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Marrocos mantém preso homem que passou 13 anos em Guantánamo

Younous Chekkouri foi libertado de Guantánamo sem acusações em setembro de 2015 e levado para Marrocos com o compromisso de que seria colocado em liberdade à chegada. Artigo de Olga Rodríguez.
O marroquino Younous Chekkouri, detido por treze anos em Guantánamo e agora ainda sem liberdade em Marrocos.

A história de Younous Chekkouri é a de uma vida interrompida por uma prisão sem julgamento, por uma pena sem acusações e por uma condenação agora prolongada. Depois de passar quase catorze anos preso em Guantánamo, os seus advogados denunciam que Marrocos o mantém detido numa prisão perto de Rabat, não cumprindo as garantias de liberdade prometidas.

Proveniente de uma família muito pobre de Marrocos, Chekkouri viajou em 1990 para o Paquistão para estudar e procurar trabalho. Algum tempo depois, depois dos atentados do 11 de setembro, as autoridades paquistaneses realizaram detenções em massa de árabes, à procura de suspeitos.

Chekkouri foi preso na fronteira e mantido na cidade afegã de Kandahar, entregado depois a tropas dos Estado Unidos e finalmente transferido para Guantánamo, sem julgamento e sem oportunidade de oferecer a sua versão dos factos. Foi acusado pelos seus interrogadores de ser membro de um grupo terrorista marroquino, algo que sempre negou. Em Guantánamo foi-lhe atribuído o número 197. Em 2014  publicou um artigo que começava assim: "Meu nome é 197. Tenho um nome, mas às vezes  esqueço-o. Aqui ninguém me chama pelo meu nome, porque meu mundo é Guantánamo".

Em 2013 Chekkouri fez uma greve de fome para protestar contra a situação.


Os Estados Unidos retiraram as acusações

Quando estava há oito anos em Guantánamo, as autoridades dos Estados Unidos retiraram todas as acusações contra ele num processo que obteve o acordo unânime de seis agências federais dos Estados Unidos, incluindo a CIA e o FBI. Todas elas estabeleceram que não apresentava uma ameaça nem para Estados Unidos, nem para seus aliados. Mas continuou detido. Tal como muitos outros presos de Guantánamo, Chekkouri arriscava-se a ser preso se o enviassem ao seu país de origem, Marrocos.

Os seus advogados tentaram acelerar a sua libertação e pressionar para que o seu destino fosse a Alemanha, onde vivem os seus tios.

“Younous sempre foi um dos prisioneiros mais cooperantes e pacíficos que Guantánamo teve. Diz que não deseja nada de mau aos americanos, o seu maior desejo é reunir-se com a sua mulher e continuar com a vida tranquila que foi interrompida pela “guerra contra o terror” dos Estados Unidos”, disseram então os seus advogados, da organização britânica de direitos humanos Reprieve.

Guantánamo: 14 anos de torturas, maltrato e detenções indefinidas sem cargos nem julgamentos.


Transferido vendado e algemado

No passado mês de setembro, treze anos após chegar a Guantánamo, Chekkouri alcançou a liberdade. As autoridades dos Estados Unidos optaram finalmente por enviá-lo para Marrocos. Deixou Guantánamo do mesmo modo que chegou: vendado e algemado. "Durante a sua transferência para Marrocos, viajou com os braços presos às pernas, vendado e com auriculares para privar-lhe da visão e da audição", denunciam os seus advogados.

Os advogados da Reprieve obtiveram garantias por parte dos Estados Unidos e de Marrocos que na chegada ao seu país de origem não seria preso por mais de 72 horas. No entanto, quatro meses depois, Chekkouri continua detido numa prisão marroquina.

"Younous foi torturado e maltratado durante anos. Como se isso não fosse suficiente para um homem que os Estados Unidos reconheceram que nunca deveriam ter prendido, agora ele continua privado de liberdade. Se tivéssemos sabido que Marrocos não iria cumprir o seu compromisso, jamais lhe teríamos permitido voar para o seu país", explicam em conversa com este diário.

