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Médio Oriente: O Califado aproxima-se do fim? (2ª Parte)

Para os curdos em Rojava e no território do Governo Regional do Curdistão (GRK) este é um momento chave: se a guerra contra o Estado Islâmico (EI) terminar, o poder que conquistaram recentemente poderá desaparecer rapidamente. Esta é a segunda parte do artigo de Patrick Cockburn.
Foto de Kurdishstruggle.

Pode ler aqui a primeira parte deste artigo: Médio Oriente: O Califado aproxima-se do fim? (1ª Parte)

Eles são, no final de contas, apenas Estados pequenos - o GRK tem uma população de cerca de seis milhões e Rojava de 2,2 milhões - rodeados por outros Estados bem maiores. E as suas economias mal sobrevivem. Rojava está bem organizada, mas bloqueada por todos os lados e não pode vender muito do seu petróleo. Setenta por cento dos edifícios em Kobani foram destruídos pelos bombardeamentos dos Estados Unidos. A população fugiu de cidades como Hasakah que estão perto da linha da frente. Os problemas económicos do GRK são graves e provavelmente irresolutos a não ser que se registe um aumento inesperado do preço do petróleo. três anos, anunciava-se a si mesmo como 'o novo Dubai', um entreposto comercial e Estado petrolífero com rendimentos suficientes para ser independente de Bagdad. Quando o boom do petróleo atingiu o seu pico em 2013, os recém construídos hotéis de luxo em Erbil estavam cheios de delegações internacionais de comércio e homens de negócios. Hoje em dia, os hotéis e centros comerciais estão vazios e o Curdistão iraquiano está cheio de hotéis e edifícios de apartamentos que ficaram por construir. O fim do boom do GRK foi um golpe devastador para a população, sendo que muitas pessoas estão a tentar emigrar para a Europa Ocidental. orações frequentes nas mesquitas para recordar os que se afogaram no Egeu durante a travessia desde a Turquia até às ilhas gregas. Os rendimentos petrolíferos do Estado situam-se agora em cerca de 400 milhões de dólares ao mês; mas a despesa é de 1,1 mil milhões de dólares, pelo que parte dos 740.000 funcionários públicos não recebem o seu salário. Em desespero, o governo apropriou-se do dinheiro dos bancos. "A minha mãe foi ao seu banco, onde pensava que tinha 20.000 dólares”, contou-me Nazdar Ibrahim, uma economista da Universidade de Salahaddin em Erbil. "Disseram-lhe: 'Não temos o dinheiro porque o governo requisitou-o'. Ninguém está a colocar o dinheiro no banco, o que está a destruir o sistema bancário”.

O GRK anunciou-se como um 'Iraque diferente' e, em alguns aspectos, é-o: é bem mais seguro para viver do que Bagdad ou Bassorá. Apesar de Mossul não estar muito longe, registaram-se poucos ataques com bombas ou sequestros no Curdistão iraquiano em comparação com o resto do país. Mas o GRK é um Estado petrolífero que depende totalmente dos rendimentos do petróleo. A região não produz quase mais nada: inclusive as verduras nos mercados são importadas da Turquia e Irão e os preços são altos. Nazdar Ibrahim disse que a roupa que poderia comprar na Turquia por 10 dólares custa três vezes mais aqui; ela assinalou que viver no Curdistão iraquiano é tão caro como viver na Noruega ou na Suíça. O presidente do GRK, Massoud Barzani, anunciou que vai celebrar um referendo sobre a independência curda, mas esta não é uma opção atraente num momento de ruína económica geral. Asos Hardi, editor de um jornal em Sulaymaniyah, diz que os protestos estão a estender-se e que, em todo caso, “inclusive no meio do boom, se podia notar a ira popular pelo clientelismo e a corrupção". O Estado curdo iraquiano - longe de se tornar mais independente - vê-se obrigado a olhar para os poderes externos, incluindo para Bagdad, para evitar um colapso económico maior.

