas de Lennon com os Beatles, incluindo devotos confessados como o falecido Kurt Cobain, bem como Oasis, Paul Weller, Lenny Kravitz, Elvis Costello, Cheap Trick, Mercury Rev, Tori Amos, Miguel ou Mac DeMarco. E o clássico "Imagine" com um fundo duplo que se ouve em tantos funerais, apesar do niilismo que insinua nas suas linhas, tem mais de 200 versões gravadas por todos os tipos de artistas, incluindo Madonna e Lady Gaga.

*Jordi Bianciotto - Jornalista e crítico musical.

Traduzido por António José André para Esquerda.net

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