O governo de Marrocos nega que tenha havido algum acordo para que fosse posto em liberdade: “Houve um acordo, mas este não incluía nada sobre sua libertação”, assegurou em novembro o ministro da Justiça de Marrocos, Mustapha Ramid. “Os norte americanos têm suas leis e preocupações e nós temos as nossas leis e instituições”, assinalou o ministro.

Garantias de liberdade não cumpridas

A organização britânica Reprieve faz questão de sublinhar que não se está a cumprir o acordo alcançado para a libertação do seu representado. “Ou os servidores públicos do departamento de Estado dos Estados Unidos nos enganaram repetidamente sobre as verdadeiras intenções de Marrocos, ou Marrocos é um país que faz promessas diplomáticas livremente e as rompe rapidamente”, explica a advogada Cori Crider.

“Os Estados Unidos sabiam há anos que não havia fundamento algum nas acusações contra o nosso cliente, e poderiam tê-lo posto em liberdade com um simples telefonema”, denuncia a Reprieve. “Por que não se está a fazer disto uma grande questão nas relações entre os Estados Unidos e Marrocos?”, pergunta Crider.

Reprieve, que está a fazer uma campanha para conseguir a sua liberdade, sublinha que Chekkouri é um homem inocente, que não deveria esperar mais tempo para ser livre, depois de treze anos de pesadelo em Guantánamo: “os Estados Unidos admitiram que não tinham base alguma para a sua detenção em Guantánamo, e não deveriam permitir que Marrocos incumpra com as garantias acordadas”.

Em Guantánamo, Chekkouri era o preso 197. Os guardas não o chamavam pelo nome, mas pelo número.


"Ponham o meu marido em liberdade"

A esposa de Chekkouri, Abla, está há catorze anos à espera de o poder voltar a ver. “Peço-lhes  uma coisa. Façam com que Marrocos cumpra as suas promessas. Por favor, consigam pôr em liberdade o meu marido. Depois de catorze anos de injustiça só quero que este pesadelo termine. Só quero que Younous regresse ao meu lado”, escrevia recentemente num artigo publicado na revista Newsweek.

Os advogados de Reprieve temem que Marrocos possa ter retomado contra Chekkouri as acusações retiradas pelos Estados Unidos. No passado mês de dezembro, a Administração de Obama entregou um documento secreto à justiça marroquina, ao qual os advogados do preso não tiveram acesso.

“É difícil levar em sério as afirmações de Obama, prometendo corrigir os erros de Guantánamo, quando ao mesmo tempo a Administração dos Estados Unidos não levantou um dedo para que se cumpram as garantias dadas por Marrocos para que Chekkouri não continue preso”, denunciou o advogado Joe Pace.

“O governo dos Estados Unidos sabe há anos que as acusações contra Younous são infundadas. Já é mau o suficiente que tenha passado 13 anos detido em Guantánamo sem provas contra ele; agora parece que o governo está disposto a deixar que apodreça numa prisão marroquina de forma indefinida”, acrescenta.

"É como se estivesse de novo  em Guantánamo", protesta a família de Chekkouri.

Algo mais do que transferir os presos

Precisamente nesta semana cumpriram-se catorze anos da abertura de Guantánamo. Apesar das promessas do presidente Barack Obama, a prisão em que se praticaram torturas sistemáticas durante os interrogatórios continua aberta, com mais de cem presos sem acusações, nem direito a julgamento.

Nesta segunda-feira, diversas organizações de direitos humanos, como a Amnistia Internacional, exigiram o encerramento de Guantánamo e o fim das torturas e das detenções indefinidas sem acusações nem julgamento. 

"Guantánamo converteu-se num símbolo internacional de tortura, de rendições e de detenção indefinida sem acusações, nem julgamento. O seu encerramento não significa simplesmente transferir os  detidos para outro lugar e apagar as luzes do centro. Significa terminar por completo com estas práticas e fazer que se prestem contas pelos abusos cometidos no passado", insiste a Amnistia Internacional.

Artigo de Olga Rodríguez, publicado no El Diario a 11 de janeiro de 2016.

Tradução de Joana Campos para o esquerda.net.

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