Estão a ocorrer situações semelhantes noutras partes da região: as pessoas que conseguiram escapar de Mossul dizem que o Califado está a ceder perante a pressão militar e económica. Os seus inimigos tomaram Sinjar, Ramadi e Tikrit no Iraque e as Unidades de Proteção Popular (YPG) e o exército sírio estão a avançar de novo na Síria e estão a aproximar-se de Raqqa. As forças terrestres que estão a atacar o EI – as YPG, o exército sírio, as forças armadas iraquianas e os Peshmerga - têm contingentes reduzidos (na luta por Ramadi, a força de assalto militar iraquiana contava apenas com 500 homens), mas podem solicitar ataques aéreos devastadores a qualquer posição do EI. Desde que foi derrotado em Kobani, o EI evitou batalhas frontais e não lutou até o último homem para defender nenhuma das suas cidades, ainda que tenha considerado fazê-lo em Raqqa e Mossul. O Pentágono, o governo iraquiano e os curdos exageram o alcance das suas vitórias sobre o EI, mas este sofreu grandes perdas e está isolado do mundo exterior com a perda da sua última ligação com a Turquia. A infraestrutura administrativa e económica do Califado começa a ceder mediante a pressão dos bombardeamentos e o bloqueio. Esta é a impressão que transmitem as pessoas que abandonaram Mossul no início de fevereiro e se refugiaram em Rojava.

A sua viagem não foi fácil, já que o EI proíbe a população de sair do Califado – não quer um êxodo em massa. Os que escaparam informam que o EI se está a tornar mais violento na imposição de fatwas e regulamentos religiosos. Ahmad, um comerciante de 35 anos de idade, de al-Zuhour, em Mossul, onde é proprietário de uma pequena loja, informa que, “se alguém é acusado de se ter barbeado, são-lhe dadas trinta chicotadas, quando no ano passado tê-lo-iam simplesmente preso durante umas horas”. O tratamento das mulheres em particular piorou: “O EI faz questão que as mulheres usem véu, meias, luvas e roupa larga e, se não o fizerem, o homem que as acompanha será chicoteado”. Ahmad disse também que as condições de vida se deterioraram drasticamente e as ações dos membros do EI se tornaram mais arbitrárias: "Levaram alimentos sem pagar e confiscaram grande parte do meu stock com o pretexto de apoiar os milicianos do Estado islâmico. Tudo é caro e as lojas estão meio vazias. Os mercados estavam cheios de gente num ano, o que não aconteceu nos últimos dez meses, porque muitas pessoas fugiram e as que ficaram estão no desemprego". Não existe rede elétrica há sete meses e todos dependem dos geradores privados que funcionam com combustível refinado localmente. Este está disponível em todo lado, mas é caro e o combustível é de tão má qualidade que só funciona nos geradores e não nos automóveis - e os geradores avariam-se com frequência. Há escassez de água potável. "A cada dez dias, há água durante duas horas," disse Ahmad. “A água que sai das torneiras não é limpa, mas temos de a beber". Não há rede de telefone móvel e a Internet só está disponível em alguns cyber-cafés que são vigiados de perto pelas autoridades. Há sinais de crescente criminalidade e corrupção, embora esta possa ser sobretudo uma evidência de que o EI está a necessitar desesperadamente de dinheiro. Quando Ahmad decidiu fugir contactou com um dos muitos contrabandistas que operam na zona situada entre Mossul e a fronteira síria. Ele assinalou que o custo cobrado a cada pessoa pela viagem até Rojava fixa-se entre 400 e 500 dólares. “Muitos dos contrabandistas são homens do EI”, referiu, mas não sabia se os líderes da organização sabiam o que estava a acontecer. Eles têm conhecimento, sem dúvida, das crescentes queixas sobre as condições de vida, já que citaram um hadith (palavras do Profeta) contra tais queixas. Aqueles que violem o hadith são detidos e enviados para reeducação. A conclusão de Ahmad: "Os ditadores tornam-se muito violentos quando sentem que o seu fim se aproxima”.

Até que ponto está correta a previsão de Ahmad de que o Califado está nos seus últimos dias? Está certamente a debilitar-se, mas isso acontece essencialmente porque a guerra se tem vindo a internacionalizar desde 2014 com a intervenção militar dos EUA e da Rússia. Os poderes locais e regionais contam agora menos. Os exércitos do Iraque e da Síria, as YPG e os peshmerga podem conquistar vitórias ao EI graças ao apoio aéreo massivo. Podem ganhar a batalha e, provavelmente, podem reconquistar as cidades ainda sob o controlo do EI, mas nenhum deles seria capaz de atingir plenamente os seus objectivos de guerra sem o respaldo contínuo de uma grande potência. No entanto, uma vez que o Califado seja derrubado, os governos centrais em Bagdad e Damasco poderão tonar-se mais fortes novamente. Os curdos perguntam-se se correm o risco de perder tudo o que conseguiram conquistar até agora na guerra contra o Estado Islâmico.


Artigo publicado no Counter Punch.
Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net.